Todos os artigos de R2D2, The Lizard King

CARTAS PERDIDAS

SUN JUNE | EVERYTHING I HAD

Escreves-lhe uma carta que envias pelo correio, com caligrafia cuidada, de selo lambido com olhos fechados, como um beijo que se tenta eternizar em bicos de pés, mas que sabes que se perderá mais depressa do que se perdem as próprias cartas nos passos incertos dos carteiros.

Foste dominado por um forte desejo de cair num sono profundo, redondo, num abraço sem fim, tudo num rio de saudades ditas em palavras armadas em parvas, feitas inúteis nas bolsas de carteiros com cabeças de vento.

NOT EVERYBODY LOVES ME AND I´M OK WITH THAT

THE COMMUNIONS | OUT OF MY WORLD

Perguntou-me se gostava de Radiohead como quem testava o meu nível musical, tendo percebido que não gostando teria para ela um nível abaixo de zero.

Respondi-lhe com este tema dos Communions e disse-lhe que detestava Radiohead, mas que lhes reconhecia o mérito de, em casos específicos de jantares com franco abuso de vinho tinto, daqueles de um gajo ver tudo a andar à roda, colocava a hipótese de Radiohead poder revelar-se afinal (a confirmar claro) um método bem menos evasivo que meter os dedos à boca.

TRATADOS

SON LUX | EASY (FEAT. WOODKID, LIVE AT MONTREUX JAZZ FESTIVAL 2016)

Não foram raras as vezes que ouvi do António que “os números são letras sem asas”, explicando ele e muito bem que por isso eram letras desprovidas da capacidade de sonhar, de criar, de se reinventarem a seu bel-prazer. Somos amigos desde sempre, hoje sabemos bem que para sempre, e temos em comum, entre tantas outras coisas, o gosto pelo potencial poético das letras e um certo jeito para os números, mas tão só apenas para com eles desenharmos complexas equações que representem certezas, possibilidades e possíveis soluções, na esfera dos cenários da vida mundana.

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HISTÓRIAS DE UM CADERNO BRANCO EM CAPA DE COURO

FUTURE ISLANDS | HAUNTED BY YOU

Acordou com um poema torto na cabeceira. Não se recordava de o ter começado, mas ali estava ele, a gritar por sentimentos, estampado na face de uma página branca num caderno despido, de capa de couro.

Mal conseguia dizer merda qualquer, a garganta cheia de versos em novelo. António era todo ele um desperdício de frases sem sentido, que se haviam estilhaçado nas paredes dentro de si, talvez a dormir, talvez.

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TO FIT IN

THOMAS FEINER | YONDERHEAD

Every poem is someone’s poem,
And when a poet has nobody ,
He creates a story with a caracter,
To fit in somebody’s heart.

So every poem is somebody’s poem,
But not everybody has a poem,
Or a poet to fit in,
But you have both, my love.

There’s nothing you can do about it,
You can chose to hide,
Or just let me choose for you,
My poem and your poet, my love.

A MANHÃ DESSE DIA QUE COMEÇA

CRAIG ARMSTRONG | THIS LOVE

Ela abriu os olhos, acordou o corpo, numa madrugada chovida lá fora, em gordas gotas choradas por um céu azul.

À sua volta, sem a acordar, tinham nascido e crescido poemas em flor, em canteiros que se haviam arrumado no seu quarto, enquanto descansava o corpo e a alma.

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O PERFUME ESQUECIDO DO FERRO, ADORMECIDO EM CAMPOS SILVESTRES

PERFUME GENIOUS | WITHOUT YOU

Apenas lhe atiçaram os versos um dia, deixaram-lhe tudo, é certo, como é certo que tudo fora os versos, resultou para ele em nada mais nada. Não lhes suportou a força durante muito tempo, até um dia se levantar do tapete onde se deixou cair para dormir aquilo que nunca conseguiu medir.

Julgo que terão sido dois ou três dias de um sono comatoso. Resultou num corpo sem sentido algum que se levantou sem letras, em fantasma, incapaz de traçar uma linha de sentimento ou emoção.

Sentiu-se sem vida, sem sangue a correr. Ainda assim, um dia acordou, numa letargia, enquanto a vida, como acontecia, obrigou-o a respirar, a levantar o chumbo que trazia no peito e caminhar pelos dias, nos caminhos de espuma de que se faziam as semanas.

