Arquivo de etiquetas: POP

CARTAS PERDIDAS

SUN JUNE | EVERYTHING I HAD

Escreves-lhe uma carta que envias pelo correio, com caligrafia cuidada, de selo lambido com olhos fechados, como um beijo que se tenta eternizar em bicos de pés, mas que sabes que se perderá mais depressa do que se perdem as próprias cartas nos passos incertos dos carteiros.

Foste dominado por um forte desejo de cair num sono profundo, redondo, num abraço sem fim, tudo num rio de saudades ditas em palavras armadas em parvas, feitas inúteis nas bolsas de carteiros com cabeças de vento.

TRATADOS

SON LUX | EASY (FEAT. WOODKID, LIVE AT MONTREUX JAZZ FESTIVAL 2016)

Não foram raras as vezes que ouvi do António que “os números são letras sem asas”, explicando ele e muito bem que por isso eram letras desprovidas da capacidade de sonhar, de criar, de se reinventarem a seu bel-prazer. Somos amigos desde sempre, hoje sabemos bem que para sempre, e temos em comum, entre tantas outras coisas, o gosto pelo potencial poético das letras e um certo jeito para os números, mas tão só apenas para com eles desenharmos complexas equações que representem certezas, possibilidades e possíveis soluções, na esfera dos cenários da vida mundana.

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THE DIVINE COMEDY OF A CHARMING STORYTELLING

THE DIVINE COMEDY | A LADY OF A CERTAIN AGE

Há bandas maravilhosas, que somam talentos na sua formação, que fazem de um concerto um momento de espectáculo, que criam no espaço de duas horas uma relação com o público que chega a ser íntima. Há bandas que a multiplicar por tudo isto, compõem canções sem data, capazes de serem ouvidas em qualquer década, como um aparador de design nórdico consegue prometer a quem o compra que será actual até ao fim dos dias ou como um fato de bom tecido, de qualidade, discreto e de bom corte que sabe que pode ser usado durante mais de uma década sem perder a sua elegância e muito menos a cabeça, destruindo-se em mil ideias sem sentido.

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SPRINGOLOGY

THE AVENER & MAZZY STAR| FADE INTO YOU (THE AVENER REWORK)

They found themselves in the soft warm of the fields where wildflowers opened up for the Spring.
He told her that he was waiting to read her soul, deep in her eyes, many poems ago.
She kissed his cheek, then she touched his lips with her will.
And the rain started to smile in the sunny day.

A HISTÓRIA DA FÉ E DA FEZADA

STILL CORNERS | STATIC

Percebes agora meu amigo porque a fé não deve ser submetida ao desastre dos homens? Percebes agora porque sempre te o disse que estes conspurcam qualquer vontade de justiça divina quando a têm que escolher entre um par de cobres? Um homem pode nascer para crescer aprendendo que as pessoas desiludem muito, que faltam à sua honra com o mesmo desrespeito com que deixam um qualquer nobre homem sentado numa cadeira aguardando pela chegada da sua sobranceria, mas jamais se educa a ele próprio para que se lhe desaponte a graça e lhe caia a estrutura de valores por causa de uns pobres beatos coitados que perante a escolha da estrutura de nobres valores que lhes foram (mal) transmitidos, e que em contaste com o brilho de duas sujas moedas de latão, não hesitam e correm aos tropeções atrás das toscas rodelas de latão, trôpegos na ganância, aliviando a carga dos profundos valores para lá chegarem mais rápido, assim como um barco larga a carga ao mar para chegar mais depressa a terra.

Não consigo imaginar que sentimentos despertam na almofada que lhes suporta o peso da ganância, coitada, da almofada, claro. Imagino-a com as penas encolhidas por tamanha vergonha alheia.
Por isso te disse sempre que a maior parte daqueles que se juntam para celebrar a fé cumprem, na esmagadora maioria, um ritual social, não de fé, e nesses lugares eu não marco presença, amigo, o meu compromisso é com Ele, não com as famílias e amigos, trajados de Domingo. Porque para grande tristeza da espécie tudo ali nasce ao Domingo para ser morrer e ser enterrado às três pancadas à Segunda-Feira.

Assim, tais celebrações nada celebram de dignidade e de solidariedade e mais valia não servirem de exemplo ao exercício da fé. E assim como a democracia, vai também a tua igreja – não a minha, que essa não tem paredes – perdendo bons voluntários, porque cada homem que é enganado por um crente, são menos dois ou três que a tua igreja perde em nome desse homem.

Ao contrário do rapaz que fala com Ele, não para ver ou ser visto por alguém que não Ele mesmo, que Lhe fala em privado, em pacata descrição na sua casa, que está certo que só na verdadeira humildade da prática do bem e sem pré-conceitos e sem pré-juízos, se leva alguém até Ele.

Pobres os que se servem D’ele, mas Ele saberá para quê o representam de tal forma, e onde chegarão, disso eu não tenho dúvidas meu amigo, e muito respeito todos aqueles que o servem sem alarido e vaidade.
Cada vez mais me convenço que muitos crentes vão à casa de Deus apenas porque não tem a sua casa em condições de o receber.

CANDEEIROS LEVA-OS O VENTO

RHYE | COME IN CLOSER

Debaixo da sombra de meia garrafa de um robusto e aconchegante tinto, numa noite de frio sobre frio, ele deu com ela num banco no jardim do Príncipe Real. Ela chorava algo ou alguém, ou talvez fosse só a sua reacção ao frio que se soprava rajadas intermitentes, arrastando com ele um gelo vindo do norte.

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TRISTES SÃO AS NOITES DAS ESTRELAS QUE MORREM CADENTES EM VOOS DE OUTONO

EEFJE DE VISSER | ONGEVEER

Se é na beleza que te moves, meu amor, acerta o passo comigo,
Peço-te pelo sagrado, e até pelo profano que possa existir em ti,
Acerta o passo comigo pois comigo mora uma caixa sem paredes,
Onde o vento contrário às promessas me mata as flores lá dentro,
Tornando o meu jardim interior no mais árido deserto em ferida.

Acorda então meu amor, já é hora de a vida voltar a acontecer,
De espalhar pelo Outono das ruas as folhágrimas de felicidade,
De se gargalhar do alto da rua, na estrada onde andam os pássaros,
Na linha onde as estrelas morrem cadentes de peito cheio de amor,
Noite que brilha nas faces e que se mira vaidosa no espelho da escuridão.

Escura a noite,
Vento a mentira,
Estrelada a verdade,
Gargalhada o amor,
Todos respondem pelo seu nome.

À BEIRA DE UM BOM LIVRO

KID WISE | HOLD ON

” […] A vida ensinara-me isto: o inferno da humanidade é a humanidade. Podem bem existir centenas de doenças capazes de acabar connosco, centenas de caminhos para a nossa ruína, mas tudo isso não é nada comparado com a devastação que nos pode causar outro ser humano […]”

Ahmet Hamdi Tampinar, em “O Instituto Para o Acerto dos Relógios”, ano de 1954

O TEU NOME NUM FIO DE VOZ

ALEX CAMERON | MIAMI MEMORY (DEMO)

Foi num fraco fio de voz que ouviste chamar por ti.

Paraste e não te voltaste para trás por um tempo que pareceu o necessário para que a história das vossas vidas fosse contada numa longa metragem para cinema, numa duração nunca inferior a um “Tudo o Vento Levou”.

A voz dela… que era apenas nesse momento um resto do que havia sido um dia, ancorada num peso fundeado em notas de uma dor que se instalou para ficar.

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