MARIAS HÁ MUITAS

SOFT KILL | FLOODGATE (FEAT. TAMARYN)

Há sinal mais evidente da profunda angústia que o desejo que o dia acabe, trocando o tempo pela falta dele?

Há sinal mais evidente da depressão do que o desejo que se repete dia após dia, de que os dias acabem, trocando o tempo, o único bem irrecuperável, hipotecando o presente pela esperança apática de um futuro que ela imagina a não chegar nunca?

Fiquemos atentos aos sinais, a esses sinais nos amigos, nas famílias, façamos uma corrente de amizade vigilante e saltemos sem hesitar sobre o lobo que os rodeia.

Maria é hoje uma imagem para todos os que a amaram, e foram muitos. Representa a culpa em pessoa para os que lhe estavam mais próximos: os que a amavam, os que por ela se apaixonavam ou já se haviam apaixonado um dia, e eram muitos também. Maria é saber que Marias há muitas e que muitas se chamam Manual ou Lourenço.

Mas Maria, bonita que era, com tanta coisa boa à distância de um braço meio esticado, tinha um sorriso demasiadamente bonito, uma cara impermeável pelo seu interior e nada disto deixava representar a tristeza do seu coração a bater, sozinho e medroso. Maria era menos Maria por isso? Não, dizem quase todos que praticamente se fazia de perfeição e segurança, tal é o medo de lidar com a falta dela, ou vergonha ou que merda seja.

O que Maria era menos que um carro que pode avariar por todo o lado, falir qualquer um dos sistemas que o fazem funcionar. Maria simplesmente desistiu de ser capaz de gerir as expectativas, as dela, as dos outros espelhadas nela.

Funcionais se esperam as pessoas nas suas empresas, nas suas famílias, nas suas relações de amor, de namorados, de juntos e casados, de amigos. E basta, o resto são figurantes não decisivos para a crítica do filme. Todos compreendem e podem ser uma voz amiga, mas quantos desses não ficam à espera que tudo continue na mesma, problema do costume aqui mais problema do costume ali? Pois sim, tudo se percebe, até se partilham lágrimas e abraços se Maria precisasse e pedisse, mas quantos estavam dispostos a que Maria não funcionasse por uns tempos e todos, muitos ou alguns ou merda qualquer se pusessem em segundo lugar porque hoje Maria e amanhã Luisa ou Ricardo?

Algum de vós já olhou um lobo nos olhos? É um fundo sem luz, um olhar opaco sem vida, só todo o tempo do mundo para esperar que as Marias fujam, para que o lobo, então tranquilamente, mova o corpo para ganhar o balanço necessário para começar a corrida, percorrendo num segundo aquilo que Maria levou uma eternidade a fugir.

E Maria fugiu como podia, mas principalmente como sabia, humanamente como sabia, mas esse caminho foi a figura de uma mulher a fazer a despedida, com os olhos de quem espera que tudo seja rápido e indolor.

O fim é sempre triste e trágico. Aqui é sempre tarde e não há lugar a arrependimentos. Que conforto existe no erro! Que confortável é tomar qualquer decisão das que nos possamos arrepender e corrigir, que são quase todas as outras, voltar atrás, sei lá mais o quê…