Arquivo de etiquetas: 4AD

HISTÓRIAS DE UM CADERNO BRANCO EM CAPA DE COURO

FUTURE ISLANDS | HAUNTED BY YOU

Acordou com um poema torto na cabeceira. Não se recordava de o ter começado, mas ali estava ele, a gritar por sentimentos, estampado na face de uma página branca num caderno despido, de capa de couro.

Mal conseguia dizer merda qualquer, a garganta cheia de versos em novelo. António era todo ele um desperdício de frases sem sentido, que se haviam estilhaçado nas paredes dentro de si, talvez a dormir, talvez.

Continuar a lerHISTÓRIAS DE UM CADERNO BRANCO EM CAPA DE COURO

O MUSEU DA HISTÓRIA NATURAL DO COSTUME

FUTURE ISLANDS | FOR SURE

Não é por amanhecer mais tarde ou mais cedo que os dias são todos diferentes.
Não é por as noites terem mais estrelas ou nuvens que as escondem, que os dias morrem todos diferentes.
Não é nem pelo frio nem pelo calor que se faz a diferença entre todos os dias, os que nos escolhem ou nos abandonam.
Nada disso são mais do que consequências da organização do universo que nos abriga e nos dá o chão.


Cada um vê nos dias e nas noites, afinal, aquilo que traz dentro de si,
Que é aquilo que faz o que de si se faz.
Somos tão diferentes entre nós que qualquer semelhança é um caso de estudo,
Uma coincidência em que qualquer semelhança com a realidade é pura influência ou contágio,


Somos a cura uns dos outros, mas com o comportamento infanto-senil de quem não toma o xarope porque tem um amargo de boca,
Mas vamos longe, tão longe como podemos, cada vez mais longe uns dos outros,
Cada vez os prédios são mais altos, com mais gente e sem vizinhos que saibam quando vamos estar ausentes para nos guardarem a casa,
E só nos bairros pobres as crianças brincam na rua e ninguém se apercebe que brincar na rua é um sinal exterior de riqueza.

E assim empobrecemos todos, igualmente, apenas de formas diferentes,
Enquanto no imediato todos lutamos pela gorda galinha, que no final se resume a algo palpável e mensurável, apenas,
E como gostamos e valorizamos tudo aquilo que se pode medir e pesar,
Abdicando dos sonhos imateriais, remetendo-os para caprichos do indivíduo e do seu inconsciente.

É assim que impera o inconsciente sobre o nosso comportamento, cedemos ao seu capricho para ficarmos mais leves e sermos mais velozes na corrida à galinha,
E damos assim um confortável e seguro lar ao ego e uma liberdade negligente ao inconsciente,
E os dois, juntos, conspiram contra o nosso verdadeiro e fundamental sucesso, a que esporadicamente chamamos “ter o controlo sobre o que na nossa vida podemos controlar”.
Mas não, escolhemos viver no medo de tudo o que não podemos controlar e na insegurança de tudo aquilo que podemos, mas não sabemos.

E agora que há fundos de investimento para tudo, para a saúde e para a doença,
Não houve uma alma que, sem ter que se resumir a fazer caridade aqui e ali, criasse um fundo de investimento para o autoconhecimento, para que todos nós percebêssemos, de uma vez por todas, que somos mais todos iguais do que somos diferentes.
As diferenças entre todos edificam-se fora de nós e entram-nos pela alma como uma gripe, nunca nascem de dentro para fora.

Não conseguimos sequer aprender e imprimir no curso dos nossos acontecimentos que esses filhos que nascem de dentro para fora resultam num amor incondicional,
Difícil fazer um boneco tão fácil de compreender, para depois replicarmos esse tipo de afectos com os outros, com as coisas, praticarmos a tolerância para com todos os caminhos que tenham coração,
É neste ponto de evolução, individual, tão massiva e colectiva, que estamos neste momento da nossa existência,
Como carneirada cheia de si que sem sabendo apenas espera que o universo nos varra do chão para começar tudo outra vez mas em melhor.

Aqui aplica-se o conceito, na minha opinião, da idade e de envelhecermos. Vou falar em causa própria, mas partindo do principio que dentro e no fundo de nós somos todos iguais,
Trocava a minha idade para ter quinze anos outra vez e poder brincar na rua e não carregar em pleno essa coisa da responsabilidade?
Deus me livre, e ter que abdicar de todo o trabalho que me trouxe aqui e ter que aprender tudo outra vez?
Gostava mesmo era que pudéssemos colectivamente recorrer ao fundo de investimento para o autoconhecimento e não ter que ser o próximo esqueleto de museu que junta pessoas desse novo mundo doidas para me registar para memória futura.

“COVERS” OU NÃO “COVERS”?

NATION OF LANGUAGE | GOUNGE AWAY [PIXIES]

São raros os “covers” que me convencem à categoria do “respect”.
Eu diria que um “cover” de Pixies seria impossível fazer com que tal acontecesse. Bem, em boa verdade é “practicamente” impossível. E a explicação é simples e a minha falta de imparcialidade também: é uma das bandas da minha vida, como a maior parte das bandas da minha vida foram-nas porque criaram uma sonoridade muito própria e criaram no universo da música um espaço só delas, porque os temas eram na esmagadora maioria dos casos muito bons o que lhes conferia uma consistência que está ao alcance de muito poucos (nunca era igual, mas trazia um fio condutor ou denominador comum que funcionava como uma marca d’água que os autenticava como obra de arte).

Continuar a ler“COVERS” OU NÃO “COVERS”?