Arquivo de etiquetas: OS SANTOS TAMBÉM LAMBEM AS ASAS FERIDAS

OS SANTOS TAMBÉM LAMBEM AS ASAS FERIDAS

FINN ANDREWS | STAIRS TO THE ROOF

Não era suposto terem morrido todas as plantas do seu jardim,
Em chuvadas de verão e de medos absurdos,
Não julgou que um dia morressem todas as árvores do seu pinhal,
E que crescessem no seu lugar, o receio de se dar,
E todos os aromas silvestres eram afinal sonhos e esperanças vãs.

Disse dela para ela que isto aconteceu mesmo antes de virem as chuvas,
As que levam tudo com o fluxo das águas que descem a montanha,
Num crescendo rua abaixo, bairro acima,
E enquanto o seu coração chora às suas escondidas,
Crianças brincam na corrente das águas com sal de lágrimas.

Mãe, lembras-te? Foi naquele ano que ainda o chão colava a sardinha,
Andavam os Santos da cidade a fazer as malas e a limpas as asas,
Choveu mesmo, mãe? Ou sou eu que imagino que choveu tanto.
Choveu, amor, dentro das duas, da rua não me lembro ao certo,
Mas a mim já me cai tudo dos bolsos quando ando, até as memórias.

Mas ela lembrava-se, recordava-se pelo menos de o ter sonhado,
Chegou a perguntar à porteira – “menina eu nem sei o que jantei”,
Cegou a perguntar a si se importava tanto onde havia chovido,
Se o que importava era ter acordado debaixo da enxurrada,
Com as roupas coladas ao corpo e com as certezas a tremerem.