HISTÓRIAS DE UM CADERNO BRANCO EM CAPA DE COURO

FUTURE ISLANDS | HAUNTED BY YOU

Acordou com um poema torto na cabeceira. Não se recordava de o ter começado, mas ali estava ele, a gritar por sentimentos, estampado na face de uma página branca num caderno despido, de capa de couro.

Mal conseguia dizer merda qualquer, a garganta cheia de versos em novelo. António era todo ele um desperdício de frases sem sentido, que se haviam estilhaçado nas paredes dentro de si, talvez a dormir, talvez.

Um homem não se deve deitar com poesia por escrever nem sem guerras terminadas por acordos de paz e amor.

Amaldiçoou-se por ter negociado muito mal com Deus a sua vinda a esta existência, carregando desde sempre a ingenuidade de sentir tanto as coisas das coisas, das imagens, dos sons, das pessoas.

Recordou as palavras que Pilar lhe havia dito um dia “cada vez sei menos e sinto mais”. 

Escreveu a frase da amiga no caderno e riscou tudo o resto, para não se esquecer de se lembrar, sentou-se na poltrona do quarto, caderno fechado sobre as pernas, de saudades da amiga no peito e a garganta fechada sobre si.

Não sabia nada de Pilar há anos, desde que as levou ao comboio, Pilar enrolada de frio no seu braço esquerdo e Luisa do outro lado ao seu colo, leve como só as crianças conseguem ser. Luisa, ainda a menina sorridente e curiosa, não havia conhecido nunca a mulher que seria então,

Fechou os olhos e conseguiu dizer em esforço as últimas palavras que ouviu de Pilar: “Escrevo-te quando chegar. Já sabes que não habito as palavras escritas, só as vivo em viva voz, mas pronto… Faço um esforço por ti”, riu-se, e já depois de António lhe ter posto as malas no comboio e lhe dar um beijo na testa e a cobrir com um abraço, como se não a fosse abraçar nunca mais, Pilar sorriu com os seus olhos que tantas e tantas vezes falavam mais do que a sua voz “Obrigado, António, gosto muito de ti”

António ficou no apeadeiro e ver o comboio a desfazer-se na neblina que cobria Lisboa nessa manhã, e ali se deixou ficar, firme de frio, olhar perdido na neblina, com o peito a afogar-se lentamente em saudade.

A garganta… lembrou-se que sentia então a garganta como acordara nesse dia, dez anos passados, Luisa em mulher, Pilar de olhos desenhados em pestanas desenhadas a pincel fino, num olhar de água-espelho.
Fora afinal o abraço que parecia, o último abraço de uma amizade que nunca mais aconteceu em parte alguma, em gente nenhuma.

O caderno de capa de couro pousado no seu colo. Abriu-o e voltou a ler “cada vez sei menos e sinto mais”. Virou a página e desatou a sentir sem viver o tempo, mas o caderno acabou e a saudade não. Fechou o caderno e tocaram os sinos da igreja. Tocaram os sinos da igreja, finou-se o caderno e sobrou tanta saudade que concluiu que por muito que tentasse não sabia destilar saudade em papel e caneta. Talvez por isso mesmo Pilar não valorizasse as palavras escritas.

António perguntou-se então se levaria a poesia demasiadamente a sério, em oposição à vida que levava a brincar, sempre que podia e muitas vezes quando nem por isso. Sentiu a sua respiração, ouviu-a mais solta, sabia que já tinha voz mas sem nada para dizer. Mas começou a gravar ali mesmo: “Cada vez sei menos e sinto mais….” e seguiu todo o caminho de coração que havia traçado, página atrás de página, até se fazer noite dentro e fora das suas janelas.