O TEU NOME NUM FIO DE VOZ

ALEX CAMERON | MIAMI MEMORY (DEMO)

Foi num fraco fio de voz que ouviste chamar por ti.

Paraste e não te voltaste para trás por um tempo que pareceu o necessário para que a história das vossas vidas fosse contada numa longa metragem para cinema, numa duração nunca inferior a um “Tudo o Vento Levou”.

A voz dela… que era apenas nesse momento um resto do que havia sido um dia, ancorada num peso fundeado em notas de uma dor que se instalou para ficar.

Os teus olhos encheram-se de água naquilo que por muito que parecesse uma eternidade, sabias que tinham sido dois segundos. É impossível aceitares que tanta coisa te passe pela cabeça em meia dúzia de segundos.

Se dois segundos foram o tempo necessário lhe teres reconhecido a voz, passados uns quinze anos de nunca mais se terem visto , encontrado ou saberes dela nem sequer por um amigo seu… os outros quatro segundos foi o que tardaste em perceber que ias encontrar uns olhos sem vida, quando te voltasses. uma mulher derrotada fisicamente. A mulher que achaste um dia a mais bonita de todas. Não, vocês não eram novos, mas também não eram velhos, eram outra coisa pelo meio, algo engraçado que se revelou um fracasso, mais do que um engano.

Seis segundos foi o tempo que ficaste imóvel em plena sala de espera da unidade oncológica daquele branco frio hospital, o tempo que levaste a juntar peças que julgavas já não ter daquele triste puzzle.

-“Vitória!” – Levaste agora dois segundos para que os teus olhos viajassem e se focassem noutro tempo, o  do cabelo esticado, depois enrolado como usava às vezes, nuns rolos discretos que lhe conferiam o movimento que tinha na expressão que imprimia em cada uma das animadas conversas.
Vitória, de lábios bem desenhados, uma pele que te conquistou num amor ao primeiro toque, para viveres o resto do teu tempo a achar que afinal tudo tinha sido uma redonda mentira que a vida te tinha pregado só para te ensinar uma parte da tua existência, talvez da dela também (só ela saberá), achando tu que jamais algum de vocês merecia ter cumprido esse propósito e que a vida deveria ter arranjado um caralho de outro método que servisse melhor os três.
E viste nela os seus olhos vivos e expressivos, que riam, acreditavam, desconfiavam, entristeciam e jamais escondiam as portas abertas da sua alma. Pelo menos tanto quanto ela as sabia abrir. Não era muito, é certo, ficaram mistérios que não queria ou não sabia explicar, pouco te importa agora.
Viste nela um corpo firme e atlético, de membros torneados, de passo seguro, irradiando a cor de uma qualquer energia positiva.

-“Olá António…” – e tudo se desfez em cinzas, numa pele sem cor, quase transparente, uma fina camada de pele numa cara inexpressiva que acabava num gorro vazio de cabelo.
Sentiste naquele momento que se piscasses os olhos irias começar a chover ca cara abaixo e controlaste o reflexo. Por ela, não por ti.
Tu precisavas de chover vinte faces inteiras carregadas de água.
Mas não o fizeste. Não. Muito rapidamente abriste um sorriso e dirigiste-te na sua direcção com uma rapidez felina, não de quem vai amparar a queda da derrota de uma Vitória, antes de quem vai matar as muitas saudades que tens de alguém que foi em tempos muito importante para ti, que te marcou, e que por uma qualquer estúpida razão esfumou-se numa cidade-penico, mas cheia de becos e recantos.
Foi só deixar sair toda a verdade de ti para que tal acontecesse, não podias ter sido mais honesto, nunca se cai da verdade abaixo. Deste-lhe um beijo longo na fria face do medo, do dela, e do teu que acabara de se acomodar em ti.

