A HISTÓRIA DE UM BAIRRO EM LUGAR ALGUM

THE SLOW SHOW | MOUNTBATTEN

Agora que vivo uma história dentro de uma história, meu amor, tenho que dizer-te que o tempo passou de tal forma pela mulher que sou que a mais pequena de duas histórias  se tornou, ela própria, na maior das duas, como o conteúdo se torna o contentor.

É hoje tarde demais para que tudo volte aos lugares onde se arrumavam a minha vida e todas as leis que a regiam, a mim e à minha existência, que desde sempre foram duas coisas completamente diferentes.

Sabe que compreendo todas as tuas lágrimas, meu amor, bem como tu aceitas as minhas. Sabe também que se me encontro espantada pela forma como uma pequena história que cabia dentro de outra, num rápido passar de pouco tempo, trocou de lugar em mim. Também sei que tu quando olhas para trás, vês que o muro que nos separa está apenas a meio braço de distância dos teus olhos, mas que ainda assim não o consegue alcançar. E apenas porque é tarde demais. Imaginar a tua frustração pouco serve o teu sofrimento, sei bem, bem como tu sabes que para mim acontece uma libertação que não lamento do fundo da minha vontade, mentiria se o dissesse assim.

Aqui não há contrários, porque o contrário de altruísmo não é o egoísmo, é tão só e apenas o desencontro das nossas vontades mais profundas.

Sim, chorar choramos os dois, porque em nós vive um altruísmo que sangra à passagem do sofrimento do outro e que guardamos no peito, bem no espaço de tolerância e compreensão por tudo o que nos é diferente, mas nunca indiferente, assim é o respeito que há entre nós.

Sim, sei que choramos os dois, mas que um de nós se parte por dentro para que o outro se liberte, e eu sei que sou a mulher que se liberta e tu o homem que se parte para que eu me possa acontecer desta forma. Isso não faz de mim egoísta, pois se há muitas e tantas coisas que desconheces em mim, o fundo cristalino do meu coração não é certamente uma delas, isso é coisa que sempre soubemos ver no outro sem dúvidas nem reservas.
Nada disto faz de mim egoísta, mas certamente faz de ti altruísta, como poucos o conseguem ou sabem ser.

Obrigado por deixares que me liberte levando apenas as minhas dores, sem dúvida menores que as tuas, aliviando-me a carga das mil e muitas espectativas que, ao contribuir eu também para que crescessem e ganhassem vida, nunca foram verdadeiramente minhas, sei-o hoje.

Pois que Deus te guarde e mais te acompanhe num desgosto que rapidamente se tornará esperança. Obrigado e desculpa que te encoste eu entre as tuas vontades: a de nos querer a ambos.

RATSO’S POEM

RATSO | OUR LADY OF LIGHT (FET. NICK CAVE)

Mas quem raio é Larry Sloman, que descubro “Ratso”, um velho biscateiro novinho em folha? “Ratso”…assim baptizado, por Joan Baez, imagine-se, um escritor reconhecido num restrito círculo de músicos, muito conhecido num restrito grupo, que será o mesmo que dizer “muito conhecido lá na rua dele”. Bem, mas que raio de rua é a de Larry?!
Ratso escreveu letras ali e acolá, fez covers de Bob Dylan numa digressão dos Rolling Stones, na sombra, mas sempre ali. Imagino um Ratso a fintar Bowies, Dylans e Keith Richards em clubes nocturnos de Brooklyn, com muito fumo no ar, desviando-se, mas simpático, todos eles o cumprimentam e lhe reconhecem um carisma que talvez Ratso nunca tenha encontrado no espelho do seu quarto, preservando-se de certa forma, mas fazendo o que gosta, assim, sem concessões, quando lhe apetece, escrevendo sobre músicos, aparecendo em cantos de telas de Martin Scorsese, cruzando-se com Mike Tyson, fazendo rádio com Howard Stern, escrevendo com e sobre dois mágicos, eu sei lá mais que mais e de quantos menos se tem feito a vida deste homem.

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O TEMPO QUE SE MEDE NA PALMA DA MÃO DE UMA CANÇÃO

KENNY ROGERS & SHEENA EASTON | WE’VE GOT TONIGHT

E agora quem canta isto? Quem garante que os slows vão continuar a existir com letras simples, como simples é o fenómeno de um se apaixonar à sombra do som de uma música qualquer projectada na pista de dança de uma boate da cidade ou no quarto desarrumado de um adolescente. Um dia, tudo foi um dia. Aos 81 anos deve ser assim, há todo um universo de coisas cheias de jóias que foram todas “um dia”.´

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LIFE ON MARS

CHATHAM COUNTY LINE | STRANGE FASCINATION (FEAT. SHARON VAN ETTEN)

O tudo era um fio de sentimento, gostaria de arrancar dele algo maior, algo mais substancial, tornar fio em corda, em cabo para usar a linguagem de marinheiro, mas o vento soprava noutro sentido. O vento aqui sopra sempre de Norte, está visto, e não é no Sul, pelos vistos, que reside o coração, deve andar a falar espanhol ou a balear no fundo atlântico da água que nos separa de Oeste. Paciência, insuportável seria viver sem poesia, sem música, sem imagens e pincéis, sem filmes nem vinho a copo.

