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@ THE MOVIES | SMOKE | SORTE DE SÁBADO À NOITE

KEITH JARRETT TRIO | SMOKE GETS IN YOUR EYES

“Smoke” é dos filmes perdidos mais bonitos que vi. Perdidos porque é de 1995 e nem sei como escapou ao meu radar. Realização de Wayne Wang, argumento de Paul Auster. Aos comandos da representação temos Harvey Keitel e William Hurt. Que saudades tinha de William Hurt e como me havia esquecido de quão bom actor é. Bem, Harvey Keitel não é menor, mas é mais assíduo nas minhas memórias recentes.

“Smoke” é feito de uma história maior com pequenas histórias dentro, não cumprindo o lugar comum de várias histórias paralelas que se cruzam para formarem um puzle mais ou menos fixe. Isto sem qualquer menosprezo por excelentes filmes que se fazem desta fórmula, bem como se fazem muito bons livros de Paul Auster. Nada contra, entenda-se.

Uma história maior com pequenas histórias lá dentro, como uma pequena Nova Iorque dentro da grande Nova Iorque, porque Nova Iorque é mesmo assim, com uma vida de bairro que não aparece nas televisões, só mesmo no Cinema. Até nos livros temos dificuldade em transportar o nosso imaginário, quando nas suas páginas surge a Big Apple, para um pequeno mundo de quatro ou cinco ruas, tal é a grandeza com que o mundo que habitamos olha a grande cidade. “Smoke” mostra-nos histórias dum mundo que cabe em meia dúzia de ruas, a Nova Iorque na palma da mão.

Fala-nos de amizades exercidas na descrição, grandes amizades sem que os personagens pensem sobre elas dessa forma, deixando que as suas relações corram apenas com o tempo, tão vagarosamente quanto possível, como deve ser fumado um bom charuto.

“Smoke” faz-se acompanhar também de Tom Waits, o longo do filme, não como actor ou figurante, mas como parte da banda sonora do filme.
Confesso que estive para escrever este post ao som do “Innocent When You Dream” do Tom Waits. Quando o filme acaba, ou vai acabando devagar como se estingue o fumo de um cigarro fumado com prazer, mudei de ideias e decidi escrever ao som de “Smoke Gets In Your Eyes” que dá corpo a esse fim de enorme beleza, ironia, dignidade e de uma imperfeição humana absolutamente perfeita e generosa. Sim, podemos dizer que “Smoke” é um filme generoso, com muita generosidade dentro dele.

Quando usei o Shazam para descobrir a versão que estava a ouvir de “Smoke Gets In Your Eyes”, e antes mesmo de ele me dar o resultado, já eu julgava adivinhar a voz de Bryan Ferry. Mas não, espertalhão, era interpretada pela “Jerry Garcia Band”. Pedi então ao Shazam que me levasse pela mão ao Spotify para escrever afinal esta publicação sob o efeito do tema que acompanha o fim de “Smoke”.

Já no Spotify pude perceber pequenas coisas dentro da grande questão do tema que fecha o filme. Mais uma matriosca neste episódio de Sábado à noite, portanto.
O tema original “Smoke Gets In Your Eyes” é dos “The Platters” (Pai, espero-te bem, amanhã telefono-te), e apesar de me ter enganado ao pensar que a voz do tema na banda sonora do filme era do Bryan Ferry, há de facto uma versão interpretada por Bryan Ferry, só não era a do filme. O mundo, tal como as imensas pequenas Nova Iorque que existem, é mesmo pequeno, Parece que a música acompanha essa verdade não teórica mas definitivamente pragmática, comprovada a cada esquina da vida de cada um de nós.

Era então a versão de Bryan Ferry que me acompanharia, decidi. Só que não. Nisto aconteceu dar com o Keith Jarret Trio a tocar “Smoke Gets In Your Eyes” ao vivo, em Lyon, França, no dia 31 de Julho de 2010, na versão que mais me sentido fazia ouvir enquanto escrevia sobre “Smoke”.