Deste-lhe a mão e sentaste-te ao lado dela, de olhar perdido que trespassou a janela que tinham em frente e pousaste as vossas mão no teu colo.
Vitória, também ela vazia de palavras, pousou a sua cabeça no teu obro e apertou-te a mão. Maldissestes-te por não teres ido atrás dela há quinze anos atrás, quando o amor era muito e a vontade, essa, ainda se contrariava por receios e orgulhos, dois péssimos conselheiros.
O seu corpo, peso que a sua cabeça carregava no teu ombro, era assustador de leve, parecia que se estava a fazer a um voo. Estaria?
Não. Não podia. Sem qualquer expressão que mostrasse senão tranquilidade e carinho, exerceste uma bruta força interior para encontrar uma solução, como sempre fizeste ao longo da vida, com raras excepções em que precisavas que fizessem isso por ti, mas ninguém batia à tua porta para isso, e os que estavam cobravam-te a forma de sofrer as coisas. Mas nada, não vislumbravas nada mais a fazer que estar ali.

– “Precias que te vá buscar alguma coisa para comer? Água?” – foi o que te saiu quando já havia passado quase meia hora, como nos tempos que ficavam no ombro um do outro sem precisar de palavras para se sentirem seguros.

– “Não, não posso comer agora senão depois fico mal disposta. Mas tenho uma garrafa de água na minha carteira. Dás-me?” – E com a mão contrária ao meu ombro puxou com destreza e precisão a carteira e pousou-a no meu colo.

– “Claro que sim” – Vitória deve ter dado dois pequenos golos de água, até a água a poderia fazer sentir mal depois de uma sessão de quimioterapia.
Veio uma enfermeira muito simpática ter com ela, sorriram ambas uma para a outra com a intimidade que percebeste que já se tinham visto muitas vezes. Vezes demais. Muito provavelmente já tinham falado muito e sabiam histórias das vidas da outra. Isso de certa forma, estupidamente ou não, tranquilizou-te.
Vitória preparava-se para te dar um beijo de despedida mas tu adiantaste-te:

– “Importas-te que espere aqui? tens quem te leve a casa? Posso levar-te a casa se precisares” – E arrependeste-te de quase tudo o que disseste por temeres a resposta, não querias deparar-te com detalhes, com informação de que não precisavas. No fundo apenas precisavas de sentir o carinho que tinhas ainda por ela, era a única coisa que te fazia falta, mas esse desejo podia dar-te um empurrão que não querias sem para isso te teres preparado. Mas… agora já estava.

– “Não, não tenho, costumo ir de Táxi. Sim, gostava, mas… isto demora talvez uma hora,.. não sei… o que achas?

– “Não faz mal, não te preocupes, sou bom a queimar tempo, tenho aqui um livro na mochila, uns auscultadores, tenho muito que fazer. Tenho todo o gosto em levar-te a casa”

Vitória desapareceu entre umas portas de vidro, num passo fraco, de braço dado com a enfermeira que lhe disse uma piadinha qualquer ao ouvido imediatamente antes de entrarem a porta. Ainda ouvi o riso dela, mas não ouvi nada de Vitória.

Sentaste-te na cadeira onde estavas e ficaste uns dez minutos a olhar os telhados da cidade a desfazerem-se num céu azul acinzentado.
Puseste os auscultadores e no telefone escolheste o tema “Miami Memory” do Alex Cameron. A versão “demo”, que sempre havias gostado mais do que o que acabou por ser editado no disco e que tinha um videoclip que sempre achaste de realizador de cinema. E era. Mas o ritmo desta versão agradava-te mais. E choraste então. Coraste por tanta coisa que nem dedos tinhas para as contar, mas eram todas razões de verdade e de coração. Pensaste em partir cedo e chegar tarde, em perder todo o tempo do mundo. Pensaste que não és dono e senhor dos acontecimentos e que são necessárias duas pessoas para fazer acontecer algo que não suceda apenas a uma delas. Choraste por muita coisa, em silêncio e descrição, principalmente choraste por nada em especial e por tanta coisa em concreto.

Foi quando viste uma criança a correr para se fazer deslizar pelo chão polido do hospital que deixaste cair ao chão a primeira de todas as poucas lágrimas que li deixaste.