SOBRE O MEDO E A GEOMETRIA

LLOYD COLE AND THE COMMOTIONS | FOREST FIRE (EXTENDED VERSION)

A noite cai-te aos pés, pela voz de uma mulher que espraia uma ira que faz de chuva a escorrer numa calçada que existe numa Lisboa que apenas parece uma noite de Junho, sem vento, em Casablanca. Está calor. Está muito calor.

Esquecida a agitação de uma cidade que se faz de um glamour em terraços de hotéis, em correrias de hotel em hotel, para que não falte uma festa para ver e ser-se visto. Não, Lisboa é só apenas essa temperatura que acontece e esse vento que não se faz, e não chove, não troveja, mas Marina faz uma tempestade num copo vazio, escapam-lhe os telhados da tranquila e bonita cidade, onde até os gatos a tratam bem e lhe lançam um sorriso cúmplice da luz que se projeta em tom quente nas telhas de um telhado. Mas é tarde, é tarde para não ter medo, é tarde para não gritar em surdina um desespero que se instala como uma sanguessuga que se agarra à sua perna na travessia de um riacho, mas é só Lisboa.

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SOBRE FINS E SOBRE COMEÇOS, E SOBRE TUDO SOBRA TUDO

BISHOP ALLEN | START AGAIN

A pura poesía da vida reside na certeza de podermos viajar apenas fechando os olhos e usando a imaginação e a criatividade.

A grande tragédia da vida dá-se no regresso, naquele preciso momento em que abrimos os olhos e nos encontramos no ponto de partida, ainda de malas feitas, sem a experiência da viagem e apenas com o registo da memória.

E é nesse vai e vem de quem não foi a lado nenhum que te encontras tu.

Eu deste lado escrevo as teclas com a dedicação de quem entrega as mãos ao piano, deixando que as notas saiam pela porta aberta da minha sala em direcção ao meu jardim.

Elas saltam de telhado em telhado, a caminho do igreja e dos seus sinos de fim de tarde, para marcarem presença na sinfonia da Igreja da Estrela.Eu vivo uma música mais alegre, não que seja mais bonita que a tua feita das notas minhas, apenas diferente, talvez mais livre. Ou talvez não, podemos todos ter as nossas grades e só a vista ser diferente. É mais isso, digo eu.

INSTRUÇÕES PARA CHORAR

ANGIE MCMAHON | PASTA [OFFICIAL VIDEO]

[…] Deixando de lado os motivos, vamos ater-nos à maneira correcta de chorar, entendendo por isto um pranto que não entre no escândalo nem insulte o sorriso com a sua paralela e torpe semelhança. O pranto médio ou comum consiste numa contracção geral do rosto e num som pasmódico acompanhado de lágrimas e ranho, este último no fim, porque o pranto acaba no momento em que nos assoamos energicamente. Para chorar dirija a imaginação para si e, se isso for impossível, por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães onde ninguém entra, nunca. Chegado o pranto, tapar-se-á com decoro o rosto usando as duas mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão com a manga do casaco contra o rosto e, de preferência, a um canto do quarto. Duração média do pranto: três minutos. […]


Julio Cortázar, em “Histórias de Cronópios e de Famas”

SÓ VALEM A PENA OS CAMINHOS DE CORAÇÃO

CÉU | CARINHOSO

Por vezes não nos resta mais do que a verdade, doa a quem doer, sofra quem sofrer. E tantas e tantas vezes, da verdade, sai magoado quem a entrega com dignidade, assim como sai magoado quem a recebe com igual dignidade. Assim é quando se encontram ou desencontram duas almas de valores ao alto, humildes, falíveis, mas de coração no sítio certo.

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