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O PERFUME ESQUECIDO DO FERRO, ADORMECIDO EM CAMPOS SILVESTRES

PERFUME GENIOUS | WITHOUT YOU

Apenas lhe atiçaram os versos um dia, deixaram-lhe tudo, é certo, como é certo que tudo fora os versos, resultou para ele em nada mais nada. Não lhes suportou a força durante muito tempo, até um dia se levantar do tapete onde se deixou cair para dormir aquilo que nunca conseguiu medir.

Julgo que terão sido dois ou três dias de um sono comatoso. Resultou num corpo sem sentido algum que se levantou sem letras, em fantasma, incapaz de traçar uma linha de sentimento ou emoção.

Sentiu-se sem vida, sem sangue a correr. Ainda assim, um dia acordou, numa letargia, enquanto a vida, como acontecia, obrigou-o a respirar, a levantar o chumbo que trazia no peito e caminhar pelos dias, nos caminhos de espuma de que se faziam as semanas.

E assim foi até ao dia que lhe foram devolvidos os poemas que viviam dentro de si. Regressaram musas inspiradoras e voltou a acreditar nas estações do ano e nas árvores que não choravam todas as suas folhas por mantos dourados, então já um ouro com brilho e com vida.

Com o Inverno vieram-lhe os sentimentos aquecidos por chamas de lareiras alimentadas a lenha apanhada pelos quatro cantos do coração que habitava até então apenas territórios de sobrevivência, copos de vinhos encorpados capazes de encetar conversas de sofá, tidas a pés descalços, ideias trocadas, poéticos serões sem rimas fáceis marcados pelas vozes de corações capazes de se fazerem ouvir pelas mãos da honestidade, sem promessas ou espectativas que não aquelas que apenas resultam dos tempos tranquilos de quem descansa sentado num banco de uma estação de comboios abandonada, onde apenas passavam cães e gatos à distância de quem teme os homens e as suas fraquezas.

Foi na estação gasta pelos anos passados que ficou o seu olhar perdido num tempo que não soube contar.
Foi aí que deixou o seu corpo moribundo, levantando-se outro homem que não ele, abandonando-se como era, libertando-se em pássaro de asas longas, para se tornar homem mais à frente. Até hoje. Em paz. sem olhar para trás.

SOBRE O CERTO, O MEDO, E O BELO

GHOSTPOET | I GROW TIRED BUT DARE NOT FALL ASLEEP (EDIT)

A fria previsibilidade com que ela se mostrava, não dava lugar a qualquer imagem bela de memórias e surpresas que pudessem reviver-se em António, como que por uma fraqueza de coração a que era alheio.
Uma fraqueza feita de medos, defesas contra a história de um tempo, fazendo-o questionar-se como podia ter habitado uma clausura de tão grandes muros de desconhecimento.
António recorda as palavras “desconfia muito de quem nunca é capaz de confiar”. E António, que se renovava para voltar a desejar, a acreditar, tantas vezes colhendo as mesmas desilusões?

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A HISTÓRIA DA FÉ E DA FEZADA

STILL CORNERS | STATIC

Percebes agora meu amigo porque a fé não deve ser submetida ao desastre dos homens? Percebes agora porque sempre te o disse que estes conspurcam qualquer vontade de justiça divina quando a têm que escolher entre um par de cobres? Um homem pode nascer para crescer aprendendo que as pessoas desiludem muito, que faltam à sua honra com o mesmo desrespeito com que deixam um qualquer nobre homem sentado numa cadeira aguardando pela chegada da sua sobranceria, mas jamais se educa a ele próprio para que se lhe desaponte a graça e lhe caia a estrutura de valores por causa de uns pobres beatos coitados que perante a escolha da estrutura de nobres valores que lhes foram (mal) transmitidos, e que em contaste com o brilho de duas sujas moedas de latão, não hesitam e correm aos tropeções atrás das toscas rodelas de latão, trôpegos na ganância, aliviando a carga dos profundos valores para lá chegarem mais rápido, assim como um barco larga a carga ao mar para chegar mais depressa a terra.

Não consigo imaginar que sentimentos despertam na almofada que lhes suporta o peso da ganância, coitada, da almofada, claro. Imagino-a com as penas encolhidas por tamanha vergonha alheia.
Por isso te disse sempre que a maior parte daqueles que se juntam para celebrar a fé cumprem, na esmagadora maioria, um ritual social, não de fé, e nesses lugares eu não marco presença, amigo, o meu compromisso é com Ele, não com as famílias e amigos, trajados de Domingo. Porque para grande tristeza da espécie tudo ali nasce ao Domingo para ser morrer e ser enterrado às três pancadas à Segunda-Feira.

