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A HISTÓRIA DE UM HOYO DE MONTERREY

ENSEMBLE SP – PAU BRASIL – RENATO BRAZ | MODINHA (NA SOLIDÃO DA MINHA VIDA)

António tem o olhar perdido para lá do gigante móvel, feito de prateleiras robustas que albergam milhares de livros que fazem uma das quatro paredes da sua biblioteca. O seu olhar tem o foco num ponto de fuga que ultrapassa a parede, o escritório contíguo, a enorme varanda que se debruça sobre o jardim que faz a lateral direita da casa, indo focar-se algures fora das vinhas que rodeiam a casa.

Sentado na sua cadeira, uma Charles Eames que era de seu pai e que com toda a certeza acomodará os seus bisnetos, está de pernas esticadas e segura há meia-hora, na sua mão direita pendurada, um Hoyo de Monterrey, também ele periclitantemente pendente entre dois dedos e que tardará em acender, já que a sua atenção está presa algures entre as lombadas de dois livros, atravessando tudo o que é visível no horizonte descoberto por janelas abertas, mas tapado por portas e paredes de divisões da casa onde não está mais alguém que não ele. Acabado de chegar na noite de ontem, Sexta-Feira, a primeira coisa que fez foi dispensar os empregados, que fazia questão de tratar tão bem que jamais admitia que lhes chamassem por outra coisa que não pelo seu nome próprio.

Atravessa-lhe o pensamento a ideia de que entre todos aqueles livros se escondem milhões de anos de histórias contadas, por milhares de autores, feitas de guerras e amores, poesias e tristezas, felicidades, sangue, lágrimas, viagens maravilhosas pelos cinco continentes ligados por cinco oceanos. Dá com ele a questionar-se quantos países estarão retratados em toda aquela parede de livros. Quantas cidades? Quantas vidas? A única coisa que sabe é quantos anos e quantas vidas foram necessárias para acumular todos aqueles livros. Tudo começou com um amor aos livros por parte do seu avô materno, o homem mais terno que jamais conheceu e que amava os livros, amando mil vezes mais a sua mulher, avó de António, que adorava ler e que o guiou pela paixão da leitura, e pela paixão da vida.
Morreram juntos, dramaticamente, num fogo que deflagrou no palheiro e que tentaram apagar juntos e sozinhos para não acordarem os caseiros e empregados que estavam exaustos da vindima desse dia.

O seu pai continuou a coleccionar livros mas já só por vaidade e orgulho numa vasta e cobiçada colecção de milhares de obras, onde se incluíam centenas de valiosíssimas raridades. António herdou o avô, para seu bem e para seu mal. Para seu bem porque se salvou do pai que era desprovido de sentimentos e emoções, para seu mal porque herdou uma sensibilidade extrema que lhe deu tanto prazer como melancolia. Celeste, sua ama, que Deus lhe havia resgatado tinha ele vinte e um anos, dizia-lhe: “o menino é feito do mesmo vidro do seu avô que Deus tem. Sortudo esse Deus…”, e António reparava que Celeste virava sempre a cara para outro lado depois de falar do seu avô, o que por sinal raramente acontecia, mas ele sabia que ela o chorava no quarto à noite todos os dias.

Agora focou os olhos nos livros que tinha à sua frente, os seus olhos voltaram para si, voltaram para casa, tenham lá andado por onde tenham andado, coisa que não faço  nem  ideia. Levantou o braço direito e admirou o charuto que tinha na mão como quem admira o corpo de uma esbelta mulher, rodando-o entre os dedos, como quem pede à sua apaixonada que dê uma volta sobre si própria apenas para lhe poder dizer “hoje estás tão bonita”, mesmo depois de vinte anos de casamento. Era só um charuto, mas bem enrolado nas gordas pernas de uma negra cubana, por certo.

Ao lado direito da sua cadeira tinha um bloco esculpido em pau preto por um designer conhecido e amigo, numa secção octogonal de trinta por trinta centímetros, com uma concavidade redonda no topo e escavado num lado em meia-cana, para continuar numa saliência, também ela em meia-cana, tudo em monobloco, para pousar um charuto. Era o seu cinzeiro, o único na casa. Bem… em boa verdade era o único na sua vida, pois só fumava charutos naquela cadeira da sua herdade no Alentejo. Nunca havia fumado um único cigarro na vida e tinha, por insistência de um amigo, experimentado uma cigarrilha que nem deixou aquecer antes de apagar com uma careta impressa no rosto. Um motivo de risada para ambos.