E assim foi até ao dia que lhe foram devolvidos os poemas que viviam dentro de si. Regressaram musas inspiradoras e voltou a acreditar nas estações do ano e nas árvores que não choravam todas as suas folhas por mantos dourados, então já um ouro com brilho e com vida.

Com o Inverno vieram-lhe os sentimentos aquecidos por chamas de lareiras alimentadas a lenha apanhada pelos quatro cantos do coração que habitava até então apenas territórios de sobrevivência, copos de vinhos encorpados capazes de encetar conversas de sofá, tidas a pés descalços, ideias trocadas, poéticos serões sem rimas fáceis marcados pelas vozes de corações capazes de se fazerem ouvir pelas mãos da honestidade, sem promessas ou espectativas que não aquelas que apenas resultam dos tempos tranquilos de quem descansa sentado num banco de uma estação de comboios abandonada, onde apenas passavam cães e gatos à distância de quem teme os homens e as suas fraquezas.

Foi na estação gasta pelos anos passados que ficou o seu olhar perdido num tempo que não soube contar.
Foi aí que deixou o seu corpo moribundo, levantando-se outro homem que não ele, abandonando-se como era, libertando-se em pássaro de asas longas, para se tornar homem mais à frente. Até hoje. Em paz. sem olhar para trás.

O RAPAZ DAS VÁRIAS VIDAS

MXMS | PARIS

Um sonho, um sonho mais e vou-me embora de ti para sempre.
Para um planeta qualquer que tenha anéis, quatro luas e dois sóis.


Por quem és? Por mim não és certamente, pois tudo não vale nem a pena.
E a alma, essa, vai pequena, e se brinco é porque há coisas em mim,
Das que não quero levar a sério.

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A HISTÓRIA DE UM HOYO DE MONTERREY

ENSEMBLE SP – PAU BRASIL – RENATO BRAZ | MODINHA (NA SOLIDÃO DA MINHA VIDA)

António tem o olhar perdido para lá do gigante móvel, feito de prateleiras robustas que albergam milhares de livros que fazem uma das quatro paredes da sua biblioteca. O seu olhar tem o foco num ponto de fuga que ultrapassa a parede, o escritório contíguo, a enorme varanda que se debruça sobre o jardim que faz a lateral direita da casa, indo focar-se algures fora das vinhas que rodeiam a casa.

Sentado na sua cadeira, uma Charles Eames que era de seu pai e que com toda a certeza acomodará os seus bisnetos, está de pernas esticadas e segura há meia-hora, na sua mão direita pendurada, um Hoyo de Monterrey, também ele periclitantemente pendente entre dois dedos e que tardará em acender, já que a sua atenção está presa algures entre as lombadas de dois livros, atravessando tudo o que é visível no horizonte descoberto por janelas abertas, mas tapado por portas e paredes de divisões da casa onde não está mais alguém que não ele. Acabado de chegar na noite de ontem, Sexta-Feira, a primeira coisa que fez foi dispensar os empregados, que fazia questão de tratar tão bem que jamais admitia que lhes chamassem por outra coisa que não pelo seu nome próprio.

Atravessa-lhe o pensamento a ideia de que entre todos aqueles livros se escondem milhões de anos de histórias contadas, por milhares de autores, feitas de guerras e amores, poesias e tristezas, felicidades, sangue, lágrimas, viagens maravilhosas pelos cinco continentes ligados por cinco oceanos. Dá com ele a questionar-se quantos países estarão retratados em toda aquela parede de livros. Quantas cidades? Quantas vidas? A única coisa que sabe é quantos anos e quantas vidas foram necessárias para acumular todos aqueles livros. Tudo começou com um amor aos livros por parte do seu avô materno, o homem mais terno que jamais conheceu e que amava os livros, amando mil vezes mais a sua mulher, avó de António, que adorava ler e que o guiou pela paixão da leitura, e pela paixão da vida.
Morreram juntos, dramaticamente, num fogo que deflagrou no palheiro e que tentaram apagar juntos e sozinhos para não acordarem os caseiros e empregados que estavam exaustos da vindima desse dia.

