POR-SE EM JAZZ A PÉ DE SAMBA

BADEN POWELL | DONA BARATINHA

Há algo em Baden Powell que faz dele, e reclamo para mim o direito de achar isso sem medo de ninguém, um dos melhores do mundo na viola. Sim, a bossanova é umas das melhores invenções no mundo, quando se fala de música, inspira muita pista de dança de beat electrónico, mas Baden Powell ocupa neste território da bossanova, chegando a transcender a bossanova, um espaço inigualável.

Hoje, em conversa telefónica com um amigo que partilha esta doença da música comigo em níveis muito semelhantes (espero partilhar quarto de hospital com ele se um dia isto der em caso de internamento), falávamos de Paco de Lucia, da sua genialidade, de ser sem dúvida o maior, de tocar o “Concierto de Aranjuez” com viola de 20 cordas, e de mesmo quando toca sozinho com uma viola de 6 cordas (que é em quase toda a sua obra) parece que ouvimos 3 violas a tocar ao mesmo tempo. Só que não, são apenas 5 dedos em cada mão de um homem só. Só, quero dizer… não sei se alguém que toca viola daquela forma pode alguma vez sentir-se só. Não devia.

Baden Powel é diferente, mas tal como Paco, coloca uma energia física absolutamente surpreendente nos seus temas mais enérgicos e, sim, somos levados muitas vezes a jurar que há ali mais um violão ou outro a compor a coisa, mas não, o homem enche qualquer palco de qualquer sala do mundo apenas com um violão de seis cordas nas suas mãos. Notem que falo no presente porque estas pessoas não morrem simplesmente e já está – não – estes senhores deixam tal legado que estarão sempre entre nós. Ora é do conhecimento de qualquer um que tenha o a-b-c da ciência (que é não saber practicamente nada sobre ciência) que os que estão entre nós é porque não estão mortos.
Eu posso garantir que quando ponho a tocar um vinil ou um cd no meu sistema de som, tanto o Paco como o Baden estão na minha sala, eu eu não acredito e fantasmas nem nada dessas coisas.

Eu sei que há o criador João Gilberto, a tocar genialmente o violão há o João Gilberto, o Jorge Ben Jor, o Sérgio Dias, o Kiko Loureiro, o Armandinho, mais uns dez que conheço e mais umas dezenas que eu não conheço, bem como certamente umas centenas (de milhares) que ninguém conhece mesmo, mas que existem quase a cada esquina do Brasil, mas depois há o Baden Powell, pronto, sem medos, assim. Está dito.