UM DOM JOÃO NINGUÉM

NATION OF LANGUAGE | A DIFFERENT KIND OF LIFE

Às vezes, e tantas são essas vezes, há quem me pergunte quanto amei, quem mais, e mais não sei o que mais, mas sei que há mais, como seu eu fosse uma enciclopédia do amor com calculadora científica incorporada. Se fui feliz, quanto, mais com quem e quando, como se isso fossem respostas que se têm sob o formato de coordenadas de georreferenciação debaixo da língua.

Um dos denominadores comuns nos dois (ou mais) grupos de perguntas é que estas esperam respostas com um passado glamoroso, cheio de sensualidade, sexualidade, sedução, tudo devidamente regado por uma auto estima sólida como uma montanha milenar, inabalável, com alguma coisa para ensinar a quem gostaria de se sair melhor (ou mais) nas artes do amor e da conquista.

Ninguém jamais perguntou pelas lágrimas que caíram ao chão, das boas músicas que, para um gajo como eu que se faz de água e música, se tornaram por tempo indefinido proibidas de serem postas a tocar, por despertarem em mim felizes emoções que haviam como morrido precocemente, sabendo que não as veria mais! A não ser, claro, em indesejáveis noites não dormidas ou de acordares em suores frios.

Eu também dispensava essa parte, acreditem, mas parece não se fazer bom caril de camarão sem picante, pelo que as feridas e até algumas lesões crónicas foram uma factura que sempre chegou no correio.

Por isso mesmo, e cada vez mais, evito esse tempo dispensado e entregue ao brilhante imaginário dos outros, mas que não me satisfaz nem alma nem ego, não mais.

Só se tem vinte anos por uma década, e por muito que queiramos esticar a coisa pelos trinta já estamos a apostar mais em lesões irreversíveis do que numa prática romântica saudável.

Não me quero vitimizar, fui feliz em cada amor, mais do que podia pedir, mas também sofri mais do que alguma vez pedi cada vez que um deles chegou ao fim. Não só não sou uma estrela do cinema romântico da vida real como, nessa matéria, não vejo mais do que pessoas que por estreladas que são, na quebra de um amor e coração, ainda têm que lidar não só com tudo aquilo que lidei eu, como ainda com a terrível pressão das expectativas de outros que por sinal nem foram chamados a criá-las. Um horror, portanto.

Prefiro morrer de amor dez vezes no anonimato do ue um ter um desgosto amoroso mediático ou até mesmo minimamente público.

A verdade é que desejo o anonimato em praticamente tudo na minha vida, é das maiores liberdades a que nos podemos entregar, um luxo imensurável. Ainda assim, sabendo de umas várias de mãos cheias de pessoas que me conhecem a fama de grande sedutor, que não vou hipocritamente sacudir dos meus ombros (fiz por isso), sou chamado demasiadas vezes a responder pelas histórias que trago comigo em tertúlias e ajuntamentos de amigos. Sou cada vez mais monossilábico e desmancha prazeres nesse campo, lamento. Sinto que já vivo mais de rendimentos, e já os sinto como hipotecas em vez de dividendos.

O que queria, depois destes anos, era aprender, talvez, ou mesmo que me ensinassem a amar tranquilamente e não colher qualquer tipo de inveja por isso.