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POEMA DE UM HOMEM, ESCRITO A SEIS CORDAS DE UMA GUITARRA

GABRIEL NAÏM AMOR | BACKPORCH MOMENT

Um tipo sabe lá o que lhe vai na alma quando a alma não é pequena e por lá se podem encontrar caixas e caixotes. Tudo arrumado, é certo, mas tudo a bulir, a queimar carvão, a derreter borracha na estrada da vida, a banda sempre a tocar e mais o caneco. E depois um fica baralhado com tanto movimento.

O caneco é aquilo que todo o ser parte de vez em quando só por estar vivo, é o dar merda, depois há pessoas que só nasceram para isso e outras que quase não partem um caneco durante a vida inteira, e o que partiram é assunto nos ajuntamentos da família até mesmo depois da sua morte.

“Lembras-te quando a avó Ilda passou aquela tarde a falar com aquela miúda e a chamar-lhe Jorge, porque achou que ela era um rapaz?” – e Todos se riem muito, já com a avó Ilda estendida na sua espreguiçadeira lá num bar de praia no céu.

É então que a prática de partir o caneco exige demasiado saber e sentido de equilíbrio, por um lado pode fechar a porta dos céus à chave para uns ou, se doseado com sapiência, garantir a imortalidade e ao mesmo tempo fazer com que o nosso nome esteja na guest list do Paraíso.
A imortalidade, essa, é sempre garantida, até para os que não fazem outra coisa senão partir os canecos todos: os deles e os dos outros. Podem é continuar o caminho a rastejar por falta de membros e verem-se a mudar de pele duas vezes por ano e a levar refeições frugais de sapos se querem seguir uma vida santa, caso contrário, em caso de fartos repastos gastronómicos estão condenados a pagar a pronto o pecado da gula e, no comer de uma cabra-de-leque, não saem sequer da mesa sem fazer a digestão até ao fim, processo que pode levar dois ou três dias, sem direito a um medronho ou qualquer outro digestivo

A prosa poética de um fulano chamado Gabriel Naïm Amor, que se diz do UK e de França, não parece ser grande coisa. A obra, é curta e instrumental, antes assim. A fraqueza da sua poesia é assim facto comprovado com uma presença numa colectânea onde canta em francês.
É pena, pois havia muito bom poeta de coração cheio de versos por bombear que daria cinco dedos dos pés e três das mãos para se chamar Gabriel Naïm Amor e poder então semear toda a poesia que nele habitasse com um selo de prestígio e qualidade percepcionada à priori.
Mas o verdadeiro Gabriel poema a seis cordas, desafiando-nos a soltar o artista das palavras que morar dentro de nós, assim, de fininho, num manto branco de linho fino com notas de guitarra bordadas.