O CONTO DO VULGÁRIO | #1

SCOTT MATTHEW | DARKLANDS

PREFÁCIO

Nasci no ano de 1970, num dia de Maio, nada de especial a assinalar, pelo que pude indagar nem ninguém se lembra se fazia sol ou chovia, está bonito, foi memorável, como se constata.

Vim ao mundo uma pessoa “vulgária” pelo que escrever um livro foi coisa que jamais me passou pela cabeça.

Muitas pessoas amigas (ou não), que no meu caso “vulgário” são sempre apenas uma mão cheia delas e uma delas estava completamente bêbada por ocasião de um casamento, já naquela fase onde os gajos andam todos de gravata na cabeça e elas descalças e de pernas abertas deixando testemunho sobre se se depilam totalmente, muito, pouco ou nada… enfim… “muitas” pessoas me disseram que eu deveria escrever um livro.

Nunca levei caralho a sério essa desonestidade por variadíssimas razões. Uma é porque detesto princípios, outra porque detesto finais, e calha que sempre tive a ideia de que um livro deveria ter um princípio, um meio e um fim. Manias de leitores que cultivam a banalidade.

Ora eu vivo bem é no meio das merdas, fugindo aos lugares comuns como “aquilo ao princípio foi difícil” ou mesmo “foi bom mas acabou mal”, percebem?

Outro motivo para não escrever um livro foi achar que não tenho uma história para contar e já se sabe que os melhores livros são aqueles que têm uma história para contar, se até os piores a têm… agora imagine-se quão condenados ao fracasso estão livros que não têm uma.

O receio é tal que temo até esgotar-me num prefácio que tive vergonha de pedir a alguém para escrever. Disseram-me que então lhe devia chamar introdução. Pois acontece que não foi isso que fiz.

Assim sendo, desculpe-me o leitor cada cêntimo que gastou neste livro, mas retenha pelo menos a ideia que escolher livros pela capa dá quase sempre merda.

Para que a desilusão não seja tão grande imagine por favor que este livro tem um princípio, mas que se perdeu. O leitor deixou o livro pousado num murete de um jardim e uma ventania levou-lhe as primeiras cem páginas, por azar as melhores, ou pelo menos as que davam algum sentido a este livro. Um bom livro ou começa sempre por um bom princípio ou, pelo menos, por um princípio que não sendo lá grande merda, depois até acaba por se desenvolver num sentido legível, chegando até a ser agradável, culminando num fim que nos faz fechar o livro e dizer para nós próprios: “olha que bom livro que se pôs, ninguém diria que isto ia abrir com as nuvens que se faziam de manhã”.

Peço-lhe mais um pouco de paciência ao imaginar que as últimas setenta e cinco páginas deste livro foram usadas, ainda em manuscrito, para atear o lume a uma sardinhada, o que por si, não podemos negar, já é um final feliz. Muito exclusivo, é certo, mas feliz. E temos que saber viver felizes sem sabermos tudo, não acha?

Tremo sempre de medo de fins como temo caudas de dragões, daquelas em que vamos escorregando por elas abaixo, em curvas e contracurvas de montanha-russa, para no final, invariavelmente, sermos cuspidos para um infinito buraco de chamas e labaredas. Isto nem em pleno Inverno é agradável, acreditem.

Com a minha falta de experiência como escritor, ou relevância como autor, permitam-me não almejar a qualquer tipo de inovação, este jamais poderia ser o primeiro livro do mundo a garantir a devolução do seu dinheiro caso não fique satisfeito. Aqui o que lhe aconselho é que, avisado que está desde o início do prefácio, o estime, não o marque nem sublinhe, e ofereça-o a a alguém por quem não nutra qualquer estima ou simpatia (uma raiva ou antipatia de estimação é até desejável), fecha-se um ciclo e a vida segue em frente.

Até lá, sempre que lhe passar pela cabeça ver um reality show para limpar a cabeça e ver que há imensas vidas bem mais vazias e miseráveis que a sua, aproveite e leia antes qualquer merda que o faça sentir basicamente o mesmo, mas com maior poupança energética. Verá que encontrará muito poucos livros nas suas estantes que cumpram tão bem essa função como este.

E será isto, se a vontade persistir e o vento ajudar.

Vulgário Fernandes, Lisboa, 8 de Outubro de 2020