PESADELOS TIRADOS A FERROS

LOST HORIZONS | RECKLESS

Ao princípio apenas havia terror. Acordara todo suado, corpo gelado, a cama parecia as primeiras águas que se sentem num grande e plano areal de uma praia em maré vazia de inverno.

O pesadelo fugira-lhe segundo atrás de segundo, e ele, numa cumplicidade imensa com a memória, corriam atrás do tóxico sonho, para se salvarem um ao outro, era preciso agarrá-lo, resgatá-lo ao inconsciente, trazê-lo ao banco dos réus da consciência e da realidade, para que ambos vissem que o sobressalto de que se fizera aquele acordar se devia a um produto da imaginação, cabra que ainda se rebolava entre o edredão da cama. Claro que não colaborou, a diva da criatividade, nem abriu os olhos, apenas se apresentava sensual e de sorriso carimbado nas faces, numa boca desenhada a caneta de ponta fina, com meia perna torneada fora da cama, deixando António e a sua memória entregues ao esforço hercúleo de recuperar o rabo de fora daquele pesadelo horrível para o submeter ao ridículo da sua existência. Foi quando a memória, como se tivesse lavado as trombas com água fria puxou por um fio, um dos seus mil fios, e sentiu qualquer coisa a puxar. António percebeu e juntou-se a ela tentando perceber o que fazer.

O esforço foi tremendo, António percebeu que a memória, à medida que ia percebendo os contornos do que aí vinha era tentada a recalcar, afrouxando na força com que puxava agora pelos fios que se haviam formando, mas António segurava cada fio em que a memória largava ao fraquejar, e saiu-lhe um grunhido de quem supera todas as suas forças e puxou, puxou com a força que tinha e com uma força que não imaginava ter, mas… não… Não era possível! Simplesmente não era possível!

Apanhado o fio ao pavio que resultou numa explosão onde a escuridão se transformou em luz, ficaram ambos estupefactos, braços caídos, mãos agora vazias e penduradas, derrotadas. Não era possível que afinal tudo não passasse de algo banal, do conhecimento até dos mais incautos que caíam no buraco negro mais fácil, no único buraco da estrada em que passavam todos os dias, à vista de todos. A memória fingiu não perceber o embaraço de António, por muito que lhe apetecesse reclamar a confiança que ele não havia depositado nela, chegou discretamente, fora da vista de António, a fazer um beiço.

António ligou a música e preparava-se para ir tomar banho. Envergonhado, deixou sair num fio de voz um pedido de desculpas a que a memória assentiu com um modesto e quase imperceptível aceno afirmativo, já no seu caminho de regresso ao seu lugar.

António, debaixo do habitual duche de água fria, olhou o espelho contra o qual costumava fazer a barba, perguntando-se como era possível ter sonhado que tinha lido de uma enfiada um livro do Pedro Chagas Freitas.
Pelo menos sabia que da boca da imaginação e da memória nada se iria saber. E, pela parte que a ele lhe tocava, ninguém iria ouvir falar daquele pesadelo. Apenas não iria mais pesado para o túmulo pois seria cremado e aquilo em cinzas não era nada de nada.


Bebeu um Nespresso duplo, havia que por o metabolismo a queimar rapidamente, a vida esperava lá fora como de costume e aquilo tinha sido um incidente, tão só e apenas um incidente.

Quando entrou no elevador para descer para a garagem, ainda olhou o espelho, por dois segundos que lhe pareceram uma parte considerável da manhã, deixando escapar um: “Inconsciente, pá! Vives uma vida sem regras, sacana egoísta!”