MAZURKAS À PARTE…

ARTHUR RUBINSTEIN | CHOPIN | MAZURKA NO. 2 IN C-SHARP MINOR, OP. 6 NO.2

O senhor que vemos a fazer capa a este link do Youtube podia perfeitamente ser o senhor da loja do meu bairro para reparação e venda de aparelhos velhos – telefonias, rádios a válvulas, e outros pequenos electrodomésticos que arranjava confrontando-nos com a (não dura) realidade de que nem toda a gente pensa que vale mais a pena ir à Box do Jumbo comprar uma torradeira por 20,00€ do que pagar esses mesmos 20,00€ ao senhor Arthur, mesmo sabendo que aquela sua torradeira gasta o quádruplo da energia, queima mais torradas por não ter temporizador e jamais fará uma tosta ou um waffle, mas que é menos um electrodoméstico nos lixos diferenciados a acabar num aterro qualquer ao lado dos plásticos e dos papéis.

Arthur podia perfeitamente ser esse senhor que é engenhocas desde há setenta anos atrás, já seguindo os passos do pai, bastando para isso tirar-lhe o macacão cinzento que tanto serve presidiários como engenhocas e funcionários de lojas de ferragens, e substituí-lo pelo fraque que Arthur leva na fotografia, passar-lhe uma solução cremosa pelo cabelo e pô-lo à boleia de um piano vertical (pela fotografia parece-me um piano vertical, o piano que me desculpe se tiver uma bela cauda porque que se há comunidade com quem eu não quero arranjar desentendimentos é a dos pianos).

Ora o que me me espanta em Arthur é o mesmo que me espanta no engenhocas do meu bairro: é que ambos carregam uma humildade maior que o gigante talento que têm. Vejam uma entrevista no Youtube com o Arthur Rubinstein e saberão do que falo. Já tentei encontrar uma com o senhor engenhocas mas não encontro nada e aquela bela loja de fachada amarela antes emoldurada com penicos de branco esmaltado e que nunca mais abriu desde que teve início a pandemia.

Mas aqui o Rubinstein é um prodígio a interpretar Chopin, privilegiando um ataque às teclas do piano com mais coração que razão, ou mais sentimento que técnica, como terá dito numa entrevista. A música clássica não é para improvisos e versões personalizadas, antes sim interpretações das pautas, tal como elas foram escritas há anos ou séculos. Ouvidos treinados e conhecedores de certas peças, no entanto, encontram o intérprete na intensidade ou subtileza na interpretação e isso faz parte da grandeza e magia da música clássica.

Aqui fica uma dessas interpretações de Arthur Rubinstein que faz justiça à fama que ele tem a tocar Chopin. Um senhor, inteligentíssimo, de uma educação marcante e com um espaço considerável na minha colecção de música clássica.