Levantou-se, e em passo firme e seguro, dirigiu-se a um disco de vinil no meio de uns milhares que faziam a parede esquerda da biblioteca. Seguro porque conhecia a posição de todos os seus discos, as cores das suas lombada e… sim, aquele era um disco muito especial. Pousou o disco no móvel do gira-discos, abriu uma caixa em laca preta da china e tirou o Dupont também ele de laca preta e ouro que usava para acender os charutos. Pegou na guilhotina do seu avô e, com a delicadeza de um ritual sagrado, cortou a ponta do Hoyo de Monterrey. Voltou a mirar o charuto, rodou-o para descobrir na sua forma a melhor posição para o acender. O Dupont cantou então como só um Dupont canta quando se abre, e com a chama afastada do charuto foi puxando o ar até ele, suavemente e seguro pela boca, o rodava entre os dedos, para que a ponta, sem nunca ganhar chama, se fosse fazendo brasa de forma homogénea. Assim se acende um charuto sem que ele azede, perdendo todas as notas de canela ou cânfora, couro, mil madeiras nobres, e de tantos e tantos aromas e sabores que se faz um charuto, tal como um vinho. Puxou três baforadas para lhe dar vida e voltou ao meio da sala para o pousar no cinzeiro, sabendo agora que não o perderia pois todo ele era vigor.

Sem pressa para nada, coisa que era ultimamente apanágio de António, dirigiu-se novamente ao gira-discos, sabendo que o amplificador a válvulas, ligado há uma hora atrás, estava pronto para fazer justiça ao disco. Em lentos movimentos de amor ao tempo e aos objectos com todas as suas histórias, tirou o disco de vinil da capa e da bolsa e colocou-o no prato. Pegou na agulha e levou-a ao sítio certo, soltando-lhe a alavanca que a fez pousar exactamente no intervalo desejado, para que “Modinha” começasse a tocar quando António estivesse já recostado na sua poltrona preferida.

E assim foi, Teco Cardoso abre as hostilidades com a sua flauta, de braço dado com Ricardo Mosca que entra de pratos feitos de uma textura mineral, chamando o contrabaixo de Rodolfo Stroeter, e assim começa uma das músicas mais bonitas da actualidade. Seguem-se todos os outros amigos que vão chegando ao tema que nem uma confortável brisa morna, o piano do Nelson, a viola do Marcelo, todos como um rio que vai desaguar no estuário da voz de Renato Braz.

A partir daqui a alma de António volta a sair daquela sala para parte incerta, perdendo-se de vista na núvem do fumo azulado do Hoyo de Monterrey, que tardará uns bons quarenta e cinco minutos a ser fumado. António? Sabe Deus quando e como voltará. O que sei de fonte segura, porque ele mesmo me deixou escapar em amena conversa no alpendre da casa, numa noite de Agosto em plena chuva de estrelas, é que este tema faz parte da banda sonora da sua vida, e que a sua alma se revitaliza dentro desta música. E dela regressa sempre jovem, novo, como um menino que se faz do mesmo vidro que o do avô materno que ama e amará para todo o sempre.

E lá cai uma lágrima num verso do trovador Renato Braz,
Mas num estuário destes, que diferença faz?
O rio continua passando como visto da janela de um comboio,
Que serpenteia pelas margens, devagar para não se apagar da memória,
Pois nada se quer esquecido, tudo se quer lembrado,
Em duas linhas de ferro paralelas,
Desenhadas por um amor quebrado,
Pelo tempo que está presente enquanto não se faz passado.

BREAKFAST’S A BITCH

NADIA REID | RICHARD

Susanne Vega – “Olha lá gorducha, achei aquele “Richard” muito eu sabes? Tipo aquela foi mesmo a copiar-me, não?”

Nadia Reid – “Olha, tu não me digas essas coisas que eu sou uma pessoa que sofreu de bullying na escola porque era gorda e usava uns óculos com lentes tipo tijolos de vidro”

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A CARTA ENVIADA NUM AVIÃO DE PAPEL

NEV COTTEE | OPEN EYES

Sandra, dona de um contagiante e lindo sorriso, eternamente sedutor por muito que custe a todos aqueles que lhe caem aos pés, naquilo que julgam seu um grande sofrimento, só porque ainda não caíram na cama depois de arranharem os joelhos a seus pés, tendo então que sobreviver aos dias, semanas e até meses que se seguem.

Mas não foi assim que apareceu hoje aos teus olhos, a cruel frieza que julgaste um dia ser própria de Sandra, não é afinal apenas de Sandra, é como uma chuva molha parvos que não perdoa quem a desvaloriza, e percebes pela tranquilidade que traz consigo que também Sandra já se molhou umas quantas de vezes neste anos todos que passaram. Mas chegou feliz e com atitude de mulher resolvida, pessoa que não chegaste nunca a ter o prazer de conhecer.

