OUVIR ANTES DO METEORITO

BACH | CAMERATA RCO; STRING TRIO | GOLDBERG VARIATIONS | BWV 988: VARIATIO I

Há obras tão grandes que não têm fim, começam no seu génio criador, tornam-se tão maiores que ele e jamais encontram um fim. São raras, muito raras. Além de ofereceram ao seu criador a eternidade em forma de reconhecimento artístico, dão-lhe também uma continuidade prática e não apenas teórica por tempo indeterminado, para não dizer eterno porque como podemos descartar a hipótese de um meteorito desfazer a terra em areia?

Nunca nenhum de nós ouviu Bach, não sabemos como tocava no seu cravo, se era um tecnicista exímio, ou se pelo contrário não era grande intérprete, sendo apenas um compositor que escrevia música de olhos fechados e com uma estrutura de composição que nunca ninguém tinha explorado, escrita numa trama matemática que revelava um conhecimento grande nesta matéria, bem como um raciocínio de lógica próprio de um matemático. Por outro lado podemos colocar a hipótese de a sua obra escrita na composição de centenas de obras, obedecia mais à geometria que o fazia desenhar padrões.

Em ambas as hipóteses está um sentido estético absolutamente fora de série fazendo de Bach um dos maiores estetas da historia da humanidade, neste caso aplicado à música, um homem obstinado e compulsivo, perfeccionista e melódico também como poucos houve em qualquer disciplina do conhecimento.

É de tal forma que há um enorme número de pessoas que não gostam de música clássica mas gostas de Bach. Bem, é difícil de compreender dado que a obra de Bach tem muitas formas de expressão: música sacra cantada, coros, música tocada para orgão (de igreja, não haviam outros), obras tocadas para cravo (não havia ainda o piano), música de câmara, obras para orquestra, concertos sinfonias e suites orquestrais.

Geralmente as pessoas que dizem apenas gostar de Bach e não de outros grandes compositores da música clássica têm como referência a música para orgão e a música para piano, não cantada e, especialmente, tocada já em piano por grandes intérpretes como: Glenn Gould, Rosalyn Tureck, Daniel Barenboim, András Schiff e mais um ou outro. As “Goldberg Variations” são a obra mais ouvida por todos certamente, seguindo-se eventualmente de “The Well Tempered Clavier” que quase todos os grandes talentos que em cima enumero interpretaram e registaram em magníficas gravações. Já agora, para quem, como eu, não resiste às “Goldberg Variations” é interessante saber que até o grande pianista de jazz Keith Jarrett gravou com a editora ECM, em 1989, uma interpretação das Goldberg Variations em cravo e que é, claro, genial como é genial Keith Jarrett. Também em cravo sugiro que oiçam a interpretação das “Goldberg Variations” de Gustav Leonhardt.

Um grande amigo disse-me um dia que lhe fazia uma tremenda confusão que tanto disco fosse editado a partir de umas única obra de um grande compositor, e deu Beethoven como exemplo “Quando ainda por cima na música clássica não se pode mexer em nada, na obra do mestre, é seguir a pauta e qualquer outra coisa é uma heresia”. Recordei-o que o meu conhecimento na música clássica tem apenas cerca de 15 anos, sendo que oitenta por cento da minha cultura na música clássica é edificada na segundo metade desses 15 anos, mas que se ele quisesse íamos beber um copo de vinho com um amigo meu que lhe explicaria tudo isso e mais o que fosse necessário. “Deixa-te lá de merdas e explica-me como sabes, vá…” – e disse-o à bruta mas claramente bem disposto.
Expliquei-lhe que embora de facto fosse quase exactamente assim que as coisas ainda se passavam, mesmo nestes grandes mestres que mencionei em cima, ao tocarem as “Goldberg Variations”, seguindo a pauta com rigor, há sempre a forma como “atacam” as teclas do piano, não há como esconder um cunho pessoal porque aquilo está a acontecer, não é uma gravação – “As variações de Bach tocadas por Glenn Gould são invariavelmente mais redondas e fluentes, quando te sentas tranquilamente no sofá a ouvir o disco e lhe dás toda a tua atenção, do que as tocadas por Rosalyn Tureck que te remetem para um diamante em bruto. O András Schiff fica no meio dos dois, é um exímio instrumentista ao piano, é um tecnicista perfeito. De qual eu gosto mais? Pois não prescindia de nenhuma, acredita, preciso delas todas.” – Riu-se e deu-me uma palmada nas costas enquanto me dizia – “Tens um ouvido de ouro, tomara eu que gosto tanto de música, mas tu….”

O engraçado é que eu não sei tocar um único instrumento, acho as pautas lindas mas não entendo absolutamente nada do que lá está escrito, pelo que olho para elas como quem olha para desenhos espetacularmente bem feitos, uns mais do que outros, claro. Não saber música é a maior frustração da minha vida que claramente compensei com “ouvir música”, porque música adoro, e preciso de todos os géneros de música (salvo algumas excepções) para ser feliz.

Para os que gostam de música clássica mas só (daquele) Bach, e para todos os outros, deixo aqui o Variatio I das Variações de Goldberg para trio de cordas, tocadas por membros da Camerata RCO, um Ensemble da “Royal Concertgebouw Orchestra de Amsterdão”, vinil que roda no meu gira-discos amiúde. É um disco absolutamente genial por oferecer uma beleza aos nossos sentidos. É ouvir, por favor, enquanto não levamos com o meteorito e somos levados para lado algum no big bang de areia.