ESTAR DE VOLTA AO FUTURO

SAMUEL GAPP (TRIO & STRING QUARTET)| MONTANTO’S VIEW

Há muito poucas coisas em que me irrita Portugal e em ser português, assim de repente não me lembro de nenhuma. Ora isto, por exclusão de partes, faz com que me sinta muito bem na minha nacionalidade e adore o país em que fui escolhido para nascer e viver.

Um delas, e é das importantes, é termos boa música. E termos boa música foi talvez uma batalha mais dura de travar que a de Aljubarrota, já que tivemos que ultrapassar trincheiras imensas de complexos de inferioridade, preconceitos, julgamentos prévios e vergonhas várias e sempre pelas razões erradas, claro, nada que ver com a música em si.

Ora quando falamos de boa música (e de má, claro) o foco central é a música, obviamente, não políticas e preconceitos. Imagine-se um gajo a criticar o paladar de um bife com ovo a cavalo argumentando que o Benfica com aquele plantel e treinador não vai lá….
Mas foi mais ou menos isto que aconteceu e ainda acontece, um pouco ou mais até do que é aceitável, mas enfim, sigamos em frente e foquemo-nos na música para falar de música e não no ovo a cavalo.

Um dos meus tipos de música preferida, a que chamo “porto seguro”, porque é sempre lá que volto quando consumo indie, pop e rock a mais (só para dar uns poucos exemplos) é ao jazz. Mais recentemente, nos últimos 10 ou 15 anos conquistei outro “porto seguro” que é a música clássica, nada mal. Um gajo ter dois portos seguros é praticamente ter atingido a imortalidade.

Mas o jazz encontrei-o muito precocemente na minha vida por força das minhas relações sociais. Bem… amigos e amigos de amigos, que um gajo com 10 ou 12 anos não tem aptidões para falar em “relações sociais”.
Não sendo um historiador, sou apenas um gajo que sabe contar umas histórias, mas nada que mereça ser registado em literatura para ser levada a sério, penso que conheci 3 gerações de músicos de jazz. Os meus conhecidos e uns poucos de amigos pertenceram à segunda. Uma geração de ouro que abriu um caminho dificílimo no reconhecimento do jazz nacional, interpretando as maiores obras primas dos grandes mestres do jazz, fazendo longas e memoráveis sessões de improviso, trabalhando, treinando, aprendendo e ensinando muito a muita gente.

Como não pretendo deixar de ouvir jazz nem morto, até porque acredito no jazz depois da morte, preocupo-me e muito com todas as gerações que aí virão, mas vou aqui dedicar este meu tempo a esta nova geração de jazz. Duas das grandes diferenças que sinto para a anterior geração de luxo de músicos e compositores de jazz que felizmente continuam a surpreender-me e a dar-me momentos sublimes de música, felizmente, é que esta nova geração de miúdos que caminha para os 30 anos, uns mais perto e outros um pouco mais afastados, é que romperam com uma musicalidade de inspiração mourisca (que eu adoro, por sinal) e vêem todos cheios de vontade de compor. Isto podia ser uma má notícia, mas não é, é que os temos de um talento incrível, com uma orientação mais cosmopolita, com menos medo de marcarem o seu lugar desde logo cedo.
É importante que se diga que tal só é possível porque eles não têm nada a perder em arriscar porque a geração anterior tratou de prestar as provas quase todas, já que desafios há sempre e também esta nova geração os há-de ter, mas não esqueço o ambiente do Hotclube, com a primeira geração do jazz nacional a assistir nas primeiras filas, sentados e focados… a pressão era muito grande, mesmo!
Hoje, essa malta da minha geração faz o que quer, bem, e merecem todos os palcos que lhes derem que eles farão o caminho de olhos fechados.

Samuel Gapp, compositor e pianista do album de que faz parte este “Monstanto’s View”, André Rosinha que aqui deixa o seu contrabaixo e Diogo Alexandre que é dono desta bateria de uma extrema elegância, disciplina e rigor (bem como é capaz de partir uma bateria em 3 tempos) já me foram apresentados pessoalmente pela minha filha. Digo “pessoalmente” porque para grande surpresa dela já eu os ouvia em disco, em casa, com grande deleite. “São meus amigos, conheço-os todos” dizia ela com orgulho. Eu? orgulhoso, claro. Como não?

Este disco de Samuel Gapp é bom do primeiro ao último tema e é para mim representativo de um jazz português contemporâneo, novo, que muito aprecio. Sigo estes novos homens do jazz português com admiração, respeito, expectativa e esperança, muita esperança que o mundo se torne maior para eles como se torna para tanta coisa que não acrescenta grande valor na sociedade. Precisamos de uma sociedade mais esclarecida, com mais educação musical e cultural e estes senhores podem ter um papel nesse filme de gostarmos de ser portugueses e amar Portugal sem por isso termos medo de passar fronteiras.

Que a força esteja convosco!