A WIRELESS KIND OF LIFE

OPERATORS | SHAPE OF THINGS

As lâmpadas de toda a casa controlam-se numa app: a sua intensidade, temperatura e até o tom, por uma app. Posso acender luzes e apagar estando em casa de amigos, para espantar a ladroagem ou apenas assustar a empregada.

A televisão, quando se liga, tem uma app que permite navegar por todas as suas funcionalidades, umas mais úteis que outras.

O audio-streamer que tenho, onde cabem os oito mil discos que tardei a vida a coleccionar, cabem lá dentro e tudo pode ser controlado por uma app. Só uso em caso de preguiça aguda pois a qualidade do som, que é extraordinária, ainda não substitui a do meu leitor de cd’s ou o meu gira-discos, mas oiço Spotify em modo High End. Com uma app, claro.


Posso acender as luzes de casa enquanto estou no trabalho, no cinema e até mesmo em Paris ou Nova Iorque numa app.

Através de duas apps posso saber que discos e livros tenho, em que edições, se em capa dura ou mole, de em cd ou vinil, mesmo que esteja numa favela do Rio de Janeiro e aprender a dançar samba com uma carioca capaz de me fazer trocar a app dos discos com a dos livros.

Tenho uma app que me permite, estando na Austrália, que espaço tenho no meu frigorífico dos vinhos e, como tal, quanto vinho australiano poso levar e por ao fresco.

Posso pagar o estacionamento de um amigo no Chiado ou pedir um Uber para uma das minhas filhas, do centro de Lisboa para Marvila, mesmo estendido na beira de uma piscina no meio da Toscana. Através de um app, claro.

Tenho acesso a todos os discos do mundo, esteja onde estiver, se combinar tudo o que três apps têm para me dar, e posso fazer um video em directo do Tibete para uma comunidade de onze mil e tantas pessoas que me seguem numa conta de Instagram que responde a um pseudónimo meu.

Há leilões onde marco presença, como coleccionador de peças de design de autor, estendido no meu sofá, dispensando os botões de punho e o lenço na lapela, podendo licitar em calções e chinelos. Tenho uma app para isso.

Corro na passadeira, em casa, numa passadeira que não só caberia no bolso da saia da Montserrat Caballé (se Deus não a tivesse resgatado para si) como me mede os passos, calorias perdidas, monitorização de objectivos e ainda me dá prémios (gadgets de electrónica de consumo, relógios, cartões de oferta na Amazon) bem como me dá a possibilidade de correr por causas nobres que resultam em apoios financeiros a instituições de solidariedade social e humanitária ou mesmo até me permite financiar, através de crowdfunding, projectos que me sinta impelido a ajudar. Tudo isto vejo numa app, consigo medir e até ver quantos milhões de dólares já determinado projecto consegui de financiamento através dos passos de cada habitante à face da terra que tenha uma passadeira como a minha.

O que realmente me assusta é quando só conseguir puxar o autoclismo com uma app. Como não sou um gajo muito de telemóveis de última geração sofro já por antecipação de uma tremenda preocupação por quando chegar o momento em que o meu iPhone já não faz actualizações e preciso de ir a correr comprar um novo para puxar o autoclismo, o que naturalmente vai dar merda, claro.