Assim, tais celebrações nada celebram de dignidade e de solidariedade e mais valia não servirem de exemplo ao exercício da fé. E assim como a democracia, vai também a tua igreja – não a minha, que essa não tem paredes – perdendo bons voluntários, porque cada homem que é enganado por um crente, são menos dois ou três que a tua igreja perde em nome desse homem.

Ao contrário do rapaz que fala com Ele, não para ver ou ser visto por alguém que não Ele mesmo, que Lhe fala em privado, em pacata descrição na sua casa, que está certo que só na verdadeira humildade da prática do bem e sem pré-conceitos e sem pré-juízos, se leva alguém até Ele.

Pobres os que se servem D’ele, mas Ele saberá para quê o representam de tal forma, e onde chegarão, disso eu não tenho dúvidas meu amigo, e muito respeito todos aqueles que o servem sem alarido e vaidade.
Cada vez mais me convenço que muitos crentes vão à casa de Deus apenas porque não tem a sua casa em condições de o receber.

A SEAGULL WITH A THOUGHT

Photo: @thelisbonshooter

THE THE | I WANT 2 B U

Well, you know? I really don’t give a shit about that thing “a-like-for-a-like”, just because I know how to fly by myself since the first days of my life. So it’s natural for me, and it get’s more natural as time goes on: if I like, someone’s get a like, and if I don’t, I simply move on and scroll down. By other hand (or wing, to be more precise) I don’t expect a like if you like, just because life isn’t really about that. I guess people are making guns with liking, not liking and desliking, you know? If it’s sad? Well, it is what it is… Me..? I’m just a simple bird with a social media account.

UM CONTO DE “CÃOVALHEIRO”

KHATIA BUNIATISHVILI | LA JAVANAISE (SERGE GAINSBOURG)

Também toca muito Bach, mas embora eu adore Bach assim como preciso de beber água, gosto especialmente de a ouvir tocar a “La Javanaise” porque ela lhe dá andamentos divertidos e é um tema feliz. O Miles começa a abanar a cauda e a acelerar o passo quando começamos a ouvir a música, coisa que acontece quando ainda estamos a ver a porta ao longe, mas Javanaise, nome com que baptizámos a rapariga, gosta de tocar de porta aberta, dir-me-á um dia que gosta do ar e da luz a entrar e que, entre peças, gosta de ouvir as pessoas na rua dela, onde practicamente não passam carros e onde ainda há bastantes crianças a brincar na rua.

Mora no bairro ao lado do meu, rua com rua, porta com porta, já que uma porta pertence ao meu bairro e a porta logo a seguir pertence ao bairro vizinho, porta da casa onde ela mora. Nessa casa onde começa o bairro vizinho mora uma rapariga que estuda piano eu eu chamo-lhe Javanaise porque já a ouvi a tocar a “Lá Javanaise” de Serge Gainsbourg quando por lá passo com o cão. O Miles, o meu cão, pára sempre em frente à porta dela. Ela tem uma casa que não é um prédio e tem apenas um piso ao nível do olhar do Miles com um piso único e a entrada dá para uma primeira sala que dá abrigo ao seu piano de cauda e pouco mais.

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SOBRE ir PASSEAR O CÃO

BALTHAZAR | YOU WON’T COME ARROUND

Não sabes de quantas primaveras se faz a história destes rapazes, diz-te o Discogs que editaram o primeiro single há 12 anos, como não sabes o dia não lhes sabes contar as primaveras, mas pouco importa. O que importa é que te bem dispõem, que te fazem sentir a inocência de que se faz a dada altura a música de uma banda. Acontece que inocência artística não é bem o que se pode encontrar neste projecto Balthazar, já que a vocalização e escrita dos temas está a cargo de Jinte Deprez, que tem também o projecto a solo J.Barnardt lado a lado com o talento musical de Marteen Devoldere dos Warhause.

Assim, há uma sobreposição de primaveras que totalizam mais tempo do que te possa parecer, num conjunto de excelentes experiências musicais e que convergem nesta musicalidade arejada e oxigenada de Balthazar, fácil de digerir com qualquer prato. Não conhecias Batlhazar, mas não é coisa que vás esquecer, sendo até projecto que recomendas.

E é por isto que todos os dias, de madrugada, levas a passear os auscultadores, juntamente com homens e mulheres, miúdas e miúdos, que levam os seus cães a fazerem as suas necessidades e a desentorpecerem as patas e as costas. Um dia destes levarás um cão teu chamado Miles, e juntos educarão cães e pessoas a musicar as passeatas matinais e de fim de tarde, só porque o saber não ocupa espaço, principal e generalizadamente nos animais, já as pessoas põem muitas resistências às coisas novas e às novas formas de as fazer (as coisas, claro).

