FICO-ME COM OS RESTOS

WIDOWSPEAK | AMY

Sobre os rochedos que se imprimem na minha alma,

Na rebentação e na espuma do que de ti me esqueci,

Que foi quase tudo, fora quase nada do que recordo.

Assim é o poder da erosão da vida,

Há tempo, faz tempo que não te inscrevo nos rochedos,

Das suas ondas, as que vão, as que voltam,

E todas as que se perdem em marés que são afinal reflexos.

O mar é feito destes truques ilusórios e conspira com a luz.

Foram tantos os marinheiros que se perderam para sempre,

Os que descobriram as terras erradas, enganados pela vista desimpedida.

Assim me encontro, mas sempre com a rebentação ao fundo,

Rugindo macia e aveludada numa natureza mãe que penso ser caminho.

Há no entanto, neste bravo navegar, uma certeza de conforto,

É que as perguntas valem bem mais do que as certezas,

E num mundo que se quer fazer quadrado de respostas,

Sorte ter crescido uma planta que se alimenta de questões.

E ao ver, sentado na rocha que repousa na areia na praia,

Já de aromas de outono, feitos sem folhas mas com notas de fruta do mar,

O bater das ondas que se fazem brancas de bravas,

Oiço as vozes que perigam ao longe, gritando correntes de ódios mal amanhados.´

São palavras de ordem de quem semeia desordem,

São enganos embrulhados em papel de prata, reflexos de mares traiçoeiros,

Desses que afastam os marinheiros dos seus nobres descobrimentos,

Na esperança de que nada se descubra e se encontrem as nuvens que a tormenta nos oferece.

Eu quero ficar com os restos,

Com os escritos e as palavras cantadas,

As notas que se pagam de ouvido,

E o amor disto tudo que se chamará “resto”