“Smoke” é daqueles filmes em que um gajo deseja estar lá. Dentro da história que existe antes de nascer a história do filme, esse de pequenas histórias lá dentro. Mas na imaginação de um momento, um acontecimento inesquecível, onde num restaurante em Brooklyn um gajo (eu, se faz favor) se encontra à mesa com Harvey Keitel, Wayne Wang, William Hurt, Paul Auster e Tom Waits. Batemos bolas sobre o futuro de uma história à mesa do seu passado, sobre um molho de folhas escritas por Paul Auster, que afinal é um tipo normal. Genial, sim, mas cheio de perguntas, mais do que certezas. E todos procuramos respostas para as perguntas de todos.
E é de uma mesa rodeada de pessoas cheias de perguntas que se vão construindo as respostas para que se faça algo bom, muito bom, com muito mundo lá dentro.

Quem sabe se não foi assim que tudo aconteceu para que se desenhasse “Smoke” como tão bem se desenhou? Eu sei que não foi exactamente assim… mas como gostaria que tivesse sido! Há pequenas obras primas que só podem acontecer quando se somam talentos como estes, que depois se multiplicam, como uma grande matriosca que se revela de dentro para fora.

Por fim dizer-vos que o filme está disponível para aluguer na Apple TV, por 4,00€, que há uma continuação que procuro com voraz apetite, tal como procurei este, e que se chama “Blue In The Face”, realizado também por Wayne Wang mas desta vez com Paul Auster também ao leme da realização. Infelizmente não está na Apple TV nem nas outras plataformas todas que tenho, mas sei que o vou apanhar, só não sei é quando. Entretanto já vi o trailer no IMDB e a continuação, que promete ser mais cómica que “Smoke”, é certamente também ela genial. Há ali muito talento concentrado. É a sorte de Sábado à noite.

UMA HISTÓRIA DE AMOR, PRETO NO BRANCO

https://www.youtube.com/watch?v=tUS9-TD8DZc
BRONCHO | GET IN MY CAR

Enquanto os braços se confundiam com pernas, as cabeças de uns com as dos outros, Aníbal urinava sem fim à vista, na casa de banho do Ocarina, incapaz de mijar dentro da retrete. Não conhecesse eu bem o Aníbal e diria que ele estava a inundar propositadamente a casa de banho de cerveja. Sim porque a urina tinha-se-lhe acabado logo na hora que se seguiu ao jantar. Agora só tinha mesmo cerveja, a coisa era pura limpeza de rins. Mas enfim, a verdade é que Aníbal fazia os possíveis e os impossíveis para urinar para dentro da retrete, principalmente os impossíveis, de tal forma foi competente na impossibilidade que quem veio a seguir atestou que a retrete estava seca, como uma ilha desidratada com mar à volta.

Toda a filosofia e ideologia de uma geração se faziam representar por Aníbal a alagar a casa de banho do Ocarina de mijo, enquanto tentava fazer aquilo que realmente importava para o futuro de uma enorme faixa de jovens adolescentes a quem lhes tinha sido oferecida uma liberdade incondicional logo no dia que respiraram fora de água, logo que levaram a primeira palmada no rabo e mais o caneco. Importa referir, por motivos de património histórico, que muitos levaram a segunda e até a milésima palmada no rabo, já portadores de carta de condução e tudo, mas deixemos esses detalhes para quem escreve a história. Não somo nós, claro, até porque o vodka dá brancas incompatíveis com uma carreira de historiador. O que importava realmente para Aníbal, bem como para todos os que estavam na fila de espera para a casa de banho e a centena que estava na pista de dança, era acompanhar o ritmo do tema que se fazia ouvir pela sala (e pelas paredes dos vizinhos da rua do Ocarina).

