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AMOR BEIRÃO

SAMUEL ÚRIA | O MURO

António agarrava-se ao livros sempre que queria fugir de alguém, de alguma coisa, da lua nova ou mesmo de tudo e de todos. Havia naquele miúdo, sabiam todos, um génio e um louco, um poeta e um palhaço. O pai dizia que : “Isso de palhaço e de poeta é quase a mesma coisa, a diferença é que os poetas não andam por aí com as caras pintadas o que dificulta em muito identificá-los, passam por pessoas normais que acabam invariavelmente por magoar alguém com a dor que trazem dentro deles”

Óscar, para além de António, o seu filho mais velho com 17 anos acabados de roubar à vida, era pai de mais três raparigas, todas mais novas que António e uma das razões desta sua afirmação era saber que vivia suficiente poesia dentro de António para quebrar cinquenta corações de meninas, raparigas que se fariam um dia mulheres como se fariam as suas filhas. E isso é que não! Poetas não os queria por perto

Mais dias levou as mãos à cabeça quando António começou a pegar numa guitarra que comprou usada, de um músico vizinho conhecido para lá das ruas do seu bairro, e lhe começou a juntar as palavras que escrevia em cadernos que se amontoavam lá por casa. Óscar, por sinal, nunca tinha tido curiosidade de lhe pedir para lhe ler alguma coisa que o filho havia escrito nem mesmo folheado nenhum desses cadernos às escondidas, por orgulho, falta de interesse, fosse o que fosse.

Só verteu uma lágrima quando António se casou com Mariana, com quem haveria de passar toda a sua vida, até ao fim dos seus nasceres e pores do sol. Saiu-lhe tudo ao contrário, a Óscar Batalha, mas já não era vivo para constatar o erro, e se tinha orgulho do seu filho, reconhecido músico desde cedo e por muitos anos, pelas suas letras entendidas por qualquer coração que batesse no ritmo e na direcção certa, nunca teve a felicidade de o exercer, de o partilhar com o filho, nem mesmo quando as suas filhas lhe compravam bilhetes para a primeira fila do Coliseu do Porto, para a Casa da Música e mesmo fins de semana em Lisboa para irem acarinhar a arte e a pessoa de António pelas salas de espectáculos mais importantes da capital.

António morreu de amor por Mariana até ao fim, todos os dias dizia morrer mais um pouco de amor por ela. Dizia-o apenas aos amigos e colegas de banda, nunca a ela, mas era o que sentia. A sua vida dava-a a toda a gente, mas a sua morte só a dedicava a Mariana, e dizia: “É que ninguém vai para o céu por dar. A não ser por ‘dar um tiro nos cornos’, mas mais nada. Por isso devemos dar a todos. Agora.., para o céu? Para o céu só se vai morto, e morrer, para mim, só mesmo por amor e só sei amar aquela mulher, pelo que a forma de me ir já eu escolhi há muito tempo, mas vou o mais devagar que posso, porque enquanto ela vai lá ter e não vai, já sei que vou cantar saudade dia e noite.