POEMA A UCHIDA

BEETHOVEN | BERLINER PHILHARMONIKER + SIR SIMON RATTLE + MITSUKO UCHIDA | PIANO CONCERTO NO. 5 IN E-FLAT MAJOR, OP. 73:II. ADAGIO UN POCO MOSSO

Imagino duas formas de te escrever um poema de amor.


Na primeira podes encontrar-me na esplanada da casa de chá dos jardins de Serralves, o dia está limpo mas frio, e céu é azul de água fria e de vez em quando, muito de vez em quando, aparece uma nuvem. Estou aqui há duas horas, devem ter aparecido umas sete, sempre caiadas a um branco cor de roupa estendida. Tenho um chapéu e um cachecol, sabes como gosto de chapéu e cachecol… Tenho um passarinho muito pequeno que está aqui comigo desde que cheguei. Pedi-lhe uma torrada sem manteiga. Sabes quanto tempo dura uma torrada para um passarinho destes? Acho que tenho que cá voltar amanhã, arranjo uma forma de guardar a torrada e ela não ficar dura. Ele diz que vem, que anda sempre por aqui e que eu não me preocupe que ele dará por mim. Pude tirar o sobretudo porque vim com uma boa camisola e o sol sempre aquece, é uma hora da tarde. Vim para aqui cedo e já me fartei de ver coisa e de andar por estes jardins, já fui à casa de Serralves, sabes? Claro que, como sempre, saí dali a pensar que gostava de morar ali, mesmo sabendo que o sonho é sempre o exagero dos dias que passam por nós, mas eu gosto de sonhar, já sabes, e alto. Já te escrevi cinco páginas de poesia e se tivesse que escolher quais os versos mais bonitos não tardaria um segundo a dizer que são os que andam à volta do imaginário da tua gargalhada, depois seguida pela minha, para se fundirem as duas numa gargalhada que já só se ri de nós.

Na segunda poderás encontrar-me na pauta deste Concerto N. 5 do Beethoven. Sim, claro, tinha de ser Beethoven, o mais romântico dos compositores. Diz-se que os apaixonados ficam cegos por um tempo, Beethoven ficou surdo para sempre, só para chatear, calculo.
Este Concerto No. 5 Op. 73, é, como vês, de uma beleza transcendental, foi composto por Beethoven já surdo, e na sua inauguração não foi ele o solista. Desde então continuou a escrever e a conduzir os seus concertos, tendo composto e conduzido a nona sinfonia completamente surdo, não pode ouvir a ovação de que foi alvo e que foi a coroação dessa sua obra, imagina. Sabes que acho que só existe uma força humana capaz de superar esta adversidade que é o amor. E ele tinha-o à música, como o tinha no coração.
Aqui é de noite, não estou no Porto… Bem… nem sei bem onde é que fica este sítio maravilhoso mas estou num salão enorme, de cortinas encarnadas que contrastam com azuis, brancos e encarnados de um fresco enorme que me cobre da chuva. Lá fora está a chover muito. A sala tem quatro lustres em que cada um parece ser feito de mil lustres iguais aos da minha avó, que eram enormes, não te rias.
Mas aqui está quente e quase que se pode comer neste chão de tão limpo a lavado que está. Eu estou sentado de lado, só com uma camisa branca, umas calças de ganga e já me descalcei. Gostava que me pudesses ver de cima, deve ser de rir, porque estou sentado e tenho folhas espalhadas por este espelhado soalho num raio de um metro e meio, até onde posso chegar, esticando-me, já sabes.
Penso que metade estão escritas com poemas dentro de poemas que me obrigam às vezes a parar, para de um verso de poema que escrevi me sair o começo de outro que segue já outro destino, outro comboio que me leva a outra estação. Neste momento estou parado, a olhar à volta, perdido em detalhes das paredes, dos quadros, dos lustres e dos reposteiros, das cadeiras e sofás, mas tranquilo… estico-me ligeiramente, pego numa folha de papel em branco, sento-me confortavelmente de pernas cruzadas e penso que se nos perdemos na poesia temos que fazer como fazemos quando nos perdemos na terra. Se virmos uma linha de um comboio não quer dizer que vai passar um comboio, mas quer certamente dizer que por aqui já passaram muitos. Se nada acontecer, é porque o lugar perdeu a importância e se esqueceu, mas as duas linhas paralelas são a memória desse lugar, e certamente, se puser umas folhas debaixo do braço e me fizer ao caminho, seguindo e ladeando as linhas paralelas, hei-de ir dar a uma estação com comboios, com gente, a uma folha com versos atrás de versos atrás dos teus olhos para que os leias.
Nunca se perde um poema, apenas podemos esquecê-lo para sempre.