Aníbal, como bom e honesto homem, não conseguia fazer duas coisas bem feitas ao mesmo tempo: ou mijava na retrete ou dançava no ritmo e como mandavam as tendências motoras das danças de então.
Boa a hora em que optou por honrar a música. Por casas de banho não reza a história. Nunca!

Foi no Ocarina que Aníbal, filho de uma família conservadora capaz de encher a missa de pais, tios, filhos e primos, em qualquer Domingo, se perdeu de amores por Rosa, uma preta tão preta que reflectia azul por tudo o que era pele. E que pele tinha Rosa, e que corpo, e que sorriso. Rosa era menina de em 1985 fazer parar o trânsito de 2019 na auto-estrada para o Algarve numa insuspeita Quarta-Feira fora de horas de ponta, isto num tempo em que travar a fundo, sem cinto de segurança, num Ford Capri de tablier de madeira maciça, não era tão seguro como fazê-lo em 2019 num Fiat 500, com air-bags por todo o lado, direcções assistidas, cintos de segurança, travões anti-bloqueio e mais cenas e tal que até coiso.

Falando em coiso, não posso deixar de recordar que o casamento de Aníbal com Rosa foi recebido com escândalo por toda a família de Aníbal, de pais para filhos, de filhos para primos e de todos para Deus. Julgo recordar-me, embora tivesse bebido demasiado vodka nos dias que antecederam o casamento , que Deus não apareceu a manifestar o seu desagrado, não obstante as ameaças do pai e da mão de Aníbal que puxaram todos os cordéis que tinha para puxar. Mas eu tenho para mim que Deus é um funcionário público exemplar que jamais exerce influência na vida das pessoas e muito menos se deixa subornar, por muito que ainda hoje viva a vida cercado de velas e promessas.

Contra tudo e contra todos, Rosa e Aníbal lá casaram, tiveram filhos mesmo depois de eu lhes ter perdido a conta, e até hoje deixam transparecer uma felicidade, um amor e uma magnética atracção fisica, certamente consumada em rotinas sexuais de meter inveja aos tios e aos primos de Aníbal que já há anos que acham que falar de sexo a toda hora é fazer amor.

Eu cá sinto um enorme orgulho nos dois e uma sorte imensa de ser amigo próximo dos dois, mesmo não sabendo ao certo quantos filhos têm e muito menos como se chamam, só sei que são muitos e que crescem duas vezes por dia.

E não há santa vez que não passe à porta daquilo que um dia foi o Ocarina, a caminho do meu modesto atelier de arquitectura, e que não me cheira a urina. Há dias em que chego a ouvir a música tocava enquanto a mija de Aníbal se arrastava por baixo da porta como se sofresse de claustrofobia.

THE DIVINE COMEDY OF A CHARMING STORYTELLING

THE DIVINE COMEDY | A LADY OF A CERTAIN AGE

Há bandas maravilhosas, que somam talentos na sua formação, que fazem de um concerto um momento de espectáculo, que criam no espaço de duas horas uma relação com o público que chega a ser íntima. Há bandas que a multiplicar por tudo isto, compõem canções sem data, capazes de serem ouvidas em qualquer década, como um aparador de design nórdico consegue prometer a quem o compra que será actual até ao fim dos dias ou como um fato de bom tecido, de qualidade, discreto e de bom corte que sabe que pode ser usado durante mais de uma década sem perder a sua elegância e muito menos a cabeça, destruindo-se em mil ideias sem sentido.

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A WIRELESS KIND OF LIFE

OPERATORS | SHAPE OF THINGS

As lâmpadas de toda a casa controlam-se numa app: a sua intensidade, temperatura e até o tom, por uma app. Posso acender luzes e apagar estando em casa de amigos, para espantar a ladroagem ou apenas assustar a empregada.

A televisão, quando se liga, tem uma app que permite navegar por todas as suas funcionalidades, umas mais úteis que outras.

