RATSO’S POEM

RATSO | OUR LADY OF LIGHT (FET. NICK CAVE)

Mas quem raio é Larry Sloman, que descubro “Ratso”, um velho biscateiro novinho em folha? “Ratso”…assim baptizado, por Joan Baez, imagine-se, um escritor reconhecido num restrito círculo de músicos, muito conhecido num restrito grupo, que será o mesmo que dizer “muito conhecido lá na rua dele”. Bem, mas que raio de rua é a de Larry?!
Ratso escreveu letras ali e acolá, fez covers de Bob Dylan numa digressão dos Rolling Stones, na sombra, mas sempre ali. Imagino um Ratso a fintar Bowies, Dylans e Keith Richards em clubes nocturnos de Brooklyn, com muito fumo no ar, desviando-se, mas simpático, todos eles o cumprimentam e lhe reconhecem um carisma que talvez Ratso nunca tenha encontrado no espelho do seu quarto, preservando-se de certa forma, mas fazendo o que gosta, assim, sem concessões, quando lhe apetece, escrevendo sobre músicos, aparecendo em cantos de telas de Martin Scorsese, cruzando-se com Mike Tyson, fazendo rádio com Howard Stern, escrevendo com e sobre dois mágicos, eu sei lá mais que mais e de quantos menos se tem feito a vida deste homem.


Imagino que nem ele sabe quando cai e sonha adormecido nos seus braços cruzados, sobre uma grande secretária de mogno maciço, numa sala meio escritório meio biblioteca, todo ela um cinzeiro, uma sala de onde o fumo não sai, mesmo quando Ratso passa quatro noites fora de casa, o fumo lá está quando ele chega, tudo exactamente na mesma para o receber. Há todo um caos de livros empilhados em discos, cd’s empilhados em vinis que estão por cima de dossiers de folhas batidas à máquina e, claro, uma máquina de escrever que nem se pode encontrar debaixo de tudo aquilo.


Um caos. Um caos onde pode perfeitamente viver uma bactéria capaz de matar um Covid-19, só que Ratso não pode imaginar tal possibilidade de salvar o mundo destes dias, pois  ele é uma estrela decadente, que decai e decai de céu estrelado em céu estrelado, repetindo-se num monte de vontades, toneladas de cigarros, tonéis de bebidas alcoólicas e sabe-se lá quantas drogas. Mas olho para a figura de Ratso e acredito que talvez a droga tenha sérios problemas com Ratso e o evite o mais que pode.
“Um” álbum editado, datado de 2019, “um” único álbum incrível e carismático, com princípio, meio e fim, como á raro serem os discos. Como é  raro Larry Sloman, baptizado “Ratso” por Joan Baez.
Eu? Eu estava apenas em frente ao computador à hora errada, na rádio certa do spotify e parei tudo o que estava a fazer, mas parei devagar. Aumentei ligeiramente o volume, com gestos suaves, devagar como quem quer apanhar um gato desprevenido, não fosse a cena assustar-se e fugir-me e eu nunca mais a encontrar.


A voz… Aquela voz familiar do Leonard, num género que não quero enfiar dentro de nenhuma caixa que diga “folk”, ou “indie” ou o que possa ser, E quando fui procurar pela personagem, investigar quem raio era este tipo de um único álbum em 2019, percebi que precisava de mil caixas para classificar Ratso e Larry Sloman.
Eu tenho aquela cena com duetos… E eis que outra voz preenche a minha sala e a envolve com gravidade: a de Nick Cave. Não me ajoelhei, estava muito confortável na cadeira de braços em frente à secretária, apenas nos rodei (a mim e à cadeira de braços), repousei nos braços dos braços da minha cadeira e ali ficámos, especados…
São raras as vezes que se descobre uma pepita de ouro num baixo riacho, são mais raras as vezes que um tipo que consome as toneladas de música que eu consumo se encontra entre a música e a parede. E era precisamente aí que eu estava e me deixei ficar. Ouvi o tema umas cinco vezes, até retomar o trabalho, mas com encontro marcado para essa noite, esta mesmo.


E ouvindo “o” disco de Ratso a voz de Cohen aparece de vez em quando, de memória diria que no dueto com Nick Cave e em mais um tema, para em todo o resto do álbum vir à tona a voz de Dylan. Pois eu não paro nada que esteja a fazer por Dylan, nunca o fiz, nunca direi que não o farei, porque a música já me ensinou muitas coisas que não pude aprender nem à primeira nem em décadas da minha existência. Na verdade e música já me sussurrou que tem um pacto secreto com o tempo e que conspiram sobre mim amiúde, mas com as melhores intenções, e disso eu não duvido e é coisa que jamais porei em causa. Confesso até um enorme conforto saber que conspiram sobre mim à minha revelia, e finjo que não sei que eles sabem que eu sei.


E temos este tema com o colosso do Nick Cave que prima por históricos e memoráveis duetos e, tal como se percebe no álbum da vida de Ratso, também este velho novo em folha envelhecida partilha esta cena com duetos.
E depois há esta “auto-sinopse” que Larry Sloman escreve sobre Ratso no Spotify e  que é como aquela garrafa de vinho tinto que, já por tudo e de cabeça perdida, se vai buscar à cave, porque pela forma como correu a primeira garrafa só um génio dentro da próxima garrafa de vinho faz sentido:


“If you would have told me me when I was covering Dylan’s Rolling Thunder tour for Rolling Stone magazine that forty-four years later I would be releasing my first album I would have laughed and asked for a hit of whatever it was you were smoking. “Larry “Ratso” Sloman chuckles. “Guess I’ll take that hit now”.A chance meeting with Bob Dylan resulted in joining the Rolling Thunder Revue as the tour’s official scribe. Sloman then forged an impressive carrer as a writer, collaborating with Howard Stern, Anthony Kiedis, David Blaine, and Mike Tyson on their memoirs.Ratso has also written lyricis for Rick Derringer and John Cale as well as acting in films, including an appearance in the new Scorsese documentary on that Rolling Thunder tour.What hasn’t he done? His own album. Produced by Vin Cacchione (of “Caged Animals”) in Bushwick, it’s eight originals and an audacious Bod Dylan cover. Sung by a guy who witnessed the counter-cultural explosion of 1970s NYC and birthed forty years later within the DIY confines of Brooklyn, Stubborn Heart has a modern sound and a timeless feel.His Rolling Stones fan club card long gone, Ratso’s now a card-carrying member of the American Association of Retired Persons but he’s determined to ride this new career wherever it takes him. “Maybe I can be the Jewish Susan Boyle”, he muses. “The oldest best new artist ever. And if that doesn’t pan out I can always perform on subway platforms. Hey, I can get in for half-price!”