Sentou-se confiante com a leveza de uma pluma ginasticada na cadeira da esplanada. Tinham passado muitos anos, e o perdão, de certa forma, tornas-nos mais benevolentes e muito mais jovens e leves, E ali percebeste que ambos se haviam perdoado por terem sido na altura isso mesmo: jovens. É que a juventude, sendo altamente invejável é alvo de condenações que a transcendem, resultando em inquisitórias acusações gravosas. O perdão, esse, chega em certos casos a ser arriscado, por ser pouco acautelado pela observação de boas práticas no outro, ou em nós próprios, mas nunca é tão nefasto quanto o rancor. Esse, o rancor, é uma força bruta devastadora de almas, princípios e valores, não olhando a meios para não ceder ao que é mais natural na inteligência e humanidade que foi dada a todos por igual.: a capacidade de perdoar, passar à frente, resolver na verdade um trauma, uma experiência menos feliz ou outra grande pancada qualquer. É apenas a história das vossas vidas e a forma como a digerem que vos faz capitular nas guerras da vida, uma por uma, de fininho, mas com determinação, roubando-vos o verdadeiro poder absoluto de perdoar, convencendo-os que a verdadeira força reside no poder de julgar e condenar. Como vos enganais.

Parece não ter sido o vosso caso, que bom. Bom para os vossos corações que podem continuar a aceitar incertezas em vez da vossa razão abrir comportas de fuga a toda a hora, até, imagine-se, em plenos momentos de felicidade absoluta, como se o amanhã fosse um perigo à espreita. À cautela é melhor condicionar a felicidade a um estado transitório que pode dar merda, tornando esta manobra na felicidade vigente. Pois pode! E então? O mais seguro nesta nossa existência, meus dois amigos, é que vamos todos morrer, quanto mais tarde melhor, está claro, mas o que realmente importa no final é aquilo que nos faz sorrir antes dos olhos se fecharem. Escolham fechá-los de sorriso estampado na cara, sem medos, porque nada acaba, tudo de regenera de alguma forma.

Despediram-se sem vontades de adeus, de até à próxima. Mais desejavam saber onde se podia jantar a seguir, afinal de contas havia duas vidas para serem contadas, sem o peso do passado, apenas com as gargalhadas que as vidas provocam, quando contadas com o devido distanciamento, de tão ridículas que são vistas de cima de um monte de tempo.

Não sei se foram para casa, se foram jantar, se se viram mais vezes, ficarei sem saber porque nunca mais vos vi. Fui-me embora, nesse preciso momento de indecisões e cerimónias, sem ver os dois beijinhos ou o abraço, ou quem sabe o “vamos no teu carro ou no meu?”, Queiram desculpar-me mas andava meio preocupado e cansado e não fazia a menor ideia que a minha vida mudaria drasticamente dois dias depois ao ponto de me levar para Tóquio, cidade onde vivo, desde então, faz precisamente hoje 7 anos. Espero-vos bem, seja lá de que forma for
Eu estou bem, continuo a tentar envelhecer a criança que há em mim, mas o raio do miúdo é sábio e resistente.
Com o amor que me compete, assim me despeço, desejando que tenham ficado amigos para sempre.

À BEIRA DE UM BOM LIVRO

KID WISE | HOLD ON

” […] A vida ensinara-me isto: o inferno da humanidade é a humanidade. Podem bem existir centenas de doenças capazes de acabar connosco, centenas de caminhos para a nossa ruína, mas tudo isso não é nada comparado com a devastação que nos pode causar outro ser humano […]”

Ahmet Hamdi Tampinar, em “O Instituto Para o Acerto dos Relógios”, ano de 1954

UMA TEMPESTADE CHAMADA NADIA

NADIA REID | PRESERVATION

Eram as sete da manhã no relógio de cabeceira dele e abertas que foram as janelas naquele momento, podia ver a cidade a preto e branco.
“Porque é que chove sempre a preto e branco?” – Perguntou António para dentro de si sem esperar a resposta que não se fez.
Nada ecoava na casa, estava só. Só chovia fora de si, antes assim…. ou já estaria habituado a um qualquer Inverno que se instalara na sua existência, o empurrara para os livros de poesia como um castigo divino onde era suposto aprofundar o mais possível aquilo de que é feito o ser humano por dentro, ele próprio tantas e tantas vezes e principalmente, descascar as pessoas até elas se tornarem esqueletos de laboratório, sem pele em que tocar?

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