O seu pai continuou a coleccionar livros mas já só por vaidade e orgulho numa vasta e cobiçada colecção de milhares de obras, onde se incluíam centenas de valiosíssimas raridades. António herdou o avô, para seu bem e para seu mal. Para seu bem porque se salvou do pai que era desprovido de sentimentos e emoções, para seu mal porque herdou uma sensibilidade extrema que lhe deu tanto prazer como melancolia. Celeste, sua ama, que Deus lhe havia resgatado tinha ele vinte e um anos, dizia-lhe: “o menino é feito do mesmo vidro do seu avô que Deus tem. Sortudo esse Deus…”, e António reparava que Celeste virava sempre a cara para outro lado depois de falar do seu avô, o que por sinal raramente acontecia, mas ele sabia que ela o chorava no quarto à noite todos os dias.

Agora focou os olhos nos livros que tinha à sua frente, os seus olhos voltaram para si, voltaram para casa, tenham lá andado por onde tenham andado, coisa que não faço  nem  ideia. Levantou o braço direito e admirou o charuto que tinha na mão como quem admira o corpo de uma esbelta mulher, rodando-o entre os dedos, como quem pede à sua apaixonada que dê uma volta sobre si própria apenas para lhe poder dizer “hoje estás tão bonita”, mesmo depois de vinte anos de casamento. Era só um charuto, mas bem enrolado nas gordas pernas de uma negra cubana, por certo.

Ao lado direito da sua cadeira tinha um bloco esculpido em pau preto por um designer conhecido e amigo, numa secção octogonal de trinta por trinta centímetros, com uma concavidade redonda no topo e escavado num lado em meia-cana, para continuar numa saliência, também ela em meia-cana, tudo em monobloco, para pousar um charuto. Era o seu cinzeiro, o único na casa. Bem… em boa verdade era o único na sua vida, pois só fumava charutos naquela cadeira da sua herdade no Alentejo. Nunca havia fumado um único cigarro na vida e tinha, por insistência de um amigo, experimentado uma cigarrilha que nem deixou aquecer antes de apagar com uma careta impressa no rosto. Um motivo de risada para ambos.

Levantou-se, e em passo firme e seguro, dirigiu-se a um disco de vinil no meio de uns milhares que faziam a parede esquerda da biblioteca. Seguro porque conhecia a posição de todos os seus discos, as cores das suas lombada e… sim, aquele era um disco muito especial. Pousou o disco no móvel do gira-discos, abriu uma caixa em laca preta da china e tirou o Dupont também ele de laca preta e ouro que usava para acender os charutos. Pegou na guilhotina do seu avô e, com a delicadeza de um ritual sagrado, cortou a ponta do Hoyo de Monterrey. Voltou a mirar o charuto, rodou-o para descobrir na sua forma a melhor posição para o acender. O Dupont cantou então como só um Dupont canta quando se abre, e com a chama afastada do charuto foi puxando o ar até ele, suavemente e seguro pela boca, o rodava entre os dedos, para que a ponta, sem nunca ganhar chama, se fosse fazendo brasa de forma homogénea. Assim se acende um charuto sem que ele azede, perdendo todas as notas de canela ou cânfora, couro, mil madeiras nobres, e de tantos e tantos aromas e sabores que se faz um charuto, tal como um vinho. Puxou três baforadas para lhe dar vida e voltou ao meio da sala para o pousar no cinzeiro, sabendo agora que não o perderia pois todo ele era vigor.

Sem pressa para nada, coisa que era ultimamente apanágio de António, dirigiu-se novamente ao gira-discos, sabendo que o amplificador a válvulas, ligado há uma hora atrás, estava pronto para fazer justiça ao disco. Em lentos movimentos de amor ao tempo e aos objectos com todas as suas histórias, tirou o disco de vinil da capa e da bolsa e colocou-o no prato. Pegou na agulha e levou-a ao sítio certo, soltando-lhe a alavanca que a fez pousar exactamente no intervalo desejado, para que “Modinha” começasse a tocar quando António estivesse já recostado na sua poltrona preferida.

