A MANHÃ DESSE DIA QUE COMEÇA

CRAIG ARMSTRONG | THIS LOVE

Ela abriu os olhos, acordou o corpo, numa madrugada chovida lá fora, em gordas gotas choradas por um céu azul.

À sua volta, sem a acordar, tinham nascido e crescido poemas em flor, em canteiros que se haviam arrumado no seu quarto, enquanto descansava o corpo e a alma.

Assim nascia o seu dia, florido em versos, só para marcarem presença na magia do momento em que o dia a descobria, como todos os dias.

Era afinal um poemário de bom dia, um conjunto de versos que se arrumavam, que conspiravam, entre eles, para celebrar mais um dia a que ela se oferecia à sua existência.

Foi isto que António imaginou, ainda por acordar, naquele momento em que já não dormia, mas em que ainda só se fazia de sonhos, versos de prosa poética em que tudo está certo, sem lugar a enganos, e tudo se permite.

São as horas em que o dia ainda não se foi fazendo de pequenas mentiras, mesmo quando mentir não é o contrário de dizer a verdade, apenas se organizam essas forças, para que que a vida, tal como é e tal como se sente, possam passar o dia juntas em paz e habitarem o mesmo coração.

Os poemas mais belos e verdadeiros, em António, davam-se nessa hora em que, ainda na cama, já de alma acordada, não tomava ainda o contacto com a luz das janelas com vista para a vida, tal como ela acontecia lá fora. É, por assim escrever, por assim dizer, o tempo em que se sonha desperto. O mais honesto tempo dos dias.