PORQUE É QUE OS AVIÕES ESCOLHEM O CÉU PARA VOAR

SCOTT MATTHEW – I WANNA DANCE WITH SOMEBODY

Escreve-se em branco, no céu azul, o avião que nos fazia levantar da cadeira para quase lhe dizermos adeus. Como nos tempos em que famílias inteiras davam as boas vindas aos soldados , seus familiares, filhos ou maridos, acenando com lenços  brancos nas mãos, sorrisos impressos nos rostos que pareciam ter vindo para lá ficarem para ficarem para sempre, nas caras de todos e de cada um, e corações fora do peito aos saltos no cais.

E depois o sol ia nascendo, pondo-se para voltar a nascer e por aí em diante e nem tudo era assim em ouro brilho, davam-se zaragatas, pesadelos que tinham vindo nas bagagens dos soldados que traziam as pernas e os braços todos, mas tinhas deixado bocados imensos de alma naqueles campos e trincheiras. Tinham também trazido febres, medos e a certeza de que não havia canto nenhum na cidade ou no mundo  onde se pudesse encontrar a paz ou a segurança, as noites eram iluminadas a medos.

E depois eram os filhos, uns feitos homens e outros desfeitos homens por terem sido feitos homens da casa à força da ausência, da autoridade e falta dela, as bolachadas que eram mal vindas, neles, nas mães. Era a guerra feita na paz com que todos haviam sonhado mas que agora ninguém queria nela habitar.

As feridas que se curavam com álcool das tabernas, e os corpos, fossem eles quais fossem, que serviam o troco da conta dos copos no final da noite que não tinha nem hora para começar e muito menos para acabar. Era sempre noite quando o medo precisava de se esconder da luz do dia.

Em tempos de guerra haviam.-se escrito toneladas de papel de cartas de amor e afinal o amor só existia no longo caminho das cartas que eram tão só feitas de ideais, imaginação, sonhos e esperanças.

Entretanto faziam-se filhos da carência, fora do tempo da paz, de um lado e de outro, crianças que ninguém queria explicar.

Pensava-se que as guerras têm fim, quando não têm: as guerras só acabam quando já não há sobreviventes, quando morreram os mortos que lá ficaram e às vezes os filhos dos mortos que de lá vieram, então vivos como voltaram.

A guerra é a ameaça de um pesadelo que se combate em sonhos de esperança em amanhãs, muitos morrem na praia, mais cedo ou mais tarde, mais guerra ou mais mais paz.

E no entanto, ali estávamos nós, felizes, num fim de tarde de Primavera, levantando alegremente os copos ao avião que cruzava o céu desenhando brancos símbolos de paz e amor sobre azul, enquanto nos ríamos e nos beijávamos como se a paz fosse uma conquista irreversível, algures tomada de um trago por bravos antepassados nossos que haviam feito história para que as nossas preocupações fossem outras, bem mais ligeiras e frescas em aromas.

Mas há sempre um vizinho, uma família que mora na rua, de cuja casa se ouvem por vezes uns gritos, umas discussões: um homem que chega ao fecho da taberna do bairro, que acaba a noite a bater na mulher, um filho feito homem que se levanta e bate no pai e aquilo acaba. Acaba por ali, hoje, apenas para se repetir um destes dias mais à frente.

“Guerras” – diria ela com aquele sorriso desenhado nos lindos olhos que me foram um dia esperar ao Porto de Lisboa num dia de paz.

Depois levantou-se a poeira e quando amainou o vento já tudo tinha mudado, as pessoas iam e vinham das suas vidas em passo seguro, sem ninguém a ver, mas com os aviões sempre a cruzarem Lisboa linda.