E assim foi, Teco Cardoso abre as hostilidades com a sua flauta, de braço dado com Ricardo Mosca que entra de pratos feitos de uma textura mineral, chamando o contrabaixo de Rodolfo Stroeter, e assim começa uma das músicas mais bonitas da actualidade. Seguem-se todos os outros amigos que vão chegando ao tema que nem uma confortável brisa morna, o piano do Nelson, a viola do Marcelo, todos como um rio que vai desaguar no estuário da voz de Renato Braz.

A partir daqui a alma de António volta a sair daquela sala para parte incerta, perdendo-se de vista na núvem do fumo azulado do Hoyo de Monterrey, que tardará uns bons quarenta e cinco minutos a ser fumado. António? Sabe Deus quando e como voltará. O que sei de fonte segura, porque ele mesmo me deixou escapar em amena conversa no alpendre da casa, numa noite de Agosto em plena chuva de estrelas, é que este tema faz parte da banda sonora da sua vida, e que a sua alma se revitaliza dentro desta música. E dela regressa sempre jovem, novo, como um menino que se faz do mesmo vidro que o do avô materno que ama e amará para todo o sempre.

E lá cai uma lágrima num verso do trovador Renato Braz,
Mas num estuário destes, que diferença faz?
O rio continua passando como visto da janela de um comboio,
Que serpenteia pelas margens, devagar para não se apagar da memória,
Pois nada se quer esquecido, tudo se quer lembrado,
Em duas linhas de ferro paralelas,
Desenhadas por um amor quebrado,
Pelo tempo que está presente enquanto não se faz passado.

BY THE HAND OF A LAUGH

YAMANDÚ COSTA & VALTER SILVA | REVENDO O PASSADO

I’m sure I didn’t hurt your feelings, but did I mess your heart?
Did I hurt somebody even without knowing nobody?
Or did I mess the truth wthout a single lie?
Should I be sorry? Would you tell me if I did?
Well, I guess not, but… did you hurt yourself playing?
Should I be worried about the consequences,
Of a beautiful song or five?
Well I guess not, but am I just gessing things after things?
Or should I just let the time goes by?
Sometimes innocence, ironically, is full of guilty pleasures.
Sometimes trains don’t get you where you wanna go,
Just take you where you’re supposed to be,
Even when you find yourself inside a lost train.
Are you in some kind of “point of no return”?
Will you be back soon, or we just died by the hand of a laugh?
Should I say “sorry”, or should I be sorry?


@ THE MOVIES | SMOKE | SORTE DE SÁBADO À NOITE

KEITH JARRETT TRIO | SMOKE GETS IN YOUR EYES

“Smoke” é dos filmes perdidos mais bonitos que vi. Perdidos porque é de 1995 e nem sei como escapou ao meu radar. Realização de Wayne Wang, argumento de Paul Auster. Aos comandos da representação temos Harvey Keitel e William Hurt. Que saudades tinha de William Hurt e como me havia esquecido de quão bom actor é. Bem, Harvey Keitel não é menor, mas é mais assíduo nas minhas memórias recentes.

“Smoke” é feito de uma história maior com pequenas histórias dentro, não cumprindo o lugar comum de várias histórias paralelas que se cruzam para formarem um puzle mais ou menos fixe. Isto sem qualquer menosprezo por excelentes filmes que se fazem desta fórmula, bem como se fazem muito bons livros de Paul Auster. Nada contra, entenda-se.

Uma história maior com pequenas histórias lá dentro, como uma pequena Nova Iorque dentro da grande Nova Iorque, porque Nova Iorque é mesmo assim, com uma vida de bairro que não aparece nas televisões, só mesmo no Cinema. Até nos livros temos dificuldade em transportar o nosso imaginário, quando nas suas páginas surge a Big Apple, para um pequeno mundo de quatro ou cinco ruas, tal é a grandeza com que o mundo que habitamos olha a grande cidade. “Smoke” mostra-nos histórias dum mundo que cabe em meia dúzia de ruas, a Nova Iorque na palma da mão.

Fala-nos de amizades exercidas na descrição, grandes amizades sem que os personagens pensem sobre elas dessa forma, deixando que as suas relações corram apenas com o tempo, tão vagarosamente quanto possível, como deve ser fumado um bom charuto.

