Arquivo de etiquetas: BROKEN FLOWERS

A CARTA ENVIADA NUM AVIÃO DE PAPEL

NEV COTTEE | OPEN EYES

Sandra, dona de um contagiante e lindo sorriso, eternamente sedutor por muito que custe a todos aqueles que lhe caem aos pés, naquilo que julgam seu um grande sofrimento, só porque ainda não caíram na cama depois de arranharem os joelhos a seus pés, tendo então que sobreviver aos dias, semanas e até meses que se seguem.

Mas não foi assim que apareceu hoje aos teus olhos, a cruel frieza que julgaste um dia ser própria de Sandra, não é afinal apenas de Sandra, é como uma chuva molha parvos que não perdoa quem a desvaloriza, e percebes pela tranquilidade que traz consigo que também Sandra já se molhou umas quantas de vezes neste anos todos que passaram. Mas chegou feliz e com atitude de mulher resolvida, pessoa que não chegaste nunca a ter o prazer de conhecer.

Sentou-se confiante com a leveza de uma pluma ginasticada na cadeira da esplanada. Tinham passado muitos anos, e o perdão, de certa forma, tornas-nos mais benevolentes e muito mais jovens e leves, E ali percebeste que ambos se haviam perdoado por terem sido na altura isso mesmo: jovens. É que a juventude, sendo altamente invejável é alvo de condenações que a transcendem, resultando em inquisitórias acusações gravosas. O perdão, esse, chega em certos casos a ser arriscado, por ser pouco acautelado pela observação de boas práticas no outro, ou em nós próprios, mas nunca é tão nefasto quanto o rancor. Esse, o rancor, é uma força bruta devastadora de almas, princípios e valores, não olhando a meios para não ceder ao que é mais natural na inteligência e humanidade que foi dada a todos por igual.: a capacidade de perdoar, passar à frente, resolver na verdade um trauma, uma experiência menos feliz ou outra grande pancada qualquer. É apenas a história das vossas vidas e a forma como a digerem que vos faz capitular nas guerras da vida, uma por uma, de fininho, mas com determinação, roubando-vos o verdadeiro poder absoluto de perdoar, convencendo-os que a verdadeira força reside no poder de julgar e condenar. Como vos enganais.

Parece não ter sido o vosso caso, que bom. Bom para os vossos corações que podem continuar a aceitar incertezas em vez da vossa razão abrir comportas de fuga a toda a hora, até, imagine-se, em plenos momentos de felicidade absoluta, como se o amanhã fosse um perigo à espreita. À cautela é melhor condicionar a felicidade a um estado transitório que pode dar merda, tornando esta manobra na felicidade vigente. Pois pode! E então? O mais seguro nesta nossa existência, meus dois amigos, é que vamos todos morrer, quanto mais tarde melhor, está claro, mas o que realmente importa no final é aquilo que nos faz sorrir antes dos olhos se fecharem. Escolham fechá-los de sorriso estampado na cara, sem medos, porque nada acaba, tudo de regenera de alguma forma.

Despediram-se sem vontades de adeus, de até à próxima. Mais desejavam saber onde se podia jantar a seguir, afinal de contas havia duas vidas para serem contadas, sem o peso do passado, apenas com as gargalhadas que as vidas provocam, quando contadas com o devido distanciamento, de tão ridículas que são vistas de cima de um monte de tempo.

Não sei se foram para casa, se foram jantar, se se viram mais vezes, ficarei sem saber porque nunca mais vos vi. Fui-me embora, nesse preciso momento de indecisões e cerimónias, sem ver os dois beijinhos ou o abraço, ou quem sabe o “vamos no teu carro ou no meu?”, Queiram desculpar-me mas andava meio preocupado e cansado e não fazia a menor ideia que a minha vida mudaria drasticamente dois dias depois ao ponto de me levar para Tóquio, cidade onde vivo, desde então, faz precisamente hoje 7 anos. Espero-vos bem, seja lá de que forma for
Eu estou bem, continuo a tentar envelhecer a criança que há em mim, mas o raio do miúdo é sábio e resistente.
Com o amor que me compete, assim me despeço, desejando que tenham ficado amigos para sempre.