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UMA HISTÓRIA DE AMOR, PRETO NO BRANCO

https://www.youtube.com/watch?v=tUS9-TD8DZc
BRONCHO | GET IN MY CAR

Enquanto os braços se confundiam com pernas, as cabeças de uns com as dos outros, Aníbal urinava sem fim à vista, na casa de banho do Ocarina, incapaz de mijar dentro da retrete. Não conhecesse eu bem o Aníbal e diria que ele estava a inundar propositadamente a casa de banho de cerveja. Sim porque a urina tinha-se-lhe acabado logo na hora que se seguiu ao jantar. Agora só tinha mesmo cerveja, a coisa era pura limpeza de rins. Mas enfim, a verdade é que Aníbal fazia os possíveis e os impossíveis para urinar para dentro da retrete, principalmente os impossíveis, de tal forma foi competente na impossibilidade que quem veio a seguir atestou que a retrete estava seca, como uma ilha desidratada com mar à volta.

Toda a filosofia e ideologia de uma geração se faziam representar por Aníbal a alagar a casa de banho do Ocarina de mijo, enquanto tentava fazer aquilo que realmente importava para o futuro de uma enorme faixa de jovens adolescentes a quem lhes tinha sido oferecida uma liberdade incondicional logo no dia que respiraram fora de água, logo que levaram a primeira palmada no rabo e mais o caneco. Importa referir, por motivos de património histórico, que muitos levaram a segunda e até a milésima palmada no rabo, já portadores de carta de condução e tudo, mas deixemos esses detalhes para quem escreve a história. Não somo nós, claro, até porque o vodka dá brancas incompatíveis com uma carreira de historiador. O que importava realmente para Aníbal, bem como para todos os que estavam na fila de espera para a casa de banho e a centena que estava na pista de dança, era acompanhar o ritmo do tema que se fazia ouvir pela sala (e pelas paredes dos vizinhos da rua do Ocarina).

Aníbal, como bom e honesto homem, não conseguia fazer duas coisas bem feitas ao mesmo tempo: ou mijava na retrete ou dançava no ritmo e como mandavam as tendências motoras das danças de então.
Boa a hora em que optou por honrar a música. Por casas de banho não reza a história. Nunca!

Foi no Ocarina que Aníbal, filho de uma família conservadora capaz de encher a missa de pais, tios, filhos e primos, em qualquer Domingo, se perdeu de amores por Rosa, uma preta tão preta que reflectia azul por tudo o que era pele. E que pele tinha Rosa, e que corpo, e que sorriso. Rosa era menina de em 1985 fazer parar o trânsito de 2019 na auto-estrada para o Algarve numa insuspeita Quarta-Feira fora de horas de ponta, isto num tempo em que travar a fundo, sem cinto de segurança, num Ford Capri de tablier de madeira maciça, não era tão seguro como fazê-lo em 2019 num Fiat 500, com air-bags por todo o lado, direcções assistidas, cintos de segurança, travões anti-bloqueio e mais cenas e tal que até coiso.

Falando em coiso, não posso deixar de recordar que o casamento de Aníbal com Rosa foi recebido com escândalo por toda a família de Aníbal, de pais para filhos, de filhos para primos e de todos para Deus. Julgo recordar-me, embora tivesse bebido demasiado vodka nos dias que antecederam o casamento , que Deus não apareceu a manifestar o seu desagrado, não obstante as ameaças do pai e da mão de Aníbal que puxaram todos os cordéis que tinha para puxar. Mas eu tenho para mim que Deus é um funcionário público exemplar que jamais exerce influência na vida das pessoas e muito menos se deixa subornar, por muito que ainda hoje viva a vida cercado de velas e promessas.

Contra tudo e contra todos, Rosa e Aníbal lá casaram, tiveram filhos mesmo depois de eu lhes ter perdido a conta, e até hoje deixam transparecer uma felicidade, um amor e uma magnética atracção fisica, certamente consumada em rotinas sexuais de meter inveja aos tios e aos primos de Aníbal que já há anos que acham que falar de sexo a toda hora é fazer amor.

