BOA NOITE, DIA

JÓHANN JÓANNSSON | GOOD NIGHT, DAY

Nunca tinha havido uma estação do ano que durasse tanto tempo, que desse para tanto, que fosse para o sol como era para a chuva. O mundo rodou e rodou e a estação corria atrás da Terra, envolvendo-a num manto de medos e cataclismos, de desesperos e fatalismos. Os bafejados pela sorte nem se lembraram que era príncipes, os fustigados pela vida nem se lembraram que para eles tinha sido sempre assim, por qualquer outra merda que os fodia sempre.

Mas a música continuou a tocar, a arte fez-se porque há os que não respiram outro ar, felizmente. Imagina tu que o vi na praia – o maestro – um vento de cortar árvores em ramos, um mar a preto e branco de partir traineiras e barcaças ao meio, e ele ali, de braços abertos, a escrever pautas de cabeça, rodando o corpo sobre si próprio aqui e ali, numa dança de uma música surda aos meus ouvidos. Tudo se agigantava na sua mente, na sua frente e dentro de si mesmo, percebia eu pelos movimentos dos seus braços e pela forma como olhava para o céu e para o alto das vagas do mar. Eu? Eu apenas ouvia as rajadas e as ondas a estalarem na crista, tardando a bater no fundo, fazendo o chão tremer debaixo dos meus pés. Dos dele também, que eu bem via.

Eu tinha ido ali para fugir do confinamento, sabendo que não iria encontrar ninguém. E ele? Provavelmente já não lhe saía música entre paredes, já não compunha nada que não os lençóis da cama ao levantar-se. Deve ter pensado – “Vou ali escrever um estásimo, uma ode, uma ária, merda qualquer que me faça ter sono quando a luz se for” – só porque já não acreditava no que os relógios lhe diziam.
Nem eu acreditava, sabes? Havia tão pouco tempo para tudo o que se podia fazer com tanto tempo que ainda ficava tanto por fazer. Fica para amanhã, como se houvesse amanhãs…

Ainda hoje sofremos de um jet-lag de não termos ido a lado algum. Ficámos cada um no seu meridiano, deixou de haver continentes e passaram a existir apenas países. E até esses encolheram os ombros em concelhos para depois se apertarem de braços cruzados em cidades, bairros, ruas e medo, muito medo. Nunca havíamos sido tão pequenos, e ficámos tão pequenos e desprotegidos que quiseram que acreditássemos em tudo. E o homem achou que era uma criança e que o homem do saco andava atrás dele. Pior: que o homem do saco podia ser qualquer um de nós. As cabeças para baixo, a olhar o passeio, os olhos todos a fugirem dos olhos de todos. Eu já não me lembro da cara do senhor com que me cruzo todos os dias quando vou ao pão ou à fruta.

Foi por isso que preferi o vento e as vagas, são mais calmas que a tensão do fantasmagórico silêncio que se sentia no meu bairro, na minha cidade que era então, e é agora, o meu mundo.
Mas eu atravessei um rio como um fugitivo. Um rio que antigamente apenas banhava a minha cidade e a separava de outra, e ambas eram como uma cidade um pouco maior. Agora pode dizer-se que sou um desertor que vê a sua casa do outro lado do rio. Ficou tudo mais pequeno para ficar mais longe. É complicado, sabes?

Sei que ele, que se arrisca mais à margem onde a praia é chicoteada pelas vagas, veio a mando da sua arte, seguindo o barulho das ondas para com elas fazer um fundo de orquestra, uma grande e alta orquestra com uma crista ameaçadora nas alturas, e que a todo o momento parece querer engolir o criador da melodia que, de corpo franzino, num braço apenas segura um violino.
Sabes que é como um quadro de David a tocar violino para Golias, e essa onda que parece crescer cada vez mais, como quem manda, não se deixa rebentar na areia para se encantar por quatro cordas e um arco?

A luz baixa, tudo fica mais escuro e olhamos ao longe um para o outro, como se alguém perguntasse se é nuvem se é noite. Como se isso mudasse alguma coisa, como se a nortada virasse vento sul. Eu só durmo quando tenho sono, só tomo banho depois de acordar e só como quando tenho fome, mais não sei. Sei que há quem conte os mortos a horas certas para não perder o norte à vida, mas eu escolho perder-me para ter ao menos a felicidade de me encontrar novamente quando isto acabar.

Ele sobe as dunas da praia com os seus cabelos branco e prata, que voam à vontade do vento norte. Ele baixa a cabeça para fugir com os olhos da areia, como a criança que é e que anda no passeio da sua rua a fugir do homem do saco. Tudo vai dar ao mesmo que é deixar que o tempo passe, para que tudo passe com o tempo, assim se chama a esperança.