PALAVRAS EM TELHADOS DE VIDRO

ELEMENT OF CRIME | YOU SHOULDN´T BE LONELY

Como se as palavras pudessem ser apenas elas mesmas,

Como se não fossem elas uma promessa,

Um compromisso com a acção,

Uma esperança, dor, ou declarada intenção.

Fossem  as palavras vazias de uma só voz,

E não teríamos nós nunca chegado tão longe.

Quando um se diz ser um homem de palavra,

Explica-se então o alcance da palavra,

A relevância de tudo o que é dito, escrito.

Mas a bebedeira instala-se, por vezes em demasia,

Entre as letras que constroem as palavras,

E toda a mentira é então uma ébria palavra,

E toda a palavra é em si uma promessa,

Enigmática, ouvida por cada um, de formas várias,

Essa mesma palavra dita apenas uma única vez por quem lhe dá vida.

Assume então, essa mesma e única palavra, tantas promessas diferentes,

Até contrárias, contraditórias, desmentindo-se de pessoa em pessoa,

De verdade em verdade, até se fazer mentira.

Ensina-me então o caminho das palavras,

Assim como me ensinaste o caminho das pedras,

Porque se as pedras magoam, mais ferem as palavras.

Veja-se quanto pode magoar uma pedra nunca lançada,

E olhe-se o efeito devastador que pode ter a palavra não dita.

A HISTÓRIA DE UM BAIRRO EM LUGAR ALGUM

THE SLOW SHOW | MOUNTBATTEN

Agora que vivo uma história dentro de uma história, meu amor, tenho que dizer-te que o tempo passou de tal forma pela mulher que sou que a mais pequena de duas histórias  se tornou, ela própria, na maior das duas, como o conteúdo se torna o contentor.

É hoje tarde demais para que tudo volte aos lugares onde se arrumavam a minha vida e todas as leis que a regiam, a mim e à minha existência, que desde sempre foram duas coisas completamente diferentes.

Sabe que compreendo todas as tuas lágrimas, meu amor, bem como tu aceitas as minhas. Sabe também que se me encontro espantada pela forma como uma pequena história que cabia dentro de outra, num rápido passar de pouco tempo, trocou de lugar em mim. Também sei que tu quando olhas para trás, vês que o muro que nos separa está apenas a meio braço de distância dos teus olhos, mas que ainda assim não o consegue alcançar. E apenas porque é tarde demais. Imaginar a tua frustração pouco serve o teu sofrimento, sei bem, bem como tu sabes que para mim acontece uma libertação que não lamento do fundo da minha vontade, mentiria se o dissesse assim.

Aqui não há contrários, porque o contrário de altruísmo não é o egoísmo, é tão só e apenas o desencontro das nossas vontades mais profundas.

Sim, chorar choramos os dois, porque em nós vive um altruísmo que sangra à passagem do sofrimento do outro e que guardamos no peito, bem no espaço de tolerância e compreensão por tudo o que nos é diferente, mas nunca indiferente, assim é o respeito que há entre nós.

Sim, sei que choramos os dois, mas que um de nós se parte por dentro para que o outro se liberte, e eu sei que sou a mulher que se liberta e tu o homem que se parte para que eu me possa acontecer desta forma. Isso não faz de mim egoísta, pois se há muitas e tantas coisas que desconheces em mim, o fundo cristalino do meu coração não é certamente uma delas, isso é coisa que sempre soubemos ver no outro sem dúvidas nem reservas.
Nada disto faz de mim egoísta, mas certamente faz de ti altruísta, como poucos o conseguem ou sabem ser.

Obrigado por deixares que me liberte levando apenas as minhas dores, sem dúvida menores que as tuas, aliviando-me a carga das mil e muitas espectativas que, ao contribuir eu também para que crescessem e ganhassem vida, nunca foram verdadeiramente minhas, sei-o hoje.

Pois que Deus te guarde e mais te acompanhe num desgosto que rapidamente se tornará esperança. Obrigado e desculpa que te encoste eu entre as tuas vontades: a de nos querer a ambos.