O CANTO DA SEREIRA

HOLY ESQUE | REVERENCE FALLS

Criança, homens e mulheres, esmagam-se contra o respeito e a liberdade de cada um na tentativa de embarcarem naquele navio que parece ter sido resgatado do fundo do mar. Não sabem ao que vão, apenas do que fogem. Mais vale ficar a meio da viagem, no fundo do mar, que continuar a ter apenas pesadelos todos os dias, acordados e a dormir. Ao menos terão umas horas pela frente para sonhar, para sentir o nervoso miúdo de chegar ou não chegar a um país que onde as pessoas possam escolher em que passeio caminhar, onde a pobreza possa ser um ponto de partida para outra coisa e não seja sempre o caminho e o ponto de chegada. Terão horas para sonhar com uma qualquer terra prometida, porque aqui não chegam nunca a valer uma vida que seja, e todas as promessas são intenções de punição, ou por nada ou por ódios herdados à nascença.

O sol queima-lhes a pele mas não lhes consome a vontade, não seca o medo nem os distrai um segundo do curto caminho de horas que os espera para a morte ou para a salvação. Quando entregaram tudo o que tinham nas mãos de um verme sem escrúpulos, que sucumbirá também um dia a um poder que imaginou de que pudesse fazer parte, limitaram-se a deixar passar o tempo entre lágrimas e ambições, até serem chamados a transbordarem no navio cadavérico que vai partir.

A vida melhor é uma escassa possibilidade de sucesso, não o sabem as crianças, as mães fingem não saber para afastar o azar e o pavor. Os pais, esses, só sabem que desconfiam de tudo, e esticam os seus braços férreos para abraçarem as suas famílias.
A semana que se segue não se anuncia na meteorologia, tudo pode acontecer e há histórias que os escroques que negoceiam a esperança dos aflitos que fogem à guerra, à fome e ao destrato por aqueles que os deviam servir, deixam escapar quando andam em terra a arrastarem-se pelas taberna feitos uns ébrios gabarolas, episódios trágicos que contam entre gargalhadas arrancadas às suas almas sem remorsos.

E é nessas noites que outros homens, alguns até dos que marcam presença neste embarque, e que aquecem as frias tragédias de vidas em copos de bebidas intragáveis, ficam a saber o terror que podem esperar ao fugir da falta de horizontes.
É precisamente no mar, na linha que vinca o mar em céu que pode estar a morte à espera, com cara de fatal destino desconhecido.

E largam as cores e seja o que os Deuses de uns e de outros queiram que seja o destino dos corpos, colados pelo suor de cada um.