@ THE MOVIES | SMOKE | SORTE DE SÁBADO À NOITE

KEITH JARRETT TRIO | SMOKE GETS IN YOUR EYES

“Smoke” é dos filmes perdidos mais bonitos que vi. Perdidos porque é de 1995 e nem sei como escapou ao meu radar. Realização de Wayne Wang, argumento de Paul Auster. Aos comandos da representação temos Harvey Keitel e William Hurt. Que saudades tinha de William Hurt e como me havia esquecido de quão bom actor é. Bem, Harvey Keitel não é menor, mas é mais assíduo nas minhas memórias recentes.

“Smoke” é feito de uma história maior com pequenas histórias dentro, não cumprindo o lugar comum de várias histórias paralelas que se cruzam para formarem um puzle mais ou menos fixe. Isto sem qualquer menosprezo por excelentes filmes que se fazem desta fórmula, bem como se fazem muito bons livros de Paul Auster. Nada contra, entenda-se.

Uma história maior com pequenas histórias lá dentro, como uma pequena Nova Iorque dentro da grande Nova Iorque, porque Nova Iorque é mesmo assim, com uma vida de bairro que não aparece nas televisões, só mesmo no Cinema. Até nos livros temos dificuldade em transportar o nosso imaginário, quando nas suas páginas surge a Big Apple, para um pequeno mundo de quatro ou cinco ruas, tal é a grandeza com que o mundo que habitamos olha a grande cidade. “Smoke” mostra-nos histórias dum mundo que cabe em meia dúzia de ruas, a Nova Iorque na palma da mão.

Fala-nos de amizades exercidas na descrição, grandes amizades sem que os personagens pensem sobre elas dessa forma, deixando que as suas relações corram apenas com o tempo, tão vagarosamente quanto possível, como deve ser fumado um bom charuto.

“Smoke” faz-se acompanhar também de Tom Waits, o longo do filme, não como actor ou figurante, mas como parte da banda sonora do filme.
Confesso que estive para escrever este post ao som do “Innocent When You Dream” do Tom Waits. Quando o filme acaba, ou vai acabando devagar como se estingue o fumo de um cigarro fumado com prazer, mudei de ideias e decidi escrever ao som de “Smoke Gets In Your Eyes” que dá corpo a esse fim de enorme beleza, ironia, dignidade e de uma imperfeição humana absolutamente perfeita e generosa. Sim, podemos dizer que “Smoke” é um filme generoso, com muita generosidade dentro dele.

Quando usei o Shazam para descobrir a versão que estava a ouvir de “Smoke Gets In Your Eyes”, e antes mesmo de ele me dar o resultado, já eu julgava adivinhar a voz de Bryan Ferry. Mas não, espertalhão, era interpretada pela “Jerry Garcia Band”. Pedi então ao Shazam que me levasse pela mão ao Spotify para escrever afinal esta publicação sob o efeito do tema que acompanha o fim de “Smoke”.

Já no Spotify pude perceber pequenas coisas dentro da grande questão do tema que fecha o filme. Mais uma matriosca neste episódio de Sábado à noite, portanto.
O tema original “Smoke Gets In Your Eyes” é dos “The Platters” (Pai, espero-te bem, amanhã telefono-te), e apesar de me ter enganado ao pensar que a voz do tema na banda sonora do filme era do Bryan Ferry, há de facto uma versão interpretada por Bryan Ferry, só não era a do filme. O mundo, tal como as imensas pequenas Nova Iorque que existem, é mesmo pequeno, Parece que a música acompanha essa verdade não teórica mas definitivamente pragmática, comprovada a cada esquina da vida de cada um de nós.

Era então a versão de Bryan Ferry que me acompanharia, decidi. Só que não. Nisto aconteceu dar com o Keith Jarret Trio a tocar “Smoke Gets In Your Eyes” ao vivo, em Lyon, França, no dia 31 de Julho de 2010, na versão que mais me sentido fazia ouvir enquanto escrevia sobre “Smoke”.

“Smoke” é daqueles filmes em que um gajo deseja estar lá. Dentro da história que existe antes de nascer a história do filme, esse de pequenas histórias lá dentro. Mas na imaginação de um momento, um acontecimento inesquecível, onde num restaurante em Brooklyn um gajo (eu, se faz favor) se encontra à mesa com Harvey Keitel, Wayne Wang, William Hurt, Paul Auster e Tom Waits. Batemos bolas sobre o futuro de uma história à mesa do seu passado, sobre um molho de folhas escritas por Paul Auster, que afinal é um tipo normal. Genial, sim, mas cheio de perguntas, mais do que certezas. E todos procuramos respostas para as perguntas de todos.
E é de uma mesa rodeada de pessoas cheias de perguntas que se vão construindo as respostas para que se faça algo bom, muito bom, com muito mundo lá dentro.

Quem sabe se não foi assim que tudo aconteceu para que se desenhasse “Smoke” como tão bem se desenhou? Eu sei que não foi exactamente assim… mas como gostaria que tivesse sido! Há pequenas obras primas que só podem acontecer quando se somam talentos como estes, que depois se multiplicam, como uma grande matriosca que se revela de dentro para fora.

Por fim dizer-vos que o filme está disponível para aluguer na Apple TV, por 4,00€, que há uma continuação que procuro com voraz apetite, tal como procurei este, e que se chama “Blue In The Face”, realizado também por Wayne Wang mas desta vez com Paul Auster também ao leme da realização. Infelizmente não está na Apple TV nem nas outras plataformas todas que tenho, mas sei que o vou apanhar, só não sei é quando. Entretanto já vi o trailer no IMDB e a continuação, que promete ser mais cómica que “Smoke”, é certamente também ela genial. Há ali muito talento concentrado. É a sorte de Sábado à noite.