#ENCONTRÂNCIAS

KEVIN MORBY | WANDER

Eram discos de vinil, recordo bem as capas, o tamanho que nos acupavam nas mãos, as letras e tudo o resto. Lembro-me dos picos, dos lugares onde apareciam com precisão naqueles momentos nas músicas, faziam parte da composição, e como iam aparecendo outros, com o uso, aqui e ali.

Era tão difícil, nesses tempos, encontrar música que ninguém conhecesse, esses em que os fios dos telefones se entrançavam sobre si próprios e o senhor dos correios não tinha cartas a medir.

Mas lá vinham os discos, do estrangeiro, pelos amigos, os amigos dos amigos e os primos e os desconhecidos, nem sem bem como. Bem, vinham em camiões e comboios certamente, mas como nos chegavam aos ouvidos é hoje, a meu ver, pura magia. E é-o porque nem chego a falar daqueles temas e bandas que passavam nos programas alternativos da rádio, os do António Sérgio, a rádio de Almada e outros e outras que tais e que me perdoem a injusta falta de memória.

Não. Falo de sons que nem por aí passavam porque o mundo era tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno e o que mais haviam era limites à curiosidade, ao trabalho de pesquisa daqueles que buscavam novas sonoridades e sons que seriam tendências um dia.

Os discos, dessa banda que me encantou ao primeiro acorde na primeira audição, por carregar uma guitarra de corpo industrial com uma voz nunca antes ouvida. Eram alemães e eram os “Element Of Crime”, mas não metiam medo a ninguém. Um banda de rock alemão, que ali cantavam em inglês, mas que mais tarde descobri, já nos tempos do streaming, que também se fartaram de cantar os mesmo temas na língua mãe. Eram patriotas e bilíngues. E eram bons como tudo e deixei-os entrar no campeonato do Pixies e dos Cure, que era um campeonato muito exigente.

Hoje é fácil ouvi-los no idioma que quisermos, basta ir ao Spotify e escolher. Eu não consigo sair do inglês, adorava aquele ligeiro sotaque alemão no seu irrepreensível inglês.

É altamente aconselável que o façam, que oiçam estes “Element of Crime”, talvez descubram algo tão marcante, tão autêntico, até pode ser que descubram nos “Element of Crime” a mesma actualidade, tão parecida com este Kevin Morby que me conquistou na primeira semelhança com os “Element of Crime”, assim, logo nos primeiros acordes e nas primeira nota vocal, trinta e poucos anos depois, imagine-se.

Se o mundo, longe de ser perfeito, é um sítio bonito de se habitar, é também por estas coisas acontecerem.