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O RAPAZ DOS POEMAS EM PEDRA MÁRMORE

MILES DAVIS | BLUE IN GREEN

O miúdo fazia versos a metro no autocarro, já no metro autocorria atrás dos sentimentos e brincava com as palavras como se elas fossem um carrossel de letras, uma pedra que esculpia a escopro de sonhos em leves pancadas feitas de amores, azares, sortes, saudades e desamores. Saía o que saía, embrulhava tudo em papelinhos de um branco amarelado, tirados suavemente e com cuidado de um caderno que o pai lhe havia deixado, apenas com um poema na primeira página, o único poema de um homem que de poesia nada sentia, um homem que falava em algarismos que organizava no seu arrumado coração que jamais saía do peito fora para ir apanhar ar. Um poema que tinha escrito no dia em que António nascera, logo berrando, logo gritando em versos fora de rima, compreensíveis só por ninguém.

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QUANDO PROCURO OS MEUS ÓCULOS DE VER AO PERTO, SÓ ESPERO QUE ESTEJAM LONGE

SCOTT MATTHEW | THE WISH (OFFICIAL VIDEO)

O assunto é sério, importante, urgente. Bolas, há pressão maior para colocar em cima da mesa? Sério, importante e urgente é como uma ponte de sentido único que se vai desfazendo à tua passagem, perseguindo velozmente os teus passos rápidos em fuga, à medida que vês apenas um nevoeiro que engole a ponte, bem na frente dos teus olhos, numa boca de ponto de fuga. Ficas então entregue à esperança, à sorte de que a ponte pouse o seu fim e o seu propósito em chão firme, que podes esperar mais senão isso?

Viver tranquilo na incerteza parece ser uma faculdade de muito poucos, ou uma certa angústia, se pensares que te encontras tão só, amiúde, no vislumbre de abismos e muros intransponíveis, pelas razões justificadas de tantos e de todos e mais alguns, apenas olhados como banais obstáculos do alto do optimismo por aqueles capazes de sonhar com mais força, aquela força desmedida e desbloqueadora dos cadeados da vida das pessoas que teima mque tem que haver uma chave para tudo. Mas sim, é preciso já ter aprendido a morrer e a viver novamente, sem para isso precisar de ressuscitar, morrer e nascer de morte e nascimento natural. É cena que dói, que faz ferida, que sangra, que traz ar, liberdade, uma sensação real de libertação inigualável. Sem tudo isto não há sonhador que resista. Tu sabes como é difícil resistir às forças que remam contra a sua corrente, não sabes? Sai caro o ar puro dos que sonham e o sol, esse, queima muito os olhos dos que, mesmo que fraquejando aqui e ali no desejável aparente conforto do seu contrário, vêm ao longe o que está para vir e o que tem que acontecer para que venha de lá o inevitável em forma de quente abraço.


É o crepúsculo, sabes? É no crepúsculo que a luz desvenda a magia do incerto, em que as cores tomam tons meio mágicos que revelam coisas, mas é nele que o sol está baixo, olhando-te olhos nos olhos, num fogo posto muitas vezes violento quando olhado a sós.Mas que remédio? Não seguirias outro caminho se nascesses agora novamente, resigna-te ao óbvio e segue o caminho que escreveste para ti. No fundo, humildemente, tu sabes que jamais foste o escolhido, apenas escolheste, tão só isso, portanto…
O momento é decisivo, sério, importante, urgente, e estão todos cientes disso, todos deviam estar no sítio marcado à hora acertada. O Conselho de Estado era isso mesmo: o compromisso de um se mobilizar para o sítio certo à hora marcada, sem falhas, sem excepções. E assim era há décadas. Miles Davis e Bach foram os primeiros a chegar, cinco minutos antes da hora, tal como previsível, obsessivamente compulsivos com a pontualidade exerciam a sua desordem noutros planos, mas nunca no exercício da arte de criar fórmulas e soluções. Sim, tinham dimensões onde deixavam reinar o caos, onde arranjavam um problema para cada solução, mas não na arte da criação, isso nunca. O caos que arranjavam, sabias bem, eram no fundo quebra cabeças que encontravam para se auto motivarem – uma cabeça tem que ser estimulada como se de um músculo se tratasse.
Jim Morrison, Beethoven, Bill Evans e Shane Macgowen aproximam-se em passo apressado e percebes que antecipam ideias sobre alguns pontos da agenda da reunião, mas logo mudam de assunto quando percebem que dada a proximidade já se fazem ouvir pelos demais. Afinal é regra do Conselho de Estado que não se inicia qualquer pensamento, ideia ou partilha de pontos de vista antes de a sessão ter o seu início formal. 


