O TEMPO QUE SE MEDE NA PALMA DA MÃO DE UMA CANÇÃO

KENNY ROGERS & SHEENA EASTON | WE’VE GOT TONIGHT

E agora quem canta isto? Quem garante que os slows vão continuar a existir com letras simples, como simples é o fenómeno de um se apaixonar à sombra do som de uma música qualquer projectada na pista de dança de uma boate da cidade ou no quarto desarrumado de um adolescente. Um dia, tudo foi um dia. Aos 81 anos deve ser assim, há todo um universo de coisas cheias de jóias que foram todas “um dia”.´



Um dia destes alguém pede em namoro alguém ao som desta música, isso é certo, como é certo que esta seja a música que abre a pista do casamento entre essas duas almas, um dia isso acontecerá e só não estaremos mais perto porque é difícil apaixonar-nos nos dias que correm: ou porque um dia ganhámos uma imunidade de grupo a essa capacidade de entrega sem reservas, ou porque estamos fechados em casa fugindo de uma doença qualquer, atrasando a imunidade de grupo porque não há quem acuda tanto coração ao mesmo tempo.

Um dia foi assim, os músicos tocavam ao vivo exactamente aquilo que prometiam em disco, sem concessões, sem medos, porque cantavam muito, tinham todo o tempo do mundo para ensaiar antes de os querem entrevistar, porque a fama vinha um dia mais tarde, e não vinha nem de avião, nem de youtube, a fama não era um vírus de propagação rápida, não era viral nem bacteriológica, era apenas um talento de um um comboio a vapor, que atravessava fronteiras quando era difícil atravessar fronteiras.

Um dia as fronteiras atravessavam-se através de poucos programas de rádio, de um pequeno número de discotecas que importavam discos para uns poucos de eternamente insatisfeitos que procuravam mais música que lhe preenchesse as prateleiras da alma, de um pequeno número de editoras feitas de pessoas que uma vez por outra iam a Paris, a Londres e a Nova Iorque, para depois mandarem para as rádios esses discos. E depois veio a televisão, primeiro revelada a preto e branco, depois em technicolor.

E as baladas, um dia haviam as baladas, de letras simples, como simples dever ser o gostara de alguém, sabemos hoje, como sabemos, com o passar dos anos que temos este incrível poder de complicar tudo o que se atravessa à frente dos olhos, por mais simples que seja.

E agora quem é que vai cantar isto assim com a Sheena Easton? Eu sei quem não vai de certeza: alguém! Ninguém vai cantar isto assim, como se fosse fácil, como um casal apaixonado.

Um dia eu era pequeno, tão pequeno como me sinto hoje, e esta música tocou num gira-discos que era também uma mala, de coluna na tampa, e eu juro que me apaixonei. Só não me lembro, o que é pena porque deve ter sido muito bonito. Certo é que ela era mais alta que eu, elas eram sempre mais altas que eu. Bem, eu é que era sempre mais pequeno que elas, se calhar está mais bem dito desta forma. Pouco interessa, como se veio a comprovar pela vida fora.

Hoje encolhi mais um pouco, fiquei mais pequeno, semicerrei os olhos e lá estavam a “pirilampear” as luzes da bola de espelhos, o Jardim Cinema na Estrela, no bairro que era longe do meu bairro, no bairro que é hoje “o meu bairro”. E lá estava ela, cheia de luzes, como se a bola só a iluminásse a ela. Eram assim as bolas de espelhos, só brilhavam sobre os amores de cada um, era como se as luzes se apagassem para todas as outras raparigas, como num filme do Travolta, e ainda hoje as bolas de espelho são assim.

E agora é tudo assim, não há filmes do Travolta sem Sheena Easton. A Sheena Easton era linda, era tudo o que queríamos que nos acontecesse um dia, até ao dia em que aquelas meias à “Fame” deixaram de se usar, talvez logo a seguir ao “Flashdance”. A boa notícia é que essas meias voltaram, a má notícia é que o Kenny Rogers morreu. E eu que nem tinha este tema na minha playlist “Oldies & Goldies”?

Fui resolver esse problema, pouco ou nada mais há a fazer. Isso e ouvir este tema doze vezes e pensar que em “ontem” cabe tanto tempo que o “tempo” é tão só uma criação da nossa existência, porque precisamos de medir tudo, arranjar escalas para medir tudo, até o tempo, imagine-se.

Parece que só não conseguimos medir os sentimentos, revela-se o grande mistério das nossas vidas, sabemos apenas medir batidas do coração por minuto, mas tal serve para medir de certa forma a paixão, de pouco nos serve para medir o amor, pois é no amor que o coração começa a bater mais devagar, é no amor que nos sentimos perdidos, sem pontos de referência para medir, ficamos assustados. Devemos ter medo que o coração deixe de bater e fugimos antes que seja tarde de demais, queremos viver dentro de um teledisco e partimos para outra, para um outro pedaço de tempo em que o coração nos bata mais depressa, repetindo tudo outra e outra vez, sem perceber que o coração bate mais devagar porque a música muda, porque a vida, que tem vida própria, precisa de se fazer balada. Só se morre de amor nas canções ou na velhice. E nós não nos deixamos morrer de morte natural. Tantas e tantas vezes nós simplesmente não deixamos.