SOBRE O MEDO E A GEOMETRIA

LLOYD COLE AND THE COMMOTIONS | FOREST FIRE (EXTENDED VERSION)

A noite cai-te aos pés, pela voz de uma mulher que espraia uma ira que faz de chuva a escorrer numa calçada que existe numa Lisboa que apenas parece uma noite de Junho, sem vento, em Casablanca. Está calor. Está muito calor.

Esquecida a agitação de uma cidade que se faz de um glamour em terraços de hotéis, em correrias de hotel em hotel, para que não falte uma festa para ver e ser-se visto. Não, Lisboa é só apenas essa temperatura que acontece e esse vento que não se faz, e não chove, não troveja, mas Marina faz uma tempestade num copo vazio, escapam-lhe os telhados da tranquila e bonita cidade, onde até os gatos a tratam bem e lhe lançam um sorriso cúmplice da luz que se projeta em tom quente nas telhas de um telhado. Mas é tarde, é tarde para não ter medo, é tarde para não gritar em surdina um desespero que se instala como uma sanguessuga que se agarra à sua perna na travessia de um riacho, mas é só Lisboa.

Podia ser melhor? Mais fácil? Podia, sim, claro. Mas que importa isso hoje? Hoje é dia de deixar correr as lágrimas, é preciso fazer correr as lágrimas. Há homens que sem saberem morrem afogados em lágrimas que não choraram e depois pensam ter morrido de complicações do coração. Foram apenas simplicidades do coração, mas essas histórias não se contam, não resistem à vida de um homem na terra, apenas fica para contar aquilo que se consegue compreender sem ter que se mergulhar fundo em alguém. Em si é que não, Marina quer chorar, mas espernear na superfície de um rio de águas paradas, limpas se faz favor, não gosta de fundos mergulhos onde começa a escassear a luz e a visão.

Parece mais fácil assim. Então porque não se desinstala a segurança e o medo não bate a porta de sai? Porque, Marina, o medo não se controla, o medo vence-se. E o medo é conhecido por preferir a escuridão porque é nela que pode ser quem quiser. Não, não basta acender a luz, é no seu habitat que ele deve ser derrotado, e levado através do escuro, com autoridade, até à porta de saída.

Marina muda de voz, mais tremida de assustada, ao mesmo tempo mais calma e toda ouvidos, de bonitos olhos grandes, redondos, abertos, para que não lhe escape nada do que lhe possas dizer. A caneca de chá fresco a aquecer-lhe nas mãos…

Percebes que nunca a havias reparado tão bonita, há algo de belo na vulnerabilidade das pessoas, torna-as mais humanas, mais verdadeiras. Todo o caminho que se faz da vulnerabilidade à indiferença é uma quadrada mentira de persistentes arestas a ferir devagar, sem que a alma dê por isso.

Dizes-lhe que também tens medo às vezes, que o mundo também te assusta, mas que há uma razão para o medo se alimentar da escuridão. É que o medo nunca vem de fora para dentro de nós. Não, ele faz o sentido contrário, de dentro para fora, diretamente do nosso peito para o escuro. O escuro é uma folha sem luz onde desenhamos os nossos mais terríveis receios.

Ela pousa a caneca do chá e cobre as faces com as mãos e os seus olhos pedem-te que continues.

Sempre que desenhas o teu medo no escuro – dizes – começas por lhes traçar os contornos, depois vais preenchendo o interior com linhas mestras, e assustas-te mais um bocado, mas nem por isso deixas de desenhar com dedicação alguns detalhes, as luzes, as sombras e mais e mais detalhes, cada vez mais apavorada vais pintando o medo, medo a medo, num quarto escuro que já nem existe, já pintas escuro à luz do dia. É aí que percebes que o medo tomou conta do teu pensamento, do teu discernimento. que já decide por ti.

O que faço para não chegar aí? – E faz a pergunta com os olhos tristes, húmidos, de quem não vê outra saída.

Ora – sorris-lhe com toda a ternura que te merece – tens que dar por ti a desenhar os contornos, tens que estar alerta, dar pelo começo de tudo. Estás a ver aqueles miúdos que estão na sala de aula e enchem as folhas dos cadernos com desenhos mesmo enquanto tiram os apontamentos? E aquelas pessoas que estão a trabalhar, ao telefone ou em reuniões, e estão a fazer desenhos ou figuras geométricas sem sentido nos seus cadernos? Repara como não controlam esse impulso. É assim que o medo começa o seu caminho de dentro de ti numa corrida para a sua liberdade, pois é aí que tens que tomar consciência que ele nasceu e quer ficar. Larga lá a mente com que o desenhas, despe-te desse pensamento e alimenta-te de ti, da confiança em ti. Pensa até onde já foste quando não tiveste medo e instala aí a tua mente, senta-te nesse lugar e olha-o de frente e ri-te na sua cara, mesmo que te custe ri-te, verás que a cada sorriso não só tens menos medo como o teu sorriso é cada vez mais verdadeiro e que te começam até a sair gargalhadas. E acredita… o medo tem um terror imenso de pessoas assim.

Marina cruza a perna dentro de uma saia comprida de tecido fluido, encosta-se para trás, notas que está menos tensa, mas as lágrimas são agora mais espessas, caem sem cerimónias, com alívio.

E resulta sempre contigo? – E leva a caneca de chá à boca sem limpar as lágrimas.

Nem sempre, por vezes distraio-me, perco o sentido das prioridades, mas a boa notícia é que não é irreparável, e por vezes, mesmo num estado mais avançado, basta-me uma chávena de chá fresco.