ENTRE UM CORPO E A PAREDE

SØREN BEBE TRIO | ECHOES

Encontram-se em caminhos descruzados,
Na contradição do tempo que existe entre um corpo e uma parede,
Duas almas que se perderam entre um fumo sem fogo,
Depois de dissipada a estranha nuvem em água fria,
E tudo se desaprendeu tão mais depressa do que se pôde um dia aprender.


Dizia ele que era o mundo a girar no sentido contrário,
Dizia ela que era o equilíbrio a restabelecer-se ,
Diz a história da razão universal que nada se perde,
Mas há sempre uma alma que perde o pé,
Enquanto outra perde a cabeça,
Ou que tudo se transforma, também se diz isso,
Diz a razão que muito se transforma em nada, por vezes,
O que já deve ser algo, reza a esperança.

Pois que tudo se transforma, não há discussão possível,
E a morte do belo em troca do nada é já por si um movimento,
Uma transformação de pão em nada, por exemplo,
De vinho em ar, quem sabe, às tantas…

Dá-se cada milagre na floresta, não achas?
Pobre árvore que sobra,
Quando do verde nascem cores que não se contemplam, não é?

A ela caíram-lhe folhas dos braços abaixo,
Perdeu a flor, o perfume,
E de uma memória de Primavera fez-se todo um esquecimento,
Daquilo que podia ter sido e escolheu não ser,
Para ser só uma ferida da bela memória,
Na espera de sarar ao ar um dia.

Um dia perdeu as flores, e toda a elegância virou um nada,
Um nada que se perde para o tudo-que-se-transforma,

“Mas entregue à sorte de se formar em melhor, ouviste?!” – Gritou muda a vergonha impressa na face do orgulho,
Essa força medonha que é o orgulho,
Um pavão sem penas mas ainda de peito cheio,
Um rei-vai-nú, que não percebe, cego e cheio de si.
E no cortejo já só ele vê uma côrte,
Onde o povo, esse, é afinal quem reina.

Pois teme sempre as pessoas cheias de certezas, não te esqueças,
Teme-te assim que te vires “descrompreendendo” alguém,
Ao mesmo que tempo que te olhas sem dúvidas,
Na frente de um espelho que apenas te reflecte o que queres “ouvêr”.
É nesse momento, precisamente nesse momento, que deves fugir de ti,
E entregares-te, mesmo de uma qualquer forma impossível.
É que o orgulho, esse, nunca se veste de coragem,
Por muito que lhe imite a pele para dela se vestir vaidoso.