“Smoke” faz-se acompanhar também de Tom Waits, o longo do filme, não como actor ou figurante, mas como parte da banda sonora do filme.
Confesso que estive para escrever este post ao som do “Innocent When You Dream” do Tom Waits. Quando o filme acaba, ou vai acabando devagar como se estingue o fumo de um cigarro fumado com prazer, mudei de ideias e decidi escrever ao som de “Smoke Gets In Your Eyes” que dá corpo a esse fim de enorme beleza, ironia, dignidade e de uma imperfeição humana absolutamente perfeita e generosa. Sim, podemos dizer que “Smoke” é um filme generoso, com muita generosidade dentro dele.

Quando usei o Shazam para descobrir a versão que estava a ouvir de “Smoke Gets In Your Eyes”, e antes mesmo de ele me dar o resultado, já eu julgava adivinhar a voz de Bryan Ferry. Mas não, espertalhão, era interpretada pela “Jerry Garcia Band”. Pedi então ao Shazam que me levasse pela mão ao Spotify para escrever afinal esta publicação sob o efeito do tema que acompanha o fim de “Smoke”.

Já no Spotify pude perceber pequenas coisas dentro da grande questão do tema que fecha o filme. Mais uma matriosca neste episódio de Sábado à noite, portanto.
O tema original “Smoke Gets In Your Eyes” é dos “The Platters” (Pai, espero-te bem, amanhã telefono-te), e apesar de me ter enganado ao pensar que a voz do tema na banda sonora do filme era do Bryan Ferry, há de facto uma versão interpretada por Bryan Ferry, só não era a do filme. O mundo, tal como as imensas pequenas Nova Iorque que existem, é mesmo pequeno, Parece que a música acompanha essa verdade não teórica mas definitivamente pragmática, comprovada a cada esquina da vida de cada um de nós.

Era então a versão de Bryan Ferry que me acompanharia, decidi. Só que não. Nisto aconteceu dar com o Keith Jarret Trio a tocar “Smoke Gets In Your Eyes” ao vivo, em Lyon, França, no dia 31 de Julho de 2010, na versão que mais me sentido fazia ouvir enquanto escrevia sobre “Smoke”.

“Smoke” é daqueles filmes em que um gajo deseja estar lá. Dentro da história que existe antes de nascer a história do filme, esse de pequenas histórias lá dentro. Mas na imaginação de um momento, um acontecimento inesquecível, onde num restaurante em Brooklyn um gajo (eu, se faz favor) se encontra à mesa com Harvey Keitel, Wayne Wang, William Hurt, Paul Auster e Tom Waits. Batemos bolas sobre o futuro de uma história à mesa do seu passado, sobre um molho de folhas escritas por Paul Auster, que afinal é um tipo normal. Genial, sim, mas cheio de perguntas, mais do que certezas. E todos procuramos respostas para as perguntas de todos.
E é de uma mesa rodeada de pessoas cheias de perguntas que se vão construindo as respostas para que se faça algo bom, muito bom, com muito mundo lá dentro.

Quem sabe se não foi assim que tudo aconteceu para que se desenhasse “Smoke” como tão bem se desenhou? Eu sei que não foi exactamente assim… mas como gostaria que tivesse sido! Há pequenas obras primas que só podem acontecer quando se somam talentos como estes, que depois se multiplicam, como uma grande matriosca que se revela de dentro para fora.

Por fim dizer-vos que o filme está disponível para aluguer na Apple TV, por 4,00€, que há uma continuação que procuro com voraz apetite, tal como procurei este, e que se chama “Blue In The Face”, realizado também por Wayne Wang mas desta vez com Paul Auster também ao leme da realização. Infelizmente não está na Apple TV nem nas outras plataformas todas que tenho, mas sei que o vou apanhar, só não sei é quando. Entretanto já vi o trailer no IMDB e a continuação, que promete ser mais cómica que “Smoke”, é certamente também ela genial. Há ali muito talento concentrado. É a sorte de Sábado à noite.

