O CAMINHO QUE AINDA NÃO EXISTE, É O POEMA

O GAJO | O CAMINHO É O POEMA (COM CONVIDADOS)
GRAVADO AO VIVO NO CLUBE FERROVIÁRIO

– “Seria difícil juntar algo com que tenho na razão a alguma coisa que tenha no meu coração, por falta de vasos comunicantes, não por força da vontade ou falta dela. O que vos juro, senhora, é que tudo o que sair da minha boca obedecerá a uma lógica e nunca a qualquer obra do acaso, mesmo tendo eu passado a vida a brincar com palavras.
Prometo que será praticamente impossível distinguir entre eu estar a falar a sério ou a brincar, o que constituirá, senhora, uma espécie de jogo imprevisível para seu deleite ou – pelo contrário – desespero.

Aceito, honestamente e sem peso algum de rejeição, que prefira um secretário e braço direito que seja totalmente previsível para que jamais deixe de saber com o que pode contar, como lhe digo, e jurando enquanto pouso a minha mão nas dez pedras de calçada portuguesa que o senhor Arménio Jorge calcetou na rua Augusta, há um número de séculos que não sei precisar, que escolhendo os meus préstimos será constantemente surpreendida, chegando por vezes a por em causa a minha competência.

O que lhe peço então, tendo eu chegado a esse ponto por ter sido escolhido entre os inúmeros candidatos, senhora, é que quando esses momentos de dúvida chegarem até si, se foque nos resultados , nos que se pesam numa balança e naqueles que só conseguimos medir recorrendo à nossa capacidade de sonhar e chegar aos destinos que sonhámos, coisa que apenas o animal Homem é capaz de fazer, infelizmente num número ínfimo deles. Não se foque forma, faço-me compreender, senhora?” – Edmundo esperou até perceber no olhar da Condessa uma afirmação, desprovida de qualquer movimento de olhos, muito menos de cabeça ou até de uma tensão percebida nos músculos do pescoço, foi um brilho no mar azul de seus olhos que por ela assentiram. E continuou, seguro de suas palavras, bem como das espectativas que moldava no outro lado, com mãos honestas e fiéis à matéria de que era feito bem como à matéria de que sabia fazer a sua interlocutora.

Edmundo sabia, infelizmente, que toda a verdade é pouca e toda a transparência é pouca quando confrontada com a nortada do tempo que passa, fazendo que, mesmo que nada tenha mudado nos acordos e nas pessoas que os firmaram com acordos nas páginaEs da sua alma e vontade, a erosão do tempo é diferente para cada um, há ventos provenientes de paragens que desconhecemos e que acontecem por motivos a que somos alheios, que nos distorcem a memória, a nossa resposta às adversidades e, em casos limites, até nos destroem a estrutura de valores, princípios e respeito pelos outros, Os outros são sempre mais do que aqueles que vemos à primeira vista.

– “Descansai, Edmundo, descansai. Posso ser tão bonita que leve as pessoas a não me notarem a inteligência. Sei que a beleza ofusca a possibilidade da maioria das pessoas verem mais do que dois ou três palmos à frente, e a sabedoria, como sabe, Edmundo, está a um nível mais longínquo que três palmos, assim como o está o futuro, que não obstante estar ao virar da esquina, é necessária muita intuição, coisa que também sei não assentar num dom divino com que poucos vimos ao mundo , antes sim, uma mistura de factores como trabalho, cultivo, curiosidade e, principalmente, e para que tudo isto seja possível começar a ter lugar no indivíduo, uma imensa e férrea vontade de saber e de se questionar a si e a tudo consequentemente. Compreenda então, Edmundo, que por detrás desta beleza óbvia, consigo perfeitamente possível perceber com quem estou a falar”

Edmundo sentiu-se tremendamente envergonhado. Tudo o que ouvia eram elogios à sua inteligência e perspicácia, sabia-o. O que o envergonhava era o preconceito com que partira ele para esta conversa. Ele, que apenas se via a derrubar preconceitos todos os dias.
Se havia pessoa com quem queria trabalhar, secretariar, e estar ao seu lado para o que ela precisasse, era aquela mulher que em pé, segura de si, tinha na frente dos seus olhos.