CANDEEIROS LEVA-OS O VENTO

RHYE | COME IN CLOSER

Debaixo da sombra de meia garrafa de um robusto e aconchegante tinto, numa noite de frio sobre frio, ele deu com ela num banco no jardim do Príncipe Real. Ela chorava algo ou alguém, ou talvez fosse só a sua reacção ao frio que se soprava rajadas intermitentes, arrastando com ele um gelo vindo do norte.

Aproximou-se e perguntou-lhe se ela precisava de alguma coisa, como era de fazer a quem visse sofrer encolhido numa dor qualquer. Ela respondeu-lhe bruscamente que não, que só precisava que a deixassem em paz, o que António percebeu, claro, desculpando.-se com o facto de querer apenas certificar-se que ela estava bem, e desejou-lhe uma boa noite, percebendo-se educado mas sentindo-se despropositado.

Pensou que talvez a tivesse assustado, afinal era uma noite soprada a vento, num pedaço de cidade deserta, fechada em escuridão e mais perto de se levantar do que se deitar, e ali ele, transpondo o espaço de segurança dela, que ainda por cima, percebeu, era necessariamente maior do que ao que ele estava habituado.

Quando António deu os primeiros passos em direcção a casa ouvi-a perguntar, em restos de uma voz rouca, ainda com alguma agressividade nos maxilares e de olhos molhados da chuva que lhe vinha do peito:
– “Mas porque é que se preocupa?” – E ficou presa nos olhos dele, espelhando neles um candeeiro que lhe trouxe um brilho a uma cara bonita mas despida de esperança, que já não tentava esconder, e que saía da sombra da árvore, mais escura que o escuro que tirava a vida a Lisboa. Ainda rangia os maxilares de frio de corpo e alma.
– “Olha, pois… não sei bem… não consigo ficar indiferente às lágrimas dos outros. Também não consigo passar por cima das minhas, não é a mesma coisa, eu sei… Se calhar é um bocado infantil”
– “Infantil não é, a não ser que aches que consegues mudar a corrente, ou o vento, sei lá… “- E por dois segundos, sorriu, para se voltar a fechar sobre uma tristeza sua.
– “Não, não, nada disso, acredito apenas que se nos preocupássemos também com o sofrimento daqueles que não nos são próximos, no mínimo, poupávamos-lhes alguma dor. E ‘alguma’, para quem está nesse lado, importa muito mais do que custa dar um pouco de nós” – E acenando-lhe ao de leve com a cabeça preparava-se para continuar o caminho para casa, mas ela continuou:
– ” Acreditas em contos de fadas, é isso?” – E não conseguiu não o dizer em tom de troça e forma provocadora.
– “Olha… ficas bem? Estás perto de casa e vais bem para casa? Está imenso frio, devias ir para casa. É tarde”

António não estava com grande disposição para que abusassem da sua boa vontade e das suas melhores intenções, afinal também lhe chovia na alma que já vinha amolgada de outras guerras.
Ela disse que se chamava Vitória, que morava algures e que ele não se preocupasse que ela estava em óptimas condições de ir para casa.

Despediram-se com um aceno de cabeça e António fez-se ao caminho das ruas de empedrado que reflectia as luzes das janelas, da ponte, dos candeeiros. Pensou na beleza do jogos de luzes de Lisboa em noites de inverno e sorriu, sorriu largo, por saber sempre agradecer.