O RAPAZ DOS POEMAS EM PEDRA MÁRMORE

MILES DAVIS | BLUE IN GREEN

O miúdo fazia versos a metro no autocarro, já no metro autocorria atrás dos sentimentos e brincava com as palavras como se elas fossem um carrossel de letras, uma pedra que esculpia a escopro de sonhos em leves pancadas feitas de amores, azares, sortes, saudades e desamores. Saía o que saía, embrulhava tudo em papelinhos de um branco amarelado, tirados suavemente e com cuidado de um caderno que o pai lhe havia deixado, apenas com um poema na primeira página, o único poema de um homem que de poesia nada sentia, um homem que falava em algarismos que organizava no seu arrumado coração que jamais saía do peito fora para ir apanhar ar. Um poema que tinha escrito no dia em que António nascera, logo berrando, logo gritando em versos fora de rima, compreensíveis só por ninguém.

Queria ser músico, queria ser músico aos cinco anos de idade. Bem, aos cinco anos de idade queria ser músico um dia mais tarde, era assim, era mais assim. Apenas foi músico aos cinco anos de idade para não mais voltar a ser, resguardando-se da hercúlea disciplina necessária à aprendizagem de um instrumento, à entrega necessária à leitura das pautas, fugiu de tudo isso para ser apenas um rapaz.


Agora esperava pelo autocarro, Lisboa vazia, máscara na cara, onde tinha desenhado a boca dos Rolling Stones, com a língua de fora, com um “#stayhomestaysafe” desenhado a traço preto, estranhos tempos estes de não ser músico, de não ser nada, ser apenas uma rapaz sem tento na pena, sem soltura na língua, introvertido nas palavras faladas, rei na geometria das palavras, desenhando a sua escrita com a destreza de quem é intimo do corpo de uma guitarra. Só que não, era um escultor de letras, um arquiteto de frases bonitas, um fotógrafo que acariciava os olhos dos que o liam, com imagens de luzes espraiadas pelas sombras, balanceando as cores quentes e as frias com mestria e uma naturalidade própria de quem tem uma voz que nasceu para encantar os outros, só que não tendo. “Escreves imagens, António” – Diziam-lhe muitas vezes. Era-lhe natural, mas percebia que esse dom tinha importância para algumas pessoas, acordava-as de uma existência desperta e despertava-as para os sonhos serpenteantes de comboios mágicos ladeados de verde-neve e de azul-floresta virando tudo ao contrário, suavemente, misturando as cores em belas imagens de campo. Ou isso ou fotografias escritas em molduras urbanas, ruas coloridas de roupa branca perfumada a seguir às vírgulas das esquinas dos bairros de Lisboa.
Só que voz não, de voz não encantava ninguém, apenas porque se escondia no silêncio e, ao contrário de seu pai que apenas existia na voz, e de pena apenas sabia assinar uma firma linda, precisa, elegante e sempre igualmente desenhada sobre qualquer superfície ou sob qualquer circunstância, nada mais do que isso, palavras só faladas, brincando com tudo e com todos, num medo de se levar a sério, não fossem os outros virem com conversas sérias que não sabia nem queria acompanhar.


António era, neste sentido, órfão de pai poeta, trazido a este mundo pelo pragmatismo em forma de homem e abandonado aos versos por sua conta e risco. Mãe? Sim, com afeto, autoridade, responsabilidade, disciplina. Poesia? Tinha-a, mas sem tempo de sobra para dar, os dias eram vividos por dois ou três, sofridos por dois ou três, restava-lhe um fio de descanso que guardava merecido para si, ao final de cada dia, que era onde caberia a poesia que não houve, não porque não morasse nela, mas porque não restavam forças para a passar de mão para mão, de mão para filho.


O caderno, esse, tinha sobrevivido a tudo isto. Fora em tempos de páginas de um branco luminoso, ganhara mundo numa viagem solitária pelos passos miúdos de António, deixando pegadas de um amarelo de desigualdades cromáticas, como a pedra mármore da bancada da cozinha de avó Rosa, em nuvens sempre de cara lavada, cheirando a alfazema.


Escondido atrás de uma máscara de verdade, António escrevia canções que sonhava poderem ser cantadas um dia por um qualquer cantor talentoso, capaz de dar música às fotografias que escrevia, como no cinema, cantadas por um artista de verdade que juntasse uma violas e uma guitarra, uma voz de bagaço, um contrabaixo, um piano e um trompete, com bateria ao fundo, um pano ao fundo, no fundo isso, tão simples e a bastar assim.