OS PUTOS DO PÁTIO

NADIA REID | OH CANADA

Já não há crianças a brincar nas ruas da Lisboa dos bairros sem estendais a chorar das janelas abaixo.
As janelas que não secam roupa têm os olhos fechados para que os ecrãs dos tablets não sejam incomodados com a luz da cidade e por trás de cada tablet há meia criança que nada teme quando entre quatro paredes.

Debaixo de cada estendal dos bairros dos postais correm-se riscos, joga-se a sorte de escapar a um pingo de lixívia, as crianças partem a cabeça e vão para o hospital pelo seu pé e sabem que com uma cicatriz vem sempre uma estória ou cinco para contar.

Já não se chora no meu bairro porque não há uma criança que traga as lágrimas para a rua. “so tipical” o bairro que visito ao Domingo onde as crianças não choram em pó com vergonha das lágrimas que lhes secaram por dentro. Um sorriso dobra a esquina pelos pés de um irlandês que pensa que Portugal ainda é isto. E é, mas nos postais que se estendem nas margens dos passeios da Graça, com a graça de quem vê Lisboa do Cristo Rei.

Há duas Lisboas, assim como as Barcelonas, as Berlim e todas as suas outras amigas da vida airada: uma que se vê do tuc tuc e outra que é pintada a acrilico na Primavera, que transpira em rio no Verão, nos estende o tapete no Outono e nos lava a cara no Inverno para que comece tudo outra vez do principio.

O irlandês junta-se a nós e um puto põe-lhe uma bola nos pés e chama-lhe Ronaldo num grito gargalhado, riem-se os dois, rimo-nos todos com a universalidade do momento, e depois cada um dá o que pode e as apostas pagam-se em copos de vinho, sem desculpas de vencedores nem lamentos de vencidos.

O puto dá um penalty no copo de tinto de um amigo do avô que mobila a esplanada e um biqueiro estratosférico na bola que na volta há-de cair sabe-se lá onde e sobre que cabeça, e até lá não nos doa a mesma.