AS VIDAS COR DE ROSA SOBRE FUNDO DESCONHECIDO

HAZEL ENGLISH | OFF MY MIND

É no gelo dos dias que dela se faz medo no fundo da sua existência, um existência que não entende lá muito bem, mas não será por isso e pela vontade de não permitir que os seus fantasmas se intrometam entre si e o seu espelho, que eles vão deixar de existir e manifestarem-se da forma que bem lhe aprouver. Já deveria saber que os fantasmas não aparecem nas selfies, nem nas fotografias de grupo. E estes, os que moram dentro de nós, nem se denunciam num clarão. Esses são os dois filmes do cinema e dos filmes que fazemos para “piadar” com o assunto.

O assunto, aqui, é bem mais sério, e não dedique uma pessoa uma parte do seu tempo, periodicamente e disciplinadamente, a olhá-los nos olhos e tratá-los pelos nomes, impondo-se à vil vontade dos energúmenos, e eles vão alimentar-se da indiferença a que os sujeitamos, da ignorância a que nos condenamos, não devendo esperar mais do que andarmos uma espécie de ilusão de controlo que não é mais do que viver em roda livre, expostos aos ventos cruzados.

Perguntava-lhe ela porque é que ele teimava em pensar em certos assuntos que estavam mortos e enterrados. Ele tentava explicar que enterrados estavam, mas quem os havia matado? – “Assistis-te-lhes à morte e praticaste o ritual fúnebre, ou limitaste-te a confiar que depois de uma breve decisão interior tudo estava arrumado?”.

“Exagero” – disse-lhe ela por várias vezes. Ele deixou de insistir, tratava dos seus demónios, falava com eles, negociava com eles e olhava-os nos olhos para lhes impor respeito. Na esmagadora maioria dos casos assim se resolvia a si próprio. Passados muitos anos já havia percebido que as pessoas que se entregavam à tristeza de um momento em vez de lhe fugirem, jamais encontravam a mesma tristeza mais à frente, já gigante como uma criança que cresce desalmadamente num par de anos para surpresa de todos. Já havia percebido que as pessoas que melhor lidavam com as suas fragilidades eram as mais felizes. Primeiro deu consigo a pensar que aquilo eram merdas que deviam vir nos livros, depois lembrou-se que vêm no livros, com uma explicação juvenil nos errados que toda a gente lê, bem explicado em alguns dos certos que ficam nas prateleiras das livrarias e que acabam o seu descanso final em bibliotecas. Assim era a vida dela do mundo cor de rosa que passava na televisão quando ele a tinha desligada.