A PAZ EM TEMPOS DE GUERRA

AVISHAI COHEN TRIO | HALELYAH

O que mais gostava nos becos era o eco. Bem como saber-se recolhido enquanto o fim de frente em forma de um muro intransponível. Olhos na parede pintada e suja por existências miseráveis, mãos nos bolsos, agora como quem desafia o sicário na sua própria casa, a sua viela imunda protegida por uma noite sem luar, sem movimento e num cenário pós holocausto, assim eram os dias desta história, dias de guerra e recolher obrigatório, medo e insegurança. No entanto, António, ainda de mãos nos bolsos e com a tranquilidade de uma espiga numa planície sem vento, olha o sicário no fundo dos olhos, entre o assassino e três paredes.

O sicário espera, os seus olhos vão gelando nos olhos de António, mas vão perdendo o brilho cintilante da confiança perante a tranquilidade do olhar do António das mãos nos bolsos e da postura relaxada de quem está certo do que vai acontecer. O homem de cara marcada pelo medo dos outros aumenta o ritmo da sua respiração, alivia a pressão da mão na navalha que traz aberta no bolso. Disfarça as suas intenções enquanto António respira como quem se foca em apreciar os aromas de um campo de flores silvestres, ali, no meio dos escombros de um prédio arruinado e de urinas acumuladas ao longo de noites e dias como este. O homem da cara marcada roda meia volta sobre si próprio e dirige o olhar para o topo de um prédio, como quem vem apenas confirmar alguma coisa.

Diz “Boa noite” e vai saindo de cena com a subtileza de um gato que sabe ter perdido o território.
Para António, a beleza de ter perdido o medo morra no horror de não ter já nada a perder, mas sente-o também como uma conquista de que jamais abdicará. Mesmo que quisesse. São tantas vezes que queria sentir medo como todos, mover-se pela esperança de que se fazem a vida dos homens e das mulheres das cidades que foram tomadas de assalto pelo terror da guerra. Mas não consegue, mesmo tentando, ao pensar nas suas vítimas, as que perdeu por razões que ninguém conhece mas num mundo em que todos fazem escolhas e tomam lados cheios de certezas de nada.


Mas as coisas não se passam assim com ele, e é aí, nesse preciso ponto do pensamento que António sabe que é um homem que se fez um animal feroz. O fim, o sofrimento, a morte, será sempre para ele uma surpresa, nunca precedida pelo medo, pelo pânico ou pelo terror. Irá de olhos abertos e com um sorriso de Gioconda.