OS CAMINHOS DE JOE E DANNY

VINCE GUARALDI TRIO | LIKE A MIGHTY ROSE

Enquanto fumava um longo charuto, que lhe havia sido oferecido pelo xerife da última terra por onde tinha passado há já quase uma semana, altura em que se fez aos caminhos dos desfiladeiros, mas só depois de ter salvo a vida ao xerife e a dois dos seus subalternos, encantava-se com o luar e as estrelas que pintavam o céu no manto de escuridão que emanava da terra, deixando o firmamento a nu.

Também ele, homem de cara marcada e barba de ferro, precisava de se vislumbrar com a simplicidade da existência do universo. E era nesse plano infinito, numa bola de tons de azul, branco e verde, que ele era castigado por um lado e abençoado por outro.

Homem simples, mas de palavras redondas e conversa ágil, fazia as delícias de um mulherio semeado por terras e condados que davam sempre pela sua chegada com sorrisos, bem como pela sua partida, quase sempre, de lágrimas nos olhos. O tempo era sempre pouco para elas, sempre suficiente para ele, era sempre hora de ir embora. “Parar é morrer” era mais do que uma expressão na imensidão daquele país sem princípio, meio e fim, e Joe Markie sabia que sempre que um homem assentava bagagem era uma questão de contar os dias até vir a bala que lha acabava com as possibilidades e caminhos. E o que ele gostava era dos caminhos, não propriamente dos destinos.

Mas não se pense que Joe Markie apenas deixava saudades irreparáveis nos corações das mulheres que amava como se fosse a última vez, a sua vida nesse plano era mais feita de últimas vezes do que de várias.E se havia carga que Joe carregava juntamente com Denny, o seu cavalo, eram as saudades de cada uma das mulheres que conhecera e que, lá à sua forma, amara ou amava ainda, pelo que a inveja que lhe pudessem ter e atirar à cara era coisa que não só não achava graça, como até saía de cena para poupar os nós dos dedos na cara de quem não lhe merecia o esforço. Por outro lado, sabia-o, um dos segredos da sobrevivência era a descrição, que até em momentos críticos de vida ou de morte servia de elemento surpresa para um homem que sabia manejar os punhos, as pernas e um revólver, tudo ao mesmo, quando necessário.

O charuto deve ter-lhe durado umas trinta estrelas cadentes, numa quente noite sem vento onde apenas um mocho os acompanhava, a ele e a Denny. Denny era, sem qualquer dúvida, o seu melhor amigo e muitas vezes dava consigo a pensar se haveria de continuar a percorrer o mundo, até aos limites onde a terra acaba em água, sem Denny, ou se pelo contrário, assentaria, construiria uma família, tentando não se atravessar no caminho de uma bala imaginária saída de uma rixa menor, uma bala perdida, ou até mesmo destinada a atingir a sua cabeça só porque sim.
A verdade é que não colocava a hipótese de construir uma relação de confiança, respeito e amizade incondicional com outro cavalo como havia feito com Denny. Não, isso não iria acontecer, o que impedia Joe de se imaginar a partilhar os perigos e as maravilhas dos caminhos que partilhava há décadas com um amigo, como o fazia com Denny.

Deu uma longa baforada no charuto e susteve o fumo na boca, rodando-o pela boca para lhe sentir todas as notas no palato, libertando-o então lentamente pelo firmamento enquanto assistiu à queda de mais uma estrela. Pensou que aquilo a que chamava “pequenos prazeres da vida” eram, muitas vezes e na verdade, os verdadeiros e indispensáveis prazeres da vida. O vento não se sentia no vale dos coiotes que batiam o terreno a dar conta da vida dos animais que se deixavam dormir sobre o luar de uma noite tranquila. Será que uivavam para chamarem a família para a mesa?

Joe, conhecido por ser homem discreto, de poucas palavras, e não desperdiçar uma única bala, quando disparava era por uma boa razão e ganhava sempre a razão, já que conflito e morte não tinha um espaço na sua emoção, sabia estar no fim de uma linha de vida errante.
Sabia-se, e talvez só ele e meia dúzia de mulheres das centenas que lhe haviam caído nos braços, que era um homem que se havia entregue desde sempre ao amor com dedicação e admiração. Joe sabia-se um homem que alimentava a sua alma de afectos (por muito que centenas de mulheres pudessem jurar o contrário apenas porque foram escolhidas apenas por horas ou dias) e a sua alma não se alimentava dos corpos de homens feios e maus que tinha feito tombar de cima das pernas para uma cova de terra abaixo do nível da vida e do pasto.

Perguntava-se então o que restaria do seu coração para sobre ele erguer uma nova vida, se sentia que o tinha deixado para trás, pouco a pouco, nas mãos de meia dúzia de grandes mulheres. Seria o coração um recurso natural sem fim? Seria um orgão que se regenerava? A verdade é que o sentia cheio, o que por um lado faria com que se morresse ali debaixo do abrigo daquela árvore partiria com um sorriso nos lábios, mas por outro, receava que a vida que tinha pela frente, fintadas as balas que se quisessem atravessar no seu caminho, tivesse que ser vivida sem espaço dentro de si para mais amores, tendo-se esgotado na idade de todas as capacidades, não se tendo guardado para a fase onde começa a escassez disto e daquilo. Talvez fosse escasso o espaço que lhe restava no peito destinado a preencher com nobres sentimentos de afectos recíprocos de amor. Era nestas dúvidas que invejava Denny por ser tão mais simples e tão mais bem resolvido.
Puxou a aba do chapéu para baixo para que estrelas não o distraíssem do sono.