Arquivo de etiquetas: NETTWERK MUSIC GROUP

A BRECHA NO CORPO COM VISTA PARA A ALMA

HOLLOW COVES | PATIENCE

O que mais belo existe na escrita, poesia ou prosa poética, é que ela é tantas e tantas vezes um fato à medida para pessoas de diferentes constituições físicas . Ela assenta bem, elegantemente, como se tivesse sido escrita para uma determinada pessoa, mas são tantas e mais tantas as que vestem as palavras com o mesmo encanto, vaidade ou amor próprio.
Por vezes choram ao espelho porque sentem na textura das palavras um tecido que lhes toca em zonas de que procuram fugir, às vezes gargalham-nas porque as lêem no sítio certo e à hora certa.

Continuar a lerA BRECHA NO CORPO COM VISTA PARA A ALMA

OS SANTOS TAMBÉM LAMBEM AS ASAS FERIDAS

FINN ANDREWS | STAIRS TO THE ROOF

Não era suposto terem morrido todas as plantas do seu jardim,
Em chuvadas de verão e de medos absurdos,
Não julgou que um dia morressem todas as árvores do seu pinhal,
E que crescessem no seu lugar, o receio de se dar,
E todos os aromas silvestres eram afinal sonhos e esperanças vãs.

Disse dela para ela que isto aconteceu mesmo antes de virem as chuvas,
As que levam tudo com o fluxo das águas que descem a montanha,
Num crescendo rua abaixo, bairro acima,
E enquanto o seu coração chora às suas escondidas,
Crianças brincam na corrente das águas com sal de lágrimas.

Mãe, lembras-te? Foi naquele ano que ainda o chão colava a sardinha,
Andavam os Santos da cidade a fazer as malas e a limpas as asas,
Choveu mesmo, mãe? Ou sou eu que imagino que choveu tanto.
Choveu, amor, dentro das duas, da rua não me lembro ao certo,
Mas a mim já me cai tudo dos bolsos quando ando, até as memórias.

Mas ela lembrava-se, recordava-se pelo menos de o ter sonhado,
Chegou a perguntar à porteira – “menina eu nem sei o que jantei”,
Cegou a perguntar a si se importava tanto onde havia chovido,
Se o que importava era ter acordado debaixo da enxurrada,
Com as roupas coladas ao corpo e com as certezas a tremerem.