O CAMINHO QUE AINDA NÃO EXISTE, É O POEMA

O GAJO | O CAMINHO É O POEMA (COM CONVIDADOS)
GRAVADO AO VIVO NO CLUBE FERROVIÁRIO

– “Seria difícil juntar algo com que tenho na razão a alguma coisa que tenha no meu coração, por falta de vasos comunicantes, não por força da vontade ou falta dela. O que vos juro, senhora, é que tudo o que sair da minha boca obedecerá a uma lógica e nunca a qualquer obra do acaso, mesmo tendo eu passado a vida a brincar com palavras.
Prometo que será praticamente impossível distinguir entre eu estar a falar a sério ou a brincar, o que constituirá, senhora, uma espécie de jogo imprevisível para seu deleite ou – pelo contrário – desespero.

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O CANTO DA SEREIRA

HOLY ESQUE | REVERENCE FALLS

Criança, homens e mulheres, esmagam-se contra o respeito e a liberdade de cada um na tentativa de embarcarem naquele navio que parece ter sido resgatado do fundo do mar. Não sabem ao que vão, apenas do que fogem. Mais vale ficar a meio da viagem, no fundo do mar, que continuar a ter apenas pesadelos todos os dias, acordados e a dormir. Ao menos terão umas horas pela frente para sonhar, para sentir o nervoso miúdo de chegar ou não chegar a um país que onde as pessoas possam escolher em que passeio caminhar, onde a pobreza possa ser um ponto de partida para outra coisa e não seja sempre o caminho e o ponto de chegada. Terão horas para sonhar com uma qualquer terra prometida, porque aqui não chegam nunca a valer uma vida que seja, e todas as promessas são intenções de punição, ou por nada ou por ódios herdados à nascença.

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ASSUMIDAMENTE INCÓGNITO

WORKING MEN’S CLUB | BAD BLOOD

Encontro-te na cave, nesta linha de baixo, no dance floor das noites que se fazem por esquecer, tantas e tantas vezes sem sucesso. Mas há sempre a música, os locais para que nos transporta o grave baixo, os alter egos que acordam em nós, and so on and so on. A voz e a guitarra, lá está, seguem a linha de baixo que comanda os destinos, as delas, o teu e o meu. E tudo são luzes que se fundem em cores impossíveis, pessoas em movimentos slow motion, sombras contra a luz ou corpos luminosos a favor dela. E nós, na brava dança de corpos que dão tudo, mágoas deixadas à porta de casa, num caixote qualquer, entregamo-nos numa luta corpo a corpo que se faz de paz e desejo. Estas eram os noites passadas, em dias de fumo e fogo, na cave de um clube nocturno a que desejamos vida eterna.

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O MUSEU DA HISTÓRIA NATURAL DO COSTUME

FUTURE ISLANDS | FOR SURE

Não é por amanhecer mais tarde ou mais cedo que os dias são todos diferentes.
Não é por as noites terem mais estrelas ou nuvens que as escondem, que os dias morrem todos diferentes.
Não é nem pelo frio nem pelo calor que se faz a diferença entre todos os dias, os que nos escolhem ou nos abandonam.
Nada disso são mais do que consequências da organização do universo que nos abriga e nos dá o chão.


Cada um vê nos dias e nas noites, afinal, aquilo que traz dentro de si,
Que é aquilo que faz o que de si se faz.
Somos tão diferentes entre nós que qualquer semelhança é um caso de estudo,
Uma coincidência em que qualquer semelhança com a realidade é pura influência ou contágio,


Somos a cura uns dos outros, mas com o comportamento infanto-senil de quem não toma o xarope porque tem um amargo de boca,
Mas vamos longe, tão longe como podemos, cada vez mais longe uns dos outros,
Cada vez os prédios são mais altos, com mais gente e sem vizinhos que saibam quando vamos estar ausentes para nos guardarem a casa,
E só nos bairros pobres as crianças brincam na rua e ninguém se apercebe que brincar na rua é um sinal exterior de riqueza.

E assim empobrecemos todos, igualmente, apenas de formas diferentes,
Enquanto no imediato todos lutamos pela gorda galinha, que no final se resume a algo palpável e mensurável, apenas,
E como gostamos e valorizamos tudo aquilo que se pode medir e pesar,
Abdicando dos sonhos imateriais, remetendo-os para caprichos do indivíduo e do seu inconsciente.

