CARTA A LISBOA

HALDOUS HARDING | TREASUSE

Eu sou deste rio, cidade.
Eu vivo à noite nos teus olhos tristes, tropeço na tua lábia de cidade sabida e toda a perdição vale a pena quando nos reconciliamos no teu Tejo.

És tão caprichosa, tão feminina, tão segura de ti, cidade. És tão água na boca e tão gente de cores à solta. Como não te desculpar tudo e como não te amar sempre? E se tantas vezes te chamo nomes e te descomponho em palavrões, engulo sempre os meus insultos quando me olhas com esse sol.
Não é possível guardar-te raiva por muito tempo e quando nos zangamos de noite é impossível acordar na luz dos teus abraços de Primavera e encontrar o rancor no meio dos teus lençóis.

Pois sempre que escorrego nos teus passeios não sei se te bata se te beije na boca. És a cidade mais mulher de todas as cidades e não há outra que te chegue aos rodapés.