DESESQUECER

GIDON KREMER | OBLIVION

António pouco ou nada dormiu naquela noite. Sentado à secretária de carvalho escreveu até secar a alma de sentimentos. Não se dorme com o peito cheio cheio de sentimentos que o mais certo é sonhar com o que não se quer.

O dia seguinte era um dia importante, a decisão estava tomada, era preciso pô-la em andamento. Três cafés resolviam um problema que nenhuma noite de sonhos indesejáveis conseguiria resolver. Era preciso foco e António não se focava com tristezas a baterem no sentido contrário do coração, mas ficava capaz de qualquer coisa que fosse feita com alma, com meia hora de sono e três cafés.

Escreveu como quem despeja um rio de água suja à porta, rua abaixo como se a noite tivesse chorado uma enxurrada de desgostos que desciam as ruas do Bairro Alto até ao rio.

O dia anterior tinha-o, de alguma forma, posto à prova, logo pela manhã, num café onde tomava habitualmente o pequeno almoço, quando deu de caras com o ex da sua ex antes desta o ser (sua, entenda-se). António olhou-o profundamente nos olhos e ali se deixou ficar mas só a viu a ela, passou-lhe todo um tempo maravilhoso à frente dos olhos, tempos em que os olhos de ambos desaguaram de água de tanto rir, dias que se passaram inteiros ao telefone, com intervalos para dormitar qualquer coisa, como talvez só possa acontecer a um homem e a uma mulher uma vez na vida. Há coisas assim, que só acontecem uma vez na vida, são irrepetiveis, talvez porque não aguentaríamos a falsidade da contrafacção de emoções. Não nisto.

Se as levarmos, no fim de tudo, para outro mundo como memórias em flor, isso só vendo, ninguém nunca nos veio contar. Seja como for, o ex da ex achou tudo menos piada ao facto de António o encarar com um sorriso prolongado, não fazendo ideia de que nem António olhava para ele, mas apenas na sua direcção, como se ele fosse tão apenas um nevoeiro. Como podia ele perceber isso? Claro que com toda a legitimidade se sentiu ridicularizado, injustamente ridicularizado.

Em tom ameaçador questionou se António se ria da sua própria estupidez ou se era mesmo parvo de todo e tinha vontade de voltar para casa com dois olhos negros.

-“Já passou tanto tempo, Miguel, tanto tempo…” – foi a única coisa que lhe saiu, sem qualquer tipo de receio a subir-lhe pela coluna, só mesmo com pena que as coisas se tivesssem passado daquela forma, para todos. Foi o que lhe ocorreu dar como resposta, exactamente no momento em que a sempre antipática russa que servia à mesa lhe trouxe o latte e a tosta de pão integral com abacate e dois ovos escalfados.

Miguel não estava satisfeito, estava sedento de pôr fim (achava ele) ao ressentimento. António convidou-o a sentar-se à sua mesa. Miguel, baralhado e apanhado de surpresa, acedeu.

António disse-lhe que: “O rancor e o ressentimento são remédios santos, mas para usar em curto período de luto, ajudando-nos a lidar com a dor de não perceber tudo aquilo que desesperadamente precisamos que nos faça sentido. Ajuda” – e continuou – “mas não há nada que possa dar um sentido certo à dor, porque a dor não tem sentido, só intensidade. É portanto necessário abandonar esses sentimentos para que nós possamos soltar das amarras que nos prendem a um passado que já é só isso: passado e dor. E não nos trará os bons sentimentos de volta, nem a felicidade que é a dignidade para que qualquer humano foi desenhado.
Agora é deixar cair ao chão o rancor e o ressentimento, desvalorizar o orgulho que é o ego de voz feita e levantada, e afinar o passo e seguir, seguro de que tudo o que há de bom e que podemos desejar está à nossa frente e à nossa espera, sendo necessário estarmos atentos, claro.”

Miguel levantou-se com um olhar diferente estampado no rosto, creio que aliviado, quem sabe perplexo por alguma razão, não sei, mas aquelas palavras de António tocaram-lhe de alguma forma e os seus olhos reflectiam paz.
Ainda assim António despediu-se com um sentido e sincero “Desculpa, Miguel… Espero mesmo que tudo de corra pelo melhor”
De Miguel não obteve resposta, dirigiu-lhe apenas um olhar tranquilamente resignado, limitando-se a dar-lhe uma leve palmada no ombro e a sair dali para fora.

António fez a barba no banho, vendo-se ao espalho e não escondendo um pingo de orgulho por ter sido, no dia anterior, tão justo e honesto com Miguel, um tipo, também ele aparente justo na medida do que lhe pareceu possível face a tudo o que de mau lhe havia acontecido há uns anos atrás.
Prolongou o duche, estava com tempo, reviu mentalmente a matéria para o dia que tinha pela frente. Vestiu o fato, colocou a gravata, os botões de punho e o relógio que herdara do seu primo, certificou-se que tinha na pasta tudo o que precisava. A sua caneta preferida estava no bolso do casaco do fato e um lenço branco na lapela.
Entrou no elevador e nem precisou de olhar para o espelho, que ficou nas suas costas, para reconhecer que carregava um carácter de que não precisava de se envergonhar, não seria necessária a validação de um espelho que é cego nessas matérias.
E estava preparado para o dia que começava hoje.