É assim que impera o inconsciente sobre o nosso comportamento, cedemos ao seu capricho para ficarmos mais leves e sermos mais velozes na corrida à galinha,
E damos assim um confortável e seguro lar ao ego e uma liberdade negligente ao inconsciente,
E os dois, juntos, conspiram contra o nosso verdadeiro e fundamental sucesso, a que esporadicamente chamamos “ter o controlo sobre o que na nossa vida podemos controlar”.
Mas não, escolhemos viver no medo de tudo o que não podemos controlar e na insegurança de tudo aquilo que podemos, mas não sabemos.

E agora que há fundos de investimento para tudo, para a saúde e para a doença,
Não houve uma alma que, sem ter que se resumir a fazer caridade aqui e ali, criasse um fundo de investimento para o autoconhecimento, para que todos nós percebêssemos, de uma vez por todas, que somos mais todos iguais do que somos diferentes.
As diferenças entre todos edificam-se fora de nós e entram-nos pela alma como uma gripe, nunca nascem de dentro para fora.

Não conseguimos sequer aprender e imprimir no curso dos nossos acontecimentos que esses filhos que nascem de dentro para fora resultam num amor incondicional,
Difícil fazer um boneco tão fácil de compreender, para depois replicarmos esse tipo de afectos com os outros, com as coisas, praticarmos a tolerância para com todos os caminhos que tenham coração,
É neste ponto de evolução, individual, tão massiva e colectiva, que estamos neste momento da nossa existência,
Como carneirada cheia de si que sem sabendo apenas espera que o universo nos varra do chão para começar tudo outra vez mas em melhor.

Aqui aplica-se o conceito, na minha opinião, da idade e de envelhecermos. Vou falar em causa própria, mas partindo do principio que dentro e no fundo de nós somos todos iguais,
Trocava a minha idade para ter quinze anos outra vez e poder brincar na rua e não carregar em pleno essa coisa da responsabilidade?
Deus me livre, e ter que abdicar de todo o trabalho que me trouxe aqui e ter que aprender tudo outra vez?
Gostava mesmo era que pudéssemos colectivamente recorrer ao fundo de investimento para o autoconhecimento e não ter que ser o próximo esqueleto de museu que junta pessoas desse novo mundo doidas para me registar para memória futura.

FINGERS CROSSED

THE POSTAL SERVICE | SLEEPING IN [LIVE]

Ele – “Dava um dedo mindinho do pé para ter estado neste concerto em São Francisco.”

Ela – “Hahahahahaha! E as vezes que já disseste isso?”

Ele – “Verdade”

Ela – “Já não tinhas dedos nem nos pés nem nas mãos! Hahahhaha”

Ele – “Estás parva? Preciso deles todos para dançar e cenas! Mas que havia por aí muita gente sem dedos à minha conta, isso havia”

Ela – “E se encontrasses alguém num concerto sem dedos?”

Ele – “Disfarçava, sei lá… se calhar, só naquela, perguntava-lhe – ‘É impressão minha ou já demos dois dedos de conversa?’ “

UMA HISTÓRIA SIMPLES

HANNAH GEORGAS | PRAY IT AWAY [FEAT. MATT BERNINGER]

Se há coisa que nunca fez foi falar sozinho, por muito que estivesse que estar sempre a falar, era mais forte que a sua inquietação, imaginação e necessidade de partilha do pensamento. Para tal criou três pseudónimos e fez questão que dois deles fossem mulheres, ficava mais equilibrado assim: dois homens e duas mulheres.

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“COVERS” OU NÃO “COVERS”?

NATION OF LANGUAGE | GOUNGE AWAY [PIXIES]

São raros os “covers” que me convencem à categoria do “respect”.
Eu diria que um “cover” de Pixies seria impossível fazer com que tal acontecesse. Bem, em boa verdade é “practicamente” impossível. E a explicação é simples e a minha falta de imparcialidade também: é uma das bandas da minha vida, como a maior parte das bandas da minha vida foram-nas porque criaram uma sonoridade muito própria e criaram no universo da música um espaço só delas, porque os temas eram na esmagadora maioria dos casos muito bons o que lhes conferia uma consistência que está ao alcance de muito poucos (nunca era igual, mas trazia um fio condutor ou denominador comum que funcionava como uma marca d’água que os autenticava como obra de arte).

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O POEMA DE UM PIANO DE CAUDA NO SALÃO

NICK CAVE | HE WANTS YOU [LIVE AT ALEXANDRA PALACE 2020]

É aqui, neste disco absolutamente de génio em bicos de pés, que o piano fala mais alto, não obstante Nick Cave ter uma extraordinária voz, mas aqui, também com mérito deste cantautor entre os melhores das últimas três décadas, o piano diz-te tudo o que queres ouvir, não mais.

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