Eu cá sinto um enorme orgulho nos dois e uma sorte imensa de ser amigo próximo dos dois, mesmo não sabendo ao certo quantos filhos têm e muito menos como se chamam, só sei que são muitos e que crescem duas vezes por dia.

E não há santa vez que não passe à porta daquilo que um dia foi o Ocarina, a caminho do meu modesto atelier de arquitectura, e que não me cheira a urina. Há dias em que chego a ouvir a música tocava enquanto a mija de Aníbal se arrastava por baixo da porta como se sofresse de claustrofobia.

A RECEITA DINAMARQUESA

KIRA SKOV | EVERYTHING REMINDS ME OF YOU

Os ventos no norte puseram-se em pé, num encadear de notas que piscam o olhos ao jazz, mas seguem a sua própria identidade, ora através do jazz, da música clássica contemporânea, ou assumindo aqui a tradição que não escondem, embora a fundam como uma liga de um metal precioso, talvez parecido com os metais com que se faziam as espadas que invadiram em tempos as terras do sul.

Há uma nova invasão bárbara, mas desta vez feita por homens e mulheres que vestem o que de mais elegante se desenha, que de bárbaros nada têm.

Aqui não se querem nem mortos nem feridos, apenas uma onda de um gosto apurado e sentido estético expresso na música, do jazz a um estilo como o de Kira Skov, a que o Discogs chama de rock. Bem, tssst tssst…

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NEM TUDO O QUE ÉTER CURA

KURT VILE | ONE TRICK PONIES

Ouvia os discos como lia os livros, do princípio ao fim, não sabia saltar uma música nem mudar de disco a meio, como não conseguia ler dois livros ao mesmo tempo. Um dia apaixonou-se por uma mulher e havia uma canção, como que a banda sonora deles. Um dia ruiu o amor, ruiu a vida como a conhecia e como a sabia viver, caiu-lhe a música do coração abaixo, desfazendo-se em mil notas sem sentido, no chão daquela que era a casa deles, agora apenas quatro paredes a que não ousava chamar de casa. O desgosto foi mortal, nunca mais ouviu um disco. Ensurdeceu para melodias numa trágica existência povoada de fantasmas que habitavam os livros de capa dura que lia do princípio ao fim, à luz fria de um candeeiro de cabeceira. E tudo era um éter suportável pela tristeza em que se tornou. Não regressou nunca.

UNCENSORED, I CAN TELL YOU

IAMX | STARDUST (UNCENSORED)

Chris Corner nunca brincou com a sua música como sempre levou muito a sério o seu lado performático, aliás, tão cru e underground como a sua música. Com o que brinca é com bonecas e bonecos, mas isso é completamente irrelevante quando ultrapassa a performance e a estética glam que nos remete para uns Roxy Music com Bryan Eno e até para um Bowie.
Conhecido por poucos em Portugal, se não mesmo no mundo inteiro, tem um público muito fiel porque tem já uma longa carreira em que quase tudo é bom. Há um enorme denominador comum em toda sua discografia e das poucas vezes que se desviou desse caminho, não soube “agarrar” o seu público pelo ouvido.

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SLOW TIME MACHINE

THE SLOW READERS CLUB | LUNATIC

Velhos os tempos, novas as vontades, presentes as saudades, como se tudo te pudesse acontecer novamente, com os mesmo ingredientes, mas com outros prazeres. Uma máquina do tempo, talvez, que te leve ao passado com tudo aquilo que trazes hoje na experiência e no saber.

Às vezes apetece-te ser o mesmo outro que foste um dia, mas escusas-te a ter o trabalho que te fez chegar ao homem que és hoje. A música é ainda uma boa máquina do tempo. E essa sim, faz-se nova com todo o saber acumulado de anos e anos de outros sons, mergulhada em influências que te fazem viajar por mundo incríveis em apenas segundos em que fechas os olhos para lhe dar atenção.

Faz boa viagem, passa num instante mas não parece. O bilhete é sempre barato, nunca sai caro e compensa. Aproveita cada nota, cada linha de baixo como seu o mundo se fosse fazer apenas de agudos.