UMA HISTÓRIA DE AMOR, PRETO NO BRANCO

https://www.youtube.com/watch?v=tUS9-TD8DZc
BRONCHO | GET IN MY CAR

Enquanto os braços se confundiam com pernas, as cabeças de uns com as dos outros, Aníbal urinava sem fim à vista, na casa de banho do Ocarina, incapaz de mijar dentro da retrete. Não conhecesse eu bem o Aníbal e diria que ele estava a inundar propositadamente a casa de banho de cerveja. Sim porque a urina tinha-se-lhe acabado logo na hora que se seguiu ao jantar. Agora só tinha mesmo cerveja, a coisa era pura limpeza de rins. Mas enfim, a verdade é que Aníbal fazia os possíveis e os impossíveis para urinar para dentro da retrete, principalmente os impossíveis, de tal forma foi competente na impossibilidade que quem veio a seguir atestou que a retrete estava seca, como uma ilha desidratada com mar à volta.

Toda a filosofia e ideologia de uma geração se faziam representar por Aníbal a alagar a casa de banho do Ocarina de mijo, enquanto tentava fazer aquilo que realmente importava para o futuro de uma enorme faixa de jovens adolescentes a quem lhes tinha sido oferecida uma liberdade incondicional logo no dia que respiraram fora de água, logo que levaram a primeira palmada no rabo e mais o caneco. Importa referir, por motivos de património histórico, que muitos levaram a segunda e até a milésima palmada no rabo, já portadores de carta de condução e tudo, mas deixemos esses detalhes para quem escreve a história. Não somo nós, claro, até porque o vodka dá brancas incompatíveis com uma carreira de historiador. O que importava realmente para Aníbal, bem como para todos os que estavam na fila de espera para a casa de banho e a centena que estava na pista de dança, era acompanhar o ritmo do tema que se fazia ouvir pela sala (e pelas paredes dos vizinhos da rua do Ocarina).

Aníbal, como bom e honesto homem, não conseguia fazer duas coisas bem feitas ao mesmo tempo: ou mijava na retrete ou dançava no ritmo e como mandavam as tendências motoras das danças de então.
Boa a hora em que optou por honrar a música. Por casas de banho não reza a história. Nunca!

Foi no Ocarina que Aníbal, filho de uma família conservadora capaz de encher a missa de pais, tios, filhos e primos, em qualquer Domingo, se perdeu de amores por Rosa, uma preta tão preta que reflectia azul por tudo o que era pele. E que pele tinha Rosa, e que corpo, e que sorriso. Rosa era menina de em 1985 fazer parar o trânsito de 2019 na auto-estrada para o Algarve numa insuspeita Quarta-Feira fora de horas de ponta, isto num tempo em que travar a fundo, sem cinto de segurança, num Ford Capri de tablier de madeira maciça, não era tão seguro como fazê-lo em 2019 num Fiat 500, com air-bags por todo o lado, direcções assistidas, cintos de segurança, travões anti-bloqueio e mais cenas e tal que até coiso.

Falando em coiso, não posso deixar de recordar que o casamento de Aníbal com Rosa foi recebido com escândalo por toda a família de Aníbal, de pais para filhos, de filhos para primos e de todos para Deus. Julgo recordar-me, embora tivesse bebido demasiado vodka nos dias que antecederam o casamento , que Deus não apareceu a manifestar o seu desagrado, não obstante as ameaças do pai e da mão de Aníbal que puxaram todos os cordéis que tinha para puxar. Mas eu tenho para mim que Deus é um funcionário público exemplar que jamais exerce influência na vida das pessoas e muito menos se deixa subornar, por muito que ainda hoje viva a vida cercado de velas e promessas.

Contra tudo e contra todos, Rosa e Aníbal lá casaram, tiveram filhos mesmo depois de eu lhes ter perdido a conta, e até hoje deixam transparecer uma felicidade, um amor e uma magnética atracção fisica, certamente consumada em rotinas sexuais de meter inveja aos tios e aos primos de Aníbal que já há anos que acham que falar de sexo a toda hora é fazer amor.

Eu cá sinto um enorme orgulho nos dois e uma sorte imensa de ser amigo próximo dos dois, mesmo não sabendo ao certo quantos filhos têm e muito menos como se chamam, só sei que são muitos e que crescem duas vezes por dia.

E não há santa vez que não passe à porta daquilo que um dia foi o Ocarina, a caminho do meu modesto atelier de arquitectura, e que não me cheira a urina. Há dias em que chego a ouvir a música tocava enquanto a mija de Aníbal se arrastava por baixo da porta como se sofresse de claustrofobia.