SOBRE O CERTO, O MEDO, E O BELO

GHOSTPOET | I GROW TIRED BUT DARE NOT FALL ASLEEP (EDIT)

A fria previsibilidade com que ela se mostrava, não dava lugar a qualquer imagem bela de memórias e surpresas que pudessem reviver-se em António, como que por uma fraqueza de coração a que era alheio.
Uma fraqueza feita de medos, defesas contra a história de um tempo, fazendo-o questionar-se como podia ter habitado uma clausura de tão grandes muros de desconhecimento.
António recorda as palavras “desconfia muito de quem nunca é capaz de confiar”. E António, que se renovava para voltar a desejar, a acreditar, tantas vezes colhendo as mesmas desilusões?

Quem confia sai por vezes magoado, e por vezes, tantas são as vezes em que parece não haver fim, apenas um destino carimbado e repetido em folhas de contratos que se fazem para se descumprirem.
Mas é de braços baixos e de unhas recolhidas que se torna honesta a existência a que alguns chamam ingenuidade, quando é tão mais do que a madura inteligência das emoções, e que tudo o resto é viver sem elas marcadas, como numa amorfa certeza de não perder o pé.

Esta é a vida que se estende na frente de uns, numa margem de um rio que não lhes molha os pés, profundamente desconhecedores da sensação da frescura que mostra ao corpo a vitalidade com que veio ao mundo, ao coração a razão da sua existência e à razão o coração que a suporta quando esta não sabe o que fazer, que é sempre que é deixada à solta, dona e senhora de destinos que jamais conseguirá compreender e dominar, condenando-se a si própria à impossibilidade eterna de amar e sentir as coisas com uma verdade inquestionável.