As formalidades do Conselho existem não por motivos de rituais cerimoniais ou tradições de iniciação – não – são apenas o garante de uma certa disciplina necessária para que o motor e fio condutor do que traz os membros ao Conselho atinja toda a sua potência logo nos primeiros minutos da reunião do Conselho de Estado.


Os recém chegados cumprimentam os presentes e é Miles Davis que muda de assunto, com a habilidade que lhe é característica, perguntando por Leonard Cohen, Nick Cave e David McComb, deixando de fora John Coltrane. Todos reparam nisso, claro, mas ninguém estranha, pois Miles jamais se desprendeu da opinião de que John Coltrane, infelizmente para a genialidade universal, não é de fiar no que à disciplina diz respeito. Bem, na verdade, é compreensível a opinião formada por Miles Davis sobre John Coltrane, mas também é igualmente certo de que nunca Coltrane tinha chegado verdadeiramente atrasado a uma reunião do Conselho sendo sempre de uma pontualidade exemplar, mas pronto, lá para Miles, ser pontual é chegar cinco ou quinze minutos antes da hora e portar-se como uma alma ausente para não perturbar a harmonia de quem aguarda a hora certa. Tu, bem… tu sabes que Miles Davis, no fundo, anda meio amargo porque já há muito tempo que vem insistindo, em recomendações formais como mandam as regras, para que sejam incluídos no Conselho de Estado uns três artistas que já haviam partido da sua existência física e material, chegando mesmo a ser bastante azedo quando toca no nome de Mozart, assim como, por outro lado, e no plano dos génios em vida, vem vindo a insistir na ideia de que o Conselho precisa urgentemente de sangue novo, sob pena de começar a ficar comprometida a capacidade de sonhar, criar, e mesmo do Conselho perder o campo de visão de trezentos e sessenta graus que o caracteriza e que faz com que, chegado a consenso tal conclave que elege um Papa, sempre acabe em unanimidade e jamais falhando nas suas previsões, seja lá necessário o tempo que for necessário.


Shane Macgowen e Nick Cave são os únicos que podem trazer esse conhecimento, tu sabe-lo bem, Miles Davis sabe-o também e reconhecem-lhes a ambos a razão da ali estarem (Shane tinha sido aliás proposto por Miles). Sabem portanto os dois que a capacidade de ver mais longe bem como a extrema e rara sensibilidade e iluminação do génio que caracterizava todo e qualquer membro de tão restrito grupo, não se havia esgotado em Shane e Nick, há novos raros génios depois destes que é necessário trazer para o Conselho. A única diferença entre ti e Miles é que Miles é mais irrequieto que tu e tú és mais ponderado. E… bem… afinal de contas és tu que no fim do dia respondes por toda e qualquer escolha e decisão do Conselho (não te invejo, sabes?), mas não é das respostas que cuidas, é das perguntas, o segredo está nas perguntas, assim se façam as perguntas certas e as respostas acabam por surgir naturalmente correctas. Sim, a diferença tremenda destes senhores não está nas respostas que dão, aqui não há lugar para certezas absolutas, a grande diferença está em fazer as perguntas certas para que fluam as soluções.


Coltrane anuncia, anunciando-se também ele próprio, às dez da noite, hora marcada para o início da reunião do Conselho de Estado, e faz o anúncio com três notas de tal forma melódicas e numa sequência perfeita de princípio, meio, fim e profundidade, quando seguidas umas das outras, que parece que deu todo um concerto. Habilidade é talvez a palavra certa para o que acaba de fazer. A ti não te escapa o brilho nos olhos de Miles quando olha e ouve as três notas de John Coltrane, aquele orgulho estampado na cara de um pai que vê o filho a fazer o cesto da vitória para ser coberto de abraços pelos colegas de equipa que o cobrem de abraços no chão. Não contem um sorriso na direcção de Coltrane, que se prontifica a devolvê-lo com respeito e admiração.
Estamos no Solistício do Verão, dez da noite, a noite espraia-se na floresta num manto de estrelas e, como diz Bach ao abrir a sessão: “Bem, se estamos a fazer tudo bem, o que pode correr mal?”