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QUANDO PROCURO OS MEUS ÓCULOS DE VER AO PERTO, SÓ ESPERO QUE ESTEJAM LONGE

SCOTT MATTHEW | THE WISH (OFFICIAL VIDEO)

O assunto é sério, importante, urgente. Bolas, há pressão maior para colocar em cima da mesa? Sério, importante e urgente é como uma ponte de sentido único que se vai desfazendo à tua passagem, perseguindo velozmente os teus passos rápidos em fuga, à medida que vês apenas um nevoeiro que engole a ponte, bem na frente dos teus olhos, numa boca de ponto de fuga. Ficas então entregue à esperança, à sorte de que a ponte pouse o seu fim e o seu propósito em chão firme, que podes esperar mais senão isso?

Viver tranquilo na incerteza parece ser uma faculdade de muito poucos, ou uma certa angústia, se pensares que te encontras tão só, amiúde, no vislumbre de abismos e muros intransponíveis, pelas razões justificadas de tantos e de todos e mais alguns, apenas olhados como banais obstáculos do alto do optimismo por aqueles capazes de sonhar com mais força, aquela força desmedida e desbloqueadora dos cadeados da vida das pessoas que teima mque tem que haver uma chave para tudo. Mas sim, é preciso já ter aprendido a morrer e a viver novamente, sem para isso precisar de ressuscitar, morrer e nascer de morte e nascimento natural. É cena que dói, que faz ferida, que sangra, que traz ar, liberdade, uma sensação real de libertação inigualável. Sem tudo isto não há sonhador que resista. Tu sabes como é difícil resistir às forças que remam contra a sua corrente, não sabes? Sai caro o ar puro dos que sonham e o sol, esse, queima muito os olhos dos que, mesmo que fraquejando aqui e ali no desejável aparente conforto do seu contrário, vêm ao longe o que está para vir e o que tem que acontecer para que venha de lá o inevitável em forma de quente abraço.


É o crepúsculo, sabes? É no crepúsculo que a luz desvenda a magia do incerto, em que as cores tomam tons meio mágicos que revelam coisas, mas é nele que o sol está baixo, olhando-te olhos nos olhos, num fogo posto muitas vezes violento quando olhado a sós.Mas que remédio? Não seguirias outro caminho se nascesses agora novamente, resigna-te ao óbvio e segue o caminho que escreveste para ti. No fundo, humildemente, tu sabes que jamais foste o escolhido, apenas escolheste, tão só isso, portanto…
O momento é decisivo, sério, importante, urgente, e estão todos cientes disso, todos deviam estar no sítio marcado à hora acertada. O Conselho de Estado era isso mesmo: o compromisso de um se mobilizar para o sítio certo à hora marcada, sem falhas, sem excepções. E assim era há décadas. Miles Davis e Bach foram os primeiros a chegar, cinco minutos antes da hora, tal como previsível, obsessivamente compulsivos com a pontualidade exerciam a sua desordem noutros planos, mas nunca no exercício da arte de criar fórmulas e soluções. Sim, tinham dimensões onde deixavam reinar o caos, onde arranjavam um problema para cada solução, mas não na arte da criação, isso nunca. O caos que arranjavam, sabias bem, eram no fundo quebra cabeças que encontravam para se auto motivarem – uma cabeça tem que ser estimulada como se de um músculo se tratasse.
Jim Morrison, Beethoven, Bill Evans e Shane Macgowen aproximam-se em passo apressado e percebes que antecipam ideias sobre alguns pontos da agenda da reunião, mas logo mudam de assunto quando percebem que dada a proximidade já se fazem ouvir pelos demais. Afinal é regra do Conselho de Estado que não se inicia qualquer pensamento, ideia ou partilha de pontos de vista antes de a sessão ter o seu início formal. 


As formalidades do Conselho existem não por motivos de rituais cerimoniais ou tradições de iniciação – não – são apenas o garante de uma certa disciplina necessária para que o motor e fio condutor do que traz os membros ao Conselho atinja toda a sua potência logo nos primeiros minutos da reunião do Conselho de Estado.


Os recém chegados cumprimentam os presentes e é Miles Davis que muda de assunto, com a habilidade que lhe é característica, perguntando por Leonard Cohen, Nick Cave e David McComb, deixando de fora John Coltrane. Todos reparam nisso, claro, mas ninguém estranha, pois Miles jamais se desprendeu da opinião de que John Coltrane, infelizmente para a genialidade universal, não é de fiar no que à disciplina diz respeito. Bem, na verdade, é compreensível a opinião formada por Miles Davis sobre John Coltrane, mas também é igualmente certo de que nunca Coltrane tinha chegado verdadeiramente atrasado a uma reunião do Conselho sendo sempre de uma pontualidade exemplar, mas pronto, lá para Miles, ser pontual é chegar cinco ou quinze minutos antes da hora e portar-se como uma alma ausente para não perturbar a harmonia de quem aguarda a hora certa. Tu, bem… tu sabes que Miles Davis, no fundo, anda meio amargo porque já há muito tempo que vem insistindo, em recomendações formais como mandam as regras, para que sejam incluídos no Conselho de Estado uns três artistas que já haviam partido da sua existência física e material, chegando mesmo a ser bastante azedo quando toca no nome de Mozart, assim como, por outro lado, e no plano dos génios em vida, vem vindo a insistir na ideia de que o Conselho precisa urgentemente de sangue novo, sob pena de começar a ficar comprometida a capacidade de sonhar, criar, e mesmo do Conselho perder o campo de visão de trezentos e sessenta graus que o caracteriza e que faz com que, chegado a consenso tal conclave que elege um Papa, sempre acabe em unanimidade e jamais falhando nas suas previsões, seja lá necessário o tempo que for necessário.


Shane Macgowen e Nick Cave são os únicos que podem trazer esse conhecimento, tu sabe-lo bem, Miles Davis sabe-o também e reconhecem-lhes a ambos a razão da ali estarem (Shane tinha sido aliás proposto por Miles). Sabem portanto os dois que a capacidade de ver mais longe bem como a extrema e rara sensibilidade e iluminação do génio que caracterizava todo e qualquer membro de tão restrito grupo, não se havia esgotado em Shane e Nick, há novos raros génios depois destes que é necessário trazer para o Conselho. A única diferença entre ti e Miles é que Miles é mais irrequieto que tu e tú és mais ponderado. E… bem… afinal de contas és tu que no fim do dia respondes por toda e qualquer escolha e decisão do Conselho (não te invejo, sabes?), mas não é das respostas que cuidas, é das perguntas, o segredo está nas perguntas, assim se façam as perguntas certas e as respostas acabam por surgir naturalmente correctas. Sim, a diferença tremenda destes senhores não está nas respostas que dão, aqui não há lugar para certezas absolutas, a grande diferença está em fazer as perguntas certas para que fluam as soluções.


Coltrane anuncia, anunciando-se também ele próprio, às dez da noite, hora marcada para o início da reunião do Conselho de Estado, e faz o anúncio com três notas de tal forma melódicas e numa sequência perfeita de princípio, meio, fim e profundidade, quando seguidas umas das outras, que parece que deu todo um concerto. Habilidade é talvez a palavra certa para o que acaba de fazer. A ti não te escapa o brilho nos olhos de Miles quando olha e ouve as três notas de John Coltrane, aquele orgulho estampado na cara de um pai que vê o filho a fazer o cesto da vitória para ser coberto de abraços pelos colegas de equipa que o cobrem de abraços no chão. Não contem um sorriso na direcção de Coltrane, que se prontifica a devolvê-lo com respeito e admiração.
Estamos no Solistício do Verão, dez da noite, a noite espraia-se na floresta num manto de estrelas e, como diz Bach ao abrir a sessão: “Bem, se estamos a fazer tudo bem, o que pode correr mal?”