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SPRINGOLOGY

THE AVENER & MAZZY STAR| FADE INTO YOU (THE AVENER REWORK)

They found themselves in the soft warm of the fields where wildflowers opened up for the Spring.
He told her that he was waiting to read her soul, deep in her eyes, many poems ago.
She kissed his cheek, then she touched his lips with her will.
And the rain started to smile in the sunny day.

SOBRE O CERTO, O MEDO, E O BELO

GHOSTPOET | I GROW TIRED BUT DARE NOT FALL ASLEEP (EDIT)

A fria previsibilidade com que ela se mostrava, não dava lugar a qualquer imagem bela de memórias e surpresas que pudessem reviver-se em António, como que por uma fraqueza de coração a que era alheio.
Uma fraqueza feita de medos, defesas contra a história de um tempo, fazendo-o questionar-se como podia ter habitado uma clausura de tão grandes muros de desconhecimento.
António recorda as palavras “desconfia muito de quem nunca é capaz de confiar”. E António, que se renovava para voltar a desejar, a acreditar, tantas vezes colhendo as mesmas desilusões?

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THE GARDEN INSIDE ME

JOHN CALE | (I KEEP A) CLOSE WATCH


I will burn with fire,
By the hands of your whisper,
I will drown in the water,
Of your long arms around my neck,
Don’t say another line,
Or I will also burn with water,
At the landscapes of your gardens,

Will your flowers save me?
Will you tell me a story?
Of love and glory?
Or a piece of story?
Will you recognize me,
Inside the ice melting at your door?
Because if not, don’t say another verse.


A POEM ABOUT EMOTIONS TRYING TO BE WORDS

KRONOS QUARTET | THE BEATITUDES (VLADIMIR MARTYNOV)

They lived in the impossible distance,
Of meeting at each other’s hands,
So they met in a musical poem,
Between two written notes on a music sheet,
Where both hearts could beat,
As only the hearts that love music can
And feed themselves on the poetic side of life can rest,
The only side worth living for.

A HISTÓRIA DA FÉ E DA FEZADA

STILL CORNERS | STATIC

Percebes agora meu amigo porque a fé não deve ser submetida ao desastre dos homens? Percebes agora porque sempre te o disse que estes conspurcam qualquer vontade de justiça divina quando a têm que escolher entre um par de cobres? Um homem pode nascer para crescer aprendendo que as pessoas desiludem muito, que faltam à sua honra com o mesmo desrespeito com que deixam um qualquer nobre homem sentado numa cadeira aguardando pela chegada da sua sobranceria, mas jamais se educa a ele próprio para que se lhe desaponte a graça e lhe caia a estrutura de valores por causa de uns pobres beatos coitados que perante a escolha da estrutura de nobres valores que lhes foram (mal) transmitidos, e que em contaste com o brilho de duas sujas moedas de latão, não hesitam e correm aos tropeções atrás das toscas rodelas de latão, trôpegos na ganância, aliviando a carga dos profundos valores para lá chegarem mais rápido, assim como um barco larga a carga ao mar para chegar mais depressa a terra.

Não consigo imaginar que sentimentos despertam na almofada que lhes suporta o peso da ganância, coitada, da almofada, claro. Imagino-a com as penas encolhidas por tamanha vergonha alheia.
Por isso te disse sempre que a maior parte daqueles que se juntam para celebrar a fé cumprem, na esmagadora maioria, um ritual social, não de fé, e nesses lugares eu não marco presença, amigo, o meu compromisso é com Ele, não com as famílias e amigos, trajados de Domingo. Porque para grande tristeza da espécie tudo ali nasce ao Domingo para ser morrer e ser enterrado às três pancadas à Segunda-Feira.

Assim, tais celebrações nada celebram de dignidade e de solidariedade e mais valia não servirem de exemplo ao exercício da fé. E assim como a democracia, vai também a tua igreja – não a minha, que essa não tem paredes – perdendo bons voluntários, porque cada homem que é enganado por um crente, são menos dois ou três que a tua igreja perde em nome desse homem.

Ao contrário do rapaz que fala com Ele, não para ver ou ser visto por alguém que não Ele mesmo, que Lhe fala em privado, em pacata descrição na sua casa, que está certo que só na verdadeira humildade da prática do bem e sem pré-conceitos e sem pré-juízos, se leva alguém até Ele.

Pobres os que se servem D’ele, mas Ele saberá para quê o representam de tal forma, e onde chegarão, disso eu não tenho dúvidas meu amigo, e muito respeito todos aqueles que o servem sem alarido e vaidade.
Cada vez mais me convenço que muitos crentes vão à casa de Deus apenas porque não tem a sua casa em condições de o receber.

A RECEITA DINAMARQUESA

KIRA SKOV | EVERYTHING REMINDS ME OF YOU

Os ventos no norte puseram-se em pé, num encadear de notas que piscam o olhos ao jazz, mas seguem a sua própria identidade, ora através do jazz, da música clássica contemporânea, ou assumindo aqui a tradição que não escondem, embora a fundam como uma liga de um metal precioso, talvez parecido com os metais com que se faziam as espadas que invadiram em tempos as terras do sul.

Há uma nova invasão bárbara, mas desta vez feita por homens e mulheres que vestem o que de mais elegante se desenha, que de bárbaros nada têm.

Aqui não se querem nem mortos nem feridos, apenas uma onda de um gosto apurado e sentido estético expresso na música, do jazz a um estilo como o de Kira Skov, a que o Discogs chama de rock. Bem, tssst tssst…

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A PESTE A CÉU ABERTO

STEPHAN MOCCIO | OW

Nas cordas deste piano há mais mundo que nas notícias,
Que te inundam o pensamento e te arrasam a esperança.
Porque há cidades a preto e branco que definham sob um céu azul.
Há medo, há medo de ter medo, e há lobos que de medo se alimentam,
Ferozes, que percorrem a cidade branca, que já se espraiou um dia,
No rio de felicidade que edificava já um modesto orgulho.
Mas a morte acordou e foi para a rua, impiedosa,
Aos olhos de quem a vê,
Mas pelas costas dos que escolheram negar a sangria,
Mas que seguiram o mesmo rumo que todos, incrédulos, em negação,
Não sabendo, idiotas, que a morte não joga jogos de sorte e de azar.
É bruxa que acerta e não concerta planos com ninguém,
Só os lobos rondam a morte, à distância, a medo, esperando de fome.

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NEM TUDO O QUE ÉTER CURA

KURT VILE | ONE TRICK PONIES

Ouvia os discos como lia os livros, do princípio ao fim, não sabia saltar uma música nem mudar de disco a meio, como não conseguia ler dois livros ao mesmo tempo. Um dia apaixonou-se por uma mulher e havia uma canção, como que a banda sonora deles. Um dia ruiu o amor, ruiu a vida como a conhecia e como a sabia viver, caiu-lhe a música do coração abaixo, desfazendo-se em mil notas sem sentido, no chão daquela que era a casa deles, agora apenas quatro paredes a que não ousava chamar de casa. O desgosto foi mortal, nunca mais ouviu um disco. Ensurdeceu para melodias numa trágica existência povoada de fantasmas que habitavam os livros de capa dura que lia do princípio ao fim, à luz fria de um candeeiro de cabeceira. E tudo era um éter suportável pela tristeza em que se tornou. Não regressou nunca.

THE POEM LIES IN THE CLOUD

RENÉ AUBRY | SÉDUCTION

Meu amor, falar do belo é seguir com o olhar os teus passos nus no soalho, esculpidos por divina arte no desenho dos teu pés. Admirar-te e esperar-te no conforto da minha alma é saber que vens pousar a tua face no meu ombro a cada dia, é procurar-te no escuro, encontrar-te num fio de respiração que arde em desejo, é morrer nos teus braços todos os dias e provar da imortalidade de que somos capazes.

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PUTA DEMOCRACIA, A QUANTO OBRIGAS

COUNTING CROWS | HANGINAROUND

Cara democracia,

Espero que não tenhas contraído o vírus maldito do Covid-19. Perguntar-te como estás de saúde não vale a pena pois sei-te mal há muitos anos, e tenho assistido à falência dos teus orgãos vitais com um aperto no peito. És o maior fracasso para as expectativas de todos aqueles que por ti lutaram e pelos que sobre a tua égide nasceram e têm vivido, todos na esperança que atinjas uma maturidade, como se o teu destino estivesse nas tuas mãos e não nas mãos de gerações de oportunistas que se têm regalado às tuas custas e garantido para eles uma estabilidade e segurança, bem como para as gerações vindouras das suas famílias chegadas e amigos.

Sabes que há anos que te digo na cara que apenas deves esperar um destino de falência, por falta de crédito bancário, social, e há anos que digo que serás tu o bode expiatório da ascensão de uma nova geração de oportunistas mas, desta vez, já que ninguém consegue extorquir mais à liberdade, terão de viver à custa da falta dela e de uma autoridade total, sem limites, desenhada à régua da escolha entre bons e maus, e a um esquadro de injustiças contra as quais será difícil lutar, proibido contestar e criticar.

És a maior empresa de gestão de recursos humanos, financeiros, das liberdades e deveres, com o plano estratégico mais bem desenhado, mas és a maior falência da história do mundo moderno. E porquê, se não tens concorrência, foste desenhada para ser um monopólio sem os poderes nefastos dos monopólios económicos, pensada para dar voz a todos, até aos que não podem falar? Porquê? Tinhas tudo para prosperar.

Claro que sabes tão bem quanto eu o porquê. Na verdade não tens sido governada, antes tens governado tu as vidas dos que supostamente deveriam fazer o governo da tua casa, escolhidos cada vez por menos e cada vez mais escolhidos por falta de comparência do que por actos de vontade e convicção. Porque já ninguém acredita em ti, indirectamente, é certo, mas no final do dia o resultado é o mesmo.

Perdeste a batalha da justiça, a corrupção põe-te debaixo do braço como um peluche de uma criança e remete-te para casos de roubos de arrecadações, infracções de trânsito, bandidos pobrezinhos que não estão em posição de grandes roubos. E repara que sempre que aparece alguém empenhado em mudar isso, os parolos que te representam juntam-se todos e fazem-lhe a vida negra até que esse herói fique sem crédito, sem coragem, ou apenas com vontade de ser feliz e pronto, pouco interessa no que resulta, interessa mesmo é que para esses nada resulte.

Também perdeste a batalha da educação porque o teu sistema é permeável a que os pobres de carácter e de mundo, e já agora deixa-me sublinhar “de mundo”, porque te tens feito representar por uma vasta cambada de parolos sem experiência de vida, sem “soft skills” para mais do que gerir negociatas de feira ao ar livre para venda de “bibelots” e pechisbeques vários, pelo que nada mais lhes resta que andarem a cravar almoços a quem tem dinheiro para os pagar, porque como qualquer parolo que se preze, pode-lhe faltar a educação, a inteligência e a capacidade de fazer algo relevante, mas nunca lhes falta nada que lhes caia mal na aparência. Tens sido exímia em proporcionar-lhes as aparências, para que pareçam aquilo que nunca foram, querem ser, mas também nunca o serão na verdade. Mas como não há justiça também não temem o juízo, e até mesmo os crentes em Deus e que acreditam no juízo divino jamais se conseguem rever a serem privados seja do que for, condenados seja pelo que for, tal é a bebedeira da parolagem.

E assim tens sido um joguete ao serviço das aparências destes inúteis. Não quero retirar o papel que as pessoas deste pequeno mundo que é Portugal, mas que ainda assim é bem maior que o circulo dos meus amigos, dos amigos dos meus amigos e dos personagens da vida social, a real e a virtual, a das revistas e a dos círculos intelectuais, académicos, enfim, todos os que podemos ver. Há uma larga camada de pessoas que são invisíveis apenas por não terem nada de sensacional para mostrar.

A maior parte da população, essa que não vai votar porque acha que não vale a pena, não percebe, ou não quer perceber quando o sol se faz quente, a chuva se faz molhada, o clima se faz frio, o fim de semana tem um feriado, que não ir votar não é o contrário de ir votar. Não ir votar é fácil e legitimamente confundivel com “não sei; “não quero saber”; “façam o que bem entenderem comigo” ou mesmo “estou-me a cagar para a política”.

Pois é senhoras e senhores, assim a política e os políticos também se estão a cagar para vocês, e agora? Também não sabem, não querem saber, fazem o que bem entendem convosco. E então? Não tivessem vocês a sorte de haver um número inferior às cabeças contadas na vossa irresponsabilidade e já estariam todos presos só por dizerem uma bacorada qualquer que não caísse bem a um anormal qualquer que vos governasse.

Eu? Se voto? Em quem? Eu, infelizmente, há anos que não me sentindo representado por nenhum exemplo por que sinta admiração e confiança, que mude o sentido do jogo (das pessoas para os políticos / dos políticos para as pessoas) não vou à praia sem ter ido votar, não vou para fora da cidade e se alguma vez estive fora do país, pois não me recordo. Há anos que me levanto e saio à rua de t-shirt, guarda-chuva ou o que for adequado, para ir fazer um voto nulo, sabendo que se um dia os resultados eleitorais fossem 40% dos votos repartidos pelos partidos e 45% (vá….) de votos nulos, escusavam os comentadores das noites eleitorais de tentar interpretar a abstenção como lhes convém a eles e aos seus amigos, sendo que todos, mas principalmente os partidos e os os seus soldadinhos de latão, teriam que confrontar-se com uma resposta diferente, que poderia ser lida de várias formas mas sempre entendida como: “Estamos vigilantes, vocês não nos representam, mudem esta merda porque nós estamos aqui a ver-vos e não estamos a gostar do que estamos a ver”.

Porque é para isto que nasceste, Democracia.
Mas hoje obrigaste-me a ir às urnas e votar mesmo em alguém, tal é a falência em que te encontras. Apenas porque sei que não obstante a merda em que estamos mergulhados, as coisas podem sempre piorar. E não é preciso sermos inteligentes para percebermos esta possibilidade, ela acontece-nos várias vezes e em vários planos da nossa vida: Não obstante a merda em que estamos mergulhados as coisas podem sempre piorar!

E foi por isso que me levantei do meu sofá, fiz uma pausa em tudo o que tinha para fazer, para ir votar, desta vez num mal menor. Votar num mal menor é dos buracos mais tristes onde podemos cair. Bem, se calhar não é…. porque não obstante a merda em que estamos mergulhados as coisas podem sempre piorar.

Deixo-te uma música alegre e bem disposta porque deves andar toda amachucada.

A SEAGULL WITH A THOUGHT

Photo: @thelisbonshooter

THE THE | I WANT 2 B U

Well, you know? I really don’t give a shit about that thing “a-like-for-a-like”, just because I know how to fly by myself since the first days of my life. So it’s natural for me, and it get’s more natural as time goes on: if I like, someone’s get a like, and if I don’t, I simply move on and scroll down. By other hand (or wing, to be more precise) I don’t expect a like if you like, just because life isn’t really about that. I guess people are making guns with liking, not liking and desliking, you know? If it’s sad? Well, it is what it is… Me..? I’m just a simple bird with a social media account.