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NEM TUDO O QUE ÉTER CURA

KURT VILE | ONE TRICK PONIES

Ouvia os discos como lia os livros, do princípio ao fim, não sabia saltar uma música nem mudar de disco a meio, como não conseguia ler dois livros ao mesmo tempo. Um dia apaixonou-se por uma mulher e havia uma canção, como que a banda sonora deles. Um dia ruiu o amor, ruiu a vida como a conhecia e como a sabia viver, caiu-lhe a música do coração abaixo, desfazendo-se em mil notas sem sentido, no chão daquela que era a casa deles, agora apenas quatro paredes a que não ousava chamar de casa. O desgosto foi mortal, nunca mais ouviu um disco. Ensurdeceu para melodias numa trágica existência povoada de fantasmas que habitavam os livros de capa dura que lia do princípio ao fim, à luz fria de um candeeiro de cabeceira. E tudo era um éter suportável pela tristeza em